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Morte de cientista nuclear iraniano pode complicar plano de Biden por diálogo

O assassinato de um cientista nuclear iraniano, atribuído a Israel, ameaça avivar as tensões na região e complicar o trabalho do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, que destacou a intenção de retomar o diálogo com Teerã.

O Irã acusou na sexta-feira Israel de querer semear o “caos” ao matar Mohsen Fakhrizadeh, de 59 anos, um cientista de alto nível do programa nuclear iraniano, sugerindo que o Estado hebreu agiu com as bênçãos dos Estados Unidos.

Washington não emitiu comentários oficiais sobre a operação, mas o presidente em fim de mandato, Donald Trump, retuitou um artigo e uma análise sobre o caso.

Trump tirou seu país do acordo nuclear internacional com a República Islâmica, alcançado em 2015 em Viena, em nome de uma política de “pressão máxima” contra o Irã que o seu governo está decidido a levar adiante até o fim de seu mandato.

O chanceler americano, Mike Pompeo, que acaba de realizar uma visita a Israel, impôs na sexta-feira novas sanções econômicas contra quatro empresas chinesas e russas, acusadas de apoiar o desenvolvimento do programa nuclear iraniano.

“Esta administração está aí até 20 de janeiro” e “continuará implementando suas políticas até o final”, afirmou recentemente um alto funcionário do Departamento de Estado, que pediu para ter sua identidade preservada.

Pompeo disse esperar que o próximo governo americano “faça bom uso” da “correlação de forças favorável que a administração (atual) está tentando alcançar”, para “pressionar os iranianos a se comportar como um país normal”.

“Sabotagem à diplomacia”

Mas para a maioria dos analistas americanos, o assassinato de Fakhrizadeh é perigoso e debilita a posição de Biden que, ansioso por romper com o unilateralismo de Trump, disse que queria oferecer ao “Irã um caminho de retorno confiável” à diplomacia, “com vistas a reintegrar os Estados Unidos no acordo nuclear” com Teerã.

Para John Brennan, ex-chefe da CIA, o homicídio foi um “ato criminoso e extremamente perigoso”, que corre o risco de conduzir a “represálias letais e a uma nova fase do conflito regional”.

Brennan, chefe da agência de inteligência entre 2013 e 2017 durante a Presidência de Barack Obama e enquanto Biden era vice-presidente, exortou o Irã a “resistir al impulso” de tomar represálias e a esperar “o retorno à cena internacional de líderes americanos responsáveis”.

O governo Trump enviou o porta-aviões USS Nimitz ao Golfo Pérsico, negando que esta decisão tenha algo a ver com o assassinato do cientista iraniano.

A Alemanha advertiu neste sábado, por sua vez, contra “uma nova escalada” da situação, enquanto as Nações Unidas pediram “contenção” às partes.

“Semanas antes de que assuma o novo governo dos Estados Unidos devem ser mantidas as margens de diálogo existentes com o Irã para poder resolver o conflito sobre o programa atômico iraniano mediante a negociação”, disse à AFP um porta-voz do Ministério alemão das Relações Exteriores.

Uma opinião compartilhada por Ben Friedman, professor da Universidade George Washington, para quem este assassinato “provavelmente ajudará a ala dura do Irã, que quer armas nucleares”.

Também constitui “um ato de sabotagem direcionado à diplomacia e aos interesses dos Estados Unidos”, tuitou.

“Esta é uma ação escandalosa, destinada a socavar as relações diplomáticas entre um novo governo dos Estados Unidos e o Irã”, disse Ben Rhodes, ex-assessor diplomático de Obama. “É hora de que termine esta escala contínua”.

No entanto, alguns veem esta operação como uma alavanca que o governo Biden poderia usar em possíveis discussões com Teerã.

“Ainda restam dois meses antes de Joe Biden assumir o cargo”, destacou Mark Dubowitz, diretor do grupo de especialistas conservador Foundation for Defense of Democracies.

“É um prazo suficiente para que os Estados Unidos e Israel inflijam um dano severo ao regime do Irã e deem meios de pressão à administração Biden”. (Uol)

Redação