Geral Nacionais Política

Para público na praça de Maio, grande estrela era Lula: ‘estou aqui por ele’

Milhares de pessoas ocuparam a praça de Maio, na sexta-feira (10/12), em frente à Casa Rosada, sede do governo argentino, para comemorar os 38 anos da retomada da democracia no país, após a ditadura civil-militar, além do dia dos direitos humanos. Mas, nas ruas, o desejo das pessoas presentes era o de ver a grande estrela do evento: o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva

“Estou aqui por Lula. Ele é rei. Só Lula é capaz de acabar com as fronteiras na América Latina de novo”, disse Anselmo Garcia, boliviano de 60 anos, que vive em Buenos Aires há 40 e estava presente no ato com a bandeira de seu país de origem, gritando contra o FMI. A Argentina adquiriu sua maior dívida junto ao Fundo Monetário Internacional – cerca de 45 bilhões de dólares – durante o governo de Maurício Macri (2015-2019). 

Já o aposentado Oscar Zurano, de 71 anos, um peronista convicto, disse acreditar que apenas com a esquerda unida a América Latina poderá ser uma grande potência. “A direita tem crescido e precisamos combatê-la, fortalecer e conversar com a juventude. Lula é uma grande referência e eu tenho certeza que sua presença é uma injeção de ânimo em todos nós argentinos”. 

“Eu estou aqui pela democracia, por Lula e por toda a América Latina. Me preocupa ver tantos jovens se identificando com a direita. Minha presença no ato é também por isso, para mostrar que a juventude está com Lula, Alberto e Cristina”, destacou Evelin San Martin, de 22 anos. E acrescentou: “É o meu primeiro ato. Desculpa não poder dizer muito, é que estou muito emocionada e à flor da pele”, expressou a jovem, que segurava uma bandeira do Movimento LGBTQA+.

Segundo os organizadores, o evento contou com 250 mil pessoas na praça de Maio, entre crianças, famílias, jovens e também aposentados. Bandeiras do Brasil, de movimentos sociais, sindicatos e faixas que diziam “Fora Bolsonaro” e “Lula presidente” estavam presentes no ato. 

A Festa pela Democracia, como o evento foi chamado pelo governo argentino, começou nas ruas por volta das 15h, com muito choripan (pão com linguiça, clássica comida de rua argentina), fernent (bebida local) e música. No palco, bandas locais e uma única banda brasileira, Francisco, El hombre. 

Paralelamente, dentro da Casa Rosada, Lula recebia o prêmio Azucena Villaflor, ao lado do presidente argentino Alberto Fernandez, da vice Cristina Kirchner, do ex-presidente do Uruguai José Pepe Mujica e uma representante do Movimento das Avós da Praça de Maio, histórico movimento que luta por memória e justiça dos crimes da ditadura argentina. 

Amanda Cotrim/Opera Mundi
Público acompanhou atento discurso de Lula na praça de Maio

O prêmio, instituído em 2003 pelo então presidente Néstor Kirchner, tem como o objetivo reconhecer cidadãos ou entidades de destaque por sua carreira cívica em defesa dos direitos humanos. A premiação leva o nome de uma das fundadoras do movimento das Mães da Praça de Maio e, também, uma das vítimas do terrorismo de Estado durante a ditadura na Argentina. 

Lula no palco na Argentina

A premiação foi protocolar. Mas, ao ser anunciado no palco, a multidão foi à loucura. Em bom portunhol, cantava: “Olê-Olê-Olê- Olá…Lu-la…Lula”, fazendo referência ao clássico cântico petista do final dos anos 1980. 

Lula, o segundo a discursar, falou por cerca de dez minutos, mas antes explicou que se expressaria “despacito” (devagar), num tom bem humorado, para que todos o pudessem entender. O petista ressaltou a necessidade de combater a pobreza, a desigualdade social e fazer a região voltar a crescer. 

“Tive a felicidade de governar o Brasil no período que Néstor e Cristina governaram a Argentina. No período que o nosso índio, Evo Morales era presidente da Bolívia”. O ex-presidente brasileiro também fez referência aos governos de Rafael Correa, no Equador, Hugo Chávez, na Venezuela, de Michele Bachelet, no Chile, e do ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, que também esteve no palco com Lula durante a celebração.

No palco, o petista expressou sua afinidade com a esquerda latino-americana e com os presidentes que governaram os países da região no mesmo período que ele, chamando-os de “companheiros, progressistas, socialistas e humanistas”. 

Em seguida, Lula agradeceu o apoio do presidente argentino Alberto Fernandez no período em que esteve preso. Com a voz embargada, mas firme, o petista se emocionou ao falar do companheiro argentino. “Quero agradecer ao meu amigo Fernández, que foi me visitar na cadeia quando ele ainda nem era presidente da Argentina. Quero agradecer o seu apoio incondicional. Eu nunca vou me esquecer desse gesto, meu amigo. Você pode contar comigo para o que você precisar”, disse, sob aplausos.

Lula: América do Sul viveu seu melhor período sob governos progressistas

Lula da Silva, em ato público, do qual participaram o presidente do país, Alberto Fernández, a vice, Cristina Kirchner, e o ex-mandatário uruguaio José Pepe Mujica, Lula afirmou que o melhor momento da América do Sul foi quando governos progressistas – como o dele, o de Cristina e o de Pepe – estiveram no poder.

“Tive a felicidade de governar o Brasil no período em que Cristina Kirchner governou a Argentina, Hugo Chávez era presidente da Venezuela, quando o índio Evo Morales era presidente da Bolívia, quando Tabaré [Vázquez] e Pepe Mujica governavam o Uruguai, [Fernando] Lugo era presidente do Paraguai, Michelle Bachelet e [Ricardo] Lagos eram presidente do Chile, Rafael Correa era presidente do Equador”, disse, a uma praça de Maio lotada.

“Estes companheiros progressistas, socialistas e humanistas fizeram parte do melhor momento de democracia da nossa pátria grande, a nossa querida América Latina”, destacou o petista. 

“Posso afirmar a todas as mulheres e homens que a nossa querida América do Sul viveu o melhor período de 2000 a 2012 quando nós governamos democraticamente todos os países da América do Sul. Quando expulsamos a Alca e firmamos o Mercosul, quando criamos a Unasul, a Celac, que era a primeira instituição multilateral em que participava Cuba e não participava nem os Estados Unidos, nem o Canadá”, concluiu.

Período na prisão

Lula comparou sua prisão ao que classificou de perseguição política contra a vice-presidente Kirchner. “A mesma perseguição que me colocou em cárcere é a mesma perseguição que a companheira Cristina foi vítima e é vítima aqui na Argentina”, disse, aproveitando para agradecer “a cada argentino que prestou solidariedade a mim quando fui preso no Brasil”.

Ele também citou a visita que o então candidato presidencial Alberto Fernández fez a ele em Curitiba no período de cárcere. “Teve coragem de ir na cadeia me visitar, mesmo eu pedindo para ele tomar cuidado que talvez não fosse prudente”, lembrou.

“Esse é um dia para vocês encherem o coração de esperança, porque a democracia não é um pacto de silêncio […] é o momento extraordinário em que nós nos manifestamos na construção de uma sociedade efetivamente justa, igualitária, humanista, fraterna, onde o ódio seja extirpado e o amor seja o vencedor”, concluiu.

Já Fernández aproveitou seu discurso para falar sobre a negociação do governo argentino com o FMI (Fundo Monetário Internacional), com quem o país tem uma dívida contratada ainda na época do governo Maurício Macri (2015-2019). “Não vamos negociar nada que ponha em risco o crescimento e desenvolvimento social argentino. Vamos cumprir obrigações que outros assumiram, mas não à custa da educação pública, da saúde, do salário. A Argentina do ajuste (fiscal) é história”, garantiu.

Cristina Kirchner

Por sua vez, a vice-presidente argentina Afirmou que a praça onde se realizou o evento foi “cenário de grandes alegrias e também das tragédias argentinas”, em referência à ditadura e à luta das Mães da Praça de Maio.

Ela se referiu à história recente do país, que até 2019 foi governado pelo neoliberal Mauricio Macri, e comparou o período à ditadura militar. “Depois se fez a noite outra vez para a Argentina (com Macri). E a diferença de quando éramos mais jovens é que, antes, os governos nacionais populares eram desalojados por golpes militares. Desta vez, não vieram com uniformes e botas, vieram com as mídias hegemônicas para construir imagens”, disse.

Jogo do Poder

Ópera  Mundi, com Brasil 247 e Rede Brasil Atual