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Morre Abdul Qadeer Khan, pai da bomba atômica do Paquistão

Morreu neste domingo (10), aos 85 anos, Abdul Qadeer Khan, considerado o pai da bomba atômica no Paquistão. Admirado por muitos paquistaneses por ter tornado o país a primeira potência nuclear islâmica, Khan foi acusado de vender segredos nucleares para IrãCoreia do Norte e Líbia.

Desde o fim de agosto ele havia passado por três internações hospitalares para tratamento da Covid, a mais recente com estado de saúde mais debilitado.

“Estou profundamente triste com o falecimento do dr. AQ Khan”, escreveu no Twitter o primeiro-ministro Imran Khan (não há parentesco entre os dois), destacando o que chamou de “contribuição crucial” do cientista para armar o país com bombas nucleares. “Para o povo paquistanês, ele era um ícone nacional.”

O ministro do Interior, Sheikh Rashid Ahmad, afirmou que o enterro será feito “com todas as honras”, na presença de autoridades do governo e de altos funcionários militares. Imagens mostram que o funeral, na capital, foi seguido por centenas de pessoas.

O cientista se tornou um herói nacional em maio de 1998, quando o Paquistão entrou oficialmente na lista das potências militares atômicas ao fazer testes poucos dias depois da Índia, principal rival do país. O fato foi lembrado pelo premiê em sua mensagem neste domingo, com uma nada discreta referência: “Isso nos deu segurança contra um vizinho de agressividade nuclear muito maior”.

O movimento foi o ápice de um esforço capitaneado por Khan desde os anos 1970 —segundo sua versão, como uma forma de defesa depois da guerra que, em 1971, resultou na independência de Bangladesh, antes Paquistão Oriental, com apoio dos indianos. “Meu objetivo com a bomba atômica era que o Paquistão se tornasse seguro. Eu queria que o que ocorreu em 1971 não se repetisse.”

Em fevereiro de 2004, porém, ele foi colocado em prisão domiciliar em Islamabad, acusado de distribuição ilegal de tecnologia na década de 1990. Khan confessou em uma entrevista à TV que havia vendido segredos nucleares para outros países e disse que agiu sozinho, sem conhecimento das autoridades.

A prisão foi decretada mesmo com o perdão do então presidente do país, o general Pervez Musharraf —que, três anos antes, sob pressão dos EUA, já havia afastado o cientista da agência nuclear local e o deslocado para um posto de conselheiro científico do Estado.

“Salvei o país pela primeira vez quando transformei o Paquistão em um Estado nuclear e o salvei novamente quando o reconheci e assumi total responsabilidade”, disse Khan à AFP em uma entrevista em 2008.

Analistas e a ONU (Organização das Nações Unidas) disseram que a venda ilegal da tecnologia feita por Khan, sobretudo para países sob sanção internacional, criou a maior proliferação nuclear recente. Se para os paquistaneses ele era um herói nacional, para a CIA (agência de inteligência dos EUA), era um dos homens mais perigosos do mundo.

O temor era que a rede liderada pelo cientista no Paquistão pudesse vender tecnologia ou ter projetos roubados por organizações terroristas. As conexões foram reveladas por investigações das inteligências americana e britânica.

Em 2009, um tribunal ordenou o fim de sua prisão domiciliar, e Khan pôde deixar o palácio em que vivia em Islamabad, com vista para o Himalaia e cercado de natureza. Mesmo após o fim da pena, ele precisava informar as autoridades com antecedência sobre suas movimentações.

No ano seguinte, em outra entrevista à TV, concedida com o cientista de chinelos e sentado no meio-fio, ele recuaria da confissão de venda ilegal de tecnologia. Dizendo ter sido usado como bode expiatório, ele ainda expressou mágoa com líderes como Musharraf.

Apesar das reivindicações de autoridades do Ocidente e da Agência Internacional de Energia Atômica, o governo paquistanês nunca deixou que investigadores internacionais interrogassem Khan, sob o argumento de que ele já havia dado todas as informações sobre o caso.

Nascido em 1º de abril de 1936 na cidade de Bhopal (hoje em território indiano), 11 anos antes da divisão sangrenta do Império Britânico que resultou na separação entre Paquistão e Índia, Khan também comandou o programa de desenvolvimento de mísseis do país.

Ele se formou em ciências pela Universidade de Karachi em 1960 e completou a formação na Europa, em centros na Alemanha. Trabalhou na Bélgica e em um centro na Holanda de enriquecimento de urânio para um consórcio europeu. Foi de lá que ele saiu para voltar ao Paquistão nos anos 1970 —de acordo com uma investigação posterior, com tecnologias roubadas na bagagem.

“Quando a Índia conduziu suas primeiras explosões nucleares, em 1974, eu senti que a segurança do meu país estava em perigo, então larguei tudo e voltei”, ele disse.

O então primeiro-ministro Zulfikar Ali Bhutto o nomeou chefe do programa nacional de enriquecimento de urânio, em que sua principal contribuição foi um projeto de centrífugas —justamente o que ele teria roubado na Holanda.

Em 1978, sua equipe conseguiu alcançar a tecnologia de enriquecimento do elemento químico e, em 1984, estavam preparados para detonar uma bomba atômica, revelou o cientista em entrevista anos depois.

Em um discurso em 1990, ele reconheceu que os elementos necessários foram adquiridos no exterior. “Não era possível fabricarmos tudo no país”, disse.

Depois dos primeiros testes atômicos em 1998, em resposta aos da Índia, afirmou que o país “nunca quis fabricar armas atômicas, mas se viu forçada a fazê-lo” pela necessidade de dissuasão.

Nenhuma das controvérsias nas quais se envolveu, porém, prejudicou sua grande popularidade no Paquistão, onde faculdades, universidades e hospitais levam seu nome e seu retrato ilustra pôsteres, objetos e páginas da web.

Segundo o premiê Imran Khan, o cientista foi enterrado na mesquita Faisal, na capital.

Jogo do Poder

Fonte: Folha de São Paulo