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Anamelka leva para a eleição uma pergunta incômoda: quem enfrenta o crime também está enfrentando o dinheiro que o financia?

Delegada que deixou a Polícia Civil para disputar uma vaga na Câmara Federal coloca o dedo em uma das feridas mais delicadas da segurança pública: o poder econômico das organizações criminosas e a responsabilidade do debate político em Brasília

Há uma diferença enorme entre falar de segurança pública a partir de um palanque e falar de segurança pública depois de mais de duas décadas dentro da Polícia Civil.

É justamente nessa diferença que está o peso da fala da delegada Anamelka Albuquerque.

Agora oficialmente afastada das funções policiais para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados pelo MDB, Anamelka entra na disputa eleitoral levando para o debate político uma experiência construída dentro das estruturas de investigação, proteção às vítimas e enfrentamento da criminalidade. O afastamento para a disputa eleitoral foi formalizado pela Secretaria da Segurança Pública do Piauí em julho.

Mas uma declaração recente chama atenção por ultrapassar o discurso tradicional de valorização das polícias.

A delegada colocou em discussão aquilo que muitas vezes aparece como o ponto mais difícil — e mais sensível — do combate ao crime organizado: o dinheiro que sustenta as estruturas criminosas e a capacidade dessas organizações de alcançar ambientes muito além das periferias e das ruas onde normalmente a violência se manifesta.

E aqui está o aspecto mais contundente de sua fala.

O crime não começa necessariamente na esquina

Durante a entrevista, Anamelka chamou atenção para a necessidade de olhar para além daquele criminoso que está na ponta da cadeia.

O policial prende, o investigador produz provas, o delegado conduz o inquérito, a Justiça julga. Mas existe uma pergunta que permanece: quem financia tudo isso?

Quem movimenta o dinheiro?

Quem lava os recursos?

Quem fornece estrutura?

Quem transforma dinheiro ilícito em patrimônio aparentemente legal?

Quem oferece proteção, influência ou capacidade de negociação?

É nessa direção que a discussão sobre segurança pública deixa de ser apenas uma questão policial e passa a ser também uma questão econômica, institucional e política.

O enfrentamento às organizações criminosas, portanto, não pode se limitar ao combate ao soldado do crime. É necessário alcançar as estruturas financeiras que permitem que essas organizações sobrevivam, cresçam e se reinventem.

Essa é uma discussão que exige inteligência, investigação patrimonial, integração entre instituições e legislação capaz de acompanhar a sofisticação das organizações criminosas.

E é exatamente aí que a presença de profissionais da segurança pública no Parlamento ganha uma dimensão diferente.

Quando a experiência da rua chega a Brasília

Anamelka tem defendido que segurança pública não se resume ao confronto direto com criminosos. Em manifestações anteriores, destacou planejamento, investimento em tecnologia, valorização dos profissionais, inteligência e integração entre as forças como componentes fundamentais de uma política de segurança eficiente.

A declaração mais recente acrescenta uma camada ainda mais delicada a esse debate.

Se existe uma economia do crime, também precisa existir uma estratégia de Estado para sufocá-la.

E isso passa necessariamente pelo Congresso Nacional.

É no Parlamento que se discutem mudanças legislativas, mecanismos de investigação, instrumentos de combate à lavagem de dinheiro, confisco de patrimônio de origem criminosa, fortalecimento das instituições e aperfeiçoamento das regras que permitem ao Estado enfrentar organizações cada vez mais sofisticadas.

Por isso, a crítica de Anamelka à insuficiência do debate federal sobre segurança pública merece ser colocada no centro da discussão eleitoral — não como uma acusação genérica contra parlamentares, mas como uma pergunta que o eleitor pode fazer a todos os candidatos:

o que, de fato, o Congresso está fazendo para enfrentar as estruturas econômicas que alimentam o crime organizado?

A parte mais difícil da fala

Talvez o trecho mais sensível da entrevista seja justamente aquele em que a delegada fala sobre a existência de relações entre criminalidade organizada, dinheiro, setores econômicos e ambientes de poder.

É uma questão que precisa ser tratada com enorme responsabilidade.

Não basta insinuar nomes. Não basta produzir suspeitas. Não basta transformar comentários de bastidores em sentença.

Se há crimes, devem existir investigação, prova, contraditório e responsabilização dentro do Estado de Direito.

Mas isso não significa que o problema deva ser ignorado.

Ao contrário.

A coragem, nesse caso, está justamente em colocar o assunto na mesa e defender que a discussão sobre segurança pública precisa alcançar também os setores onde circulam dinheiro, influência e poder.

É muito mais fácil falar do criminoso armado na periferia.

É muito mais difícil discutir as engrenagens financeiras que podem sustentar uma organização criminosa.

Da delegacia para o Congresso

A candidatura de Anamelka representa, nesse sentido, uma mudança de ambiente, mas não necessariamente de tema.

Ela deixa a atividade policial para tentar ocupar um espaço onde as leis que estruturam o sistema de segurança são debatidas.

Sua experiência na Polícia Civil inclui atuação em áreas relacionadas à proteção das mulheres e direção da Academia de Polícia Civil. Documentos oficiais também registram sua participação em ações de formação e integração de forças de segurança.

Agora, o desafio político é transformar essa experiência em propostas concretas.

Porque conhecer o problema não é suficiente.

É preciso apresentar soluções.

E essa talvez seja a principal cobrança que a própria candidatura de Anamelka coloca sobre si mesma: como transformar a experiência acumulada na segurança pública em legislação capaz de enfrentar não apenas quem executa o crime, mas também as estruturas que permitem que ele prospere?

Essa é uma pergunta muito maior do que uma candidatura.

É uma pergunta sobre o próprio papel do Estado.

Segurança pública não pode ser lembrada apenas quando a violência explode

O Brasil costuma discutir segurança pública depois da tragédia.

Depois do assassinato.

Depois da operação policial.

Depois da fuga.

Depois da descoberta de uma grande organização criminosa.

Depois que o medo chega à porta de casa.

O que a fala de Anamelka ajuda a recolocar em discussão é a necessidade de uma política permanente, planejada e estruturada.

Uma política que não enxergue somente a viatura, a arma e a prisão, mas também inteligência, prevenção, tecnologia, investigação financeira, integração institucional, proteção às vítimas e valorização dos profissionais.

Esse é um debate que não pertence a um partido.

Não pertence exclusivamente à esquerda ou à direita.

Não pertence somente às polícias.

Pertence à sociedade.

E, se a candidatura da delegada Anamelka conseguir levar essa discussão para dentro da campanha eleitoral com propostas objetivas, o eleitor terá diante de si algo mais importante do que slogans: um debate sobre que tipo de política de segurança o Brasil pretende construir para enfrentar uma criminalidade que também se modernizou.

A questão agora é saber se Brasília estará disposta a ouvir quem passou anos olhando o problema de dentro.

Porque combater o crime na rua é indispensável.

Mas chegar ao dinheiro, à estrutura e às engrenagens que mantêm o crime funcionando pode ser o verdadeiro teste de uma política nacional de segurança pública.

Por Damatta Lucas

Imagem: Rede Social

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