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Senado abre caminho para aliviar combustíveis – e mexe em peças estratégicas da economia brasileira

PLP 114/2026 cria uma espécie de escudo fiscal contra a pressão internacional sobre o petróleo, mas vai muito além da bomba dos postos: envolve etanol, agronegócio, fertilizantes, minerais estratégicos e as contas públicas

A decisão do Senado de aprovar, por 61 votos a 2, o Projeto de Lei Complementar (PLP) 114/2026 não é apenas mais uma medida tributária no emaranhado de decisões de Brasília. O texto aprovado pelo Congresso coloca o setor de combustíveis no centro de uma estratégia mais ampla para proteger a economia brasileira de choques provocados pelo mercado internacional de energia.

Apresentado pelo deputado Paulo Pimenta (PT-RS), o projeto chegou ao Senado depois de sofrer alterações e incorporar diferentes interesses negociados entre governo e Congresso. A relatoria no Senado ficou com a senadora Teresa Leitão (PT-PE), líder do governo na Casa. A proposta agora segue para sanção presidencial.

E aqui está o ponto que merece atenção: não se trata simplesmente de baixar imposto sobre gasolina e diesel.

O PLP estabelece mecanismos para permitir redução ou até zeragem de tributos federais incidentes sobre diesel rodoviário, biodiesel, gasolina, etanol e querosene de aviação, justamente em um momento em que o preço internacional do petróleo pode transmitir rapidamente seus efeitos para toda a economia brasileira.

O combustível é apenas a ponta do iceberg

Quando o diesel sobe, não sobe apenas o preço na bomba.

Sobem o custo do transporte de cargas, do frete, da produção agrícola, dos alimentos, dos serviços e de praticamente toda a cadeia econômica que depende da circulação de mercadorias.

É por isso que a decisão do Senado tem potencial para funcionar como uma espécie de mecanismo de contenção de inflação, caso a turbulência internacional provoque nova escalada do petróleo.

O próprio desenho do projeto parte da existência de receitas extraordinárias provenientes do setor de petróleo e gás. Segundo os dados apresentados na tramitação, a arrecadação federal relacionada ao petróleo e ao gás teria passado de R$ 9 bilhões no primeiro trimestre de 2025 para R$ 28 bilhões no mesmo período de 2026, em meio à valorização do petróleo.

A lógica é direta: uma parcela da receita adicional gerada pelo petróleo pode ser utilizada para amortecer o impacto que o próprio petróleo provoca sobre a economia.

É uma engenharia fiscal que busca transformar uma vantagem temporária de arrecadação em instrumento de proteção econômica.

O detalhe mais importante: o etanol não poderá ser atropelado pela gasolina

Talvez uma das partes mais relevantes do projeto esteja justamente na proteção aos biocombustíveis.

O texto determina que eventual redução da tributação dos combustíveis fósseis deverá preservar a diferenciação competitiva dos biocombustíveis. E existe uma trava particularmente importante: se a tributação federal da gasolina for reduzida em 30% ou mais, a alíquota federal do etanol deverá ser zerada.

Além disso, o governo poderá conceder até R$ 1,2 bilhão em subvenção aos produtores de etanol hidratado em 2026. Produtores e cooperativas também poderão utilizar até R$ 750 milhões em créditos de PIS/Pasep e Cofins para compensar débitos tributários.

Isso significa que o Congresso não está tratando gasolina e etanol como produtos absolutamente equivalentes.

Existe uma preocupação explícita em preservar a competitividade do combustível renovável brasileiro.

E isso interessa diretamente ao Brasil.

Porque o etanol não é apenas combustível. É agricultura, indústria, emprego, renda, tecnologia e redução da dependência relativa de combustíveis fósseis.

Um freio para a gasolina, um sinal para o mercado

Para o consumidor, a expectativa mais imediata é evidente: se houver redução efetiva da carga tributária e se parte dessa redução chegar às bombas, poderá existir algum alívio nos preços.

Mas há uma ressalva importante.

Redução de tributo não significa automaticamente redução proporcional do preço final.

O valor pago pelo consumidor é formado por diversos componentes: preço do produtor, margens de distribuição e revenda, custos logísticos, mistura obrigatória de biocombustíveis, tributos e, no caso dos derivados de petróleo, o comportamento das cotações internacionais e do câmbio.

Portanto, o impacto nas bombas dependerá de como toda a cadeia reagirá à nova estrutura tributária.

O que o Congresso aprovou foi, sobretudo, a abertura de espaço fiscal para que o governo possa agir diante de um choque de energia.

O diesel talvez seja a peça mais sensível

Entre todos os combustíveis contemplados, o diesel merece atenção especial.

É ele que movimenta grande parte da logística brasileira.

Caminhões transportam alimentos, combustíveis, medicamentos, máquinas, insumos industriais e produtos agrícolas. Uma pressão persistente sobre o diesel pode contaminar toda a cadeia de preços.

Por isso, uma política capaz de reduzir temporariamente a pressão tributária sobre esse combustível pode ter efeito muito além do consumidor que abastece um automóvel.

Pode alcançar o preço da comida, do frete e da produção.

É aí que a discussão deixa de ser apenas tributária e passa a ser macroeconômica.

O projeto também olha para a independência brasileira

Outro ponto que não pode passar despercebido é que o PLP não ficou restrito aos combustíveis.

O texto também prevê mecanismos para fortalecer a produção nacional de fertilizantes, matérias-primas, remineralizadores e bioinsumos, com possibilidade de até R$ 5 bilhões em créditos fiscais entre 2027 e 2031, limitados a R$ 1 bilhão por ano.

Isso revela uma preocupação estratégica.

O Brasil é uma potência agrícola, mas depende fortemente de importações de fertilizantes. Em um mundo marcado por guerras, sanções, disputas comerciais e interrupções nas cadeias globais, essa dependência pode transformar uma crise internacional em problema doméstico.

Fortalecer a indústria nacional de fertilizantes, portanto, significa também reduzir vulnerabilidades estratégicas.

E entram em cena os minerais críticos

O texto ainda incorpora incentivos relacionados aos chamados minerais críticos e estratégicos.

É outro movimento que merece ser observado com lupa.

Num mundo em que energia, tecnologia, transição energética e segurança nacional estão cada vez mais relacionados à disponibilidade de minerais estratégicos, o Brasil possui recursos que podem ganhar enorme valor econômico e geopolítico.

A inclusão desse tema no mesmo projeto que trata de combustíveis e fertilizantes demonstra que o Congresso está olhando para uma questão maior: a segurança econômica brasileira diante de um mundo cada vez mais instável.

O preço da proteção também precisa ser observado

Há, entretanto, uma questão que não pode ser escondida atrás do discurso de alívio econômico: renúncia fiscal tem custo.

Sempre que o governo reduz tributos, alguém deixa de arrecadar.

No caso do PLP 114/2026, a justificativa apresentada pelo Executivo é que a perda de receita será compensada pelo aumento extraordinário da arrecadação relacionada ao petróleo e ao gás.

É uma estratégia que pode fazer sentido enquanto essa receita extraordinária existir.

Mas exige acompanhamento.

Se o preço internacional do petróleo recuar significativamente, a fonte extraordinária de arrecadação também poderá diminuir. E aquilo que hoje funciona como compensação pode deixar de apresentar a mesma força amanhã.

É justamente aí que entra a responsabilidade fiscal.

Um acordo político que diz muito sobre o momento do país

O placar de 61 votos favoráveis e apenas dois contrários no Senado demonstra o grau de convergência construído em torno da proposta.

A tramitação também revela uma negociação política ampla entre Executivo e Legislativo. O projeto originalmente apresentado por Paulo Pimenta ganhou novos elementos durante sua passagem pelo Congresso.

Na prática, o PLP tornou-se um projeto-guarda-chuva, reunindo medidas emergenciais e estruturais em diferentes áreas.

E essa talvez seja uma das maiores mensagens políticas da votação: em uma conjuntura de forte disputa partidária, governo e Congresso encontraram espaço para construir um acordo em torno de uma questão que atinge diretamente o cotidiano dos brasileiros.

O que está realmente em jogo

O PLP 114/2026 precisa ser enxergado para além da manchete sobre redução de impostos.

Ele coloca na mesma equação:

combustíveis + inflação + petróleo + etanol + agronegócio + fertilizantes + minerais estratégicos + contas públicas.

É uma equação que diz respeito à própria capacidade do Brasil de atravessar turbulências internacionais sem permitir que cada crise externa se transforme automaticamente em crise interna.

Se funcionar como planejado, o consumidor poderá ganhar algum fôlego, o setor produtivo poderá enfrentar menor pressão de custos e os biocombustíveis poderão preservar sua posição estratégica.

Mas o sucesso dependerá de algo que nenhuma lei consegue garantir sozinha: que o benefício tributário percorra efetivamente a cadeia econômica e chegue ao consumidor e ao setor produtivo.

O Senado deu o sinal verde.

Agora, com a sanção presidencial, começa a etapa mais importante: ver se a engenharia fiscal construída em Brasília conseguirá produzir efeitos concretos nas ruas, nos postos, nas estradas, no campo e dentro das fábricas.

E é exatamente aí que o Jogo do Poder vai acompanhar essa história.

Porque quando o assunto é combustível, não está em jogo apenas o preço que aparece na bomba. Está em jogo o custo de movimentar o Brasil.

Por Damatta Lucas

Imagem: Senado/Carlos Moura

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