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África do Sul mantém silêncio sobre indicação de Crivella como embaixador

Em um constrangimento cada vez maior para o governo de Jair Bolsonaro, as autoridades da África do Sul mantém silêncio diante do pedido do Palácio do Planalto para que chancelem o bispo e ex-prefeito Marcelo Crivella como novo embaixador do Brasil no país africano.

No início de junho, o Brasil submeteu aos sul-africanos o nome do novo embaixador, uma praxe diplomática. Crivella ainda precisa passar por uma sabatina no Senado e sua nomeação forçaria a remoção da capital da África do Sul de um dos embaixadores mais respeitados no Itamaraty, Sérgio Danese.

Mas, antes, sem um sinal verde por parte dos sul-africanos – um agreement, no jargão diplomático – não haveria sentido em manter o projeto da indicação de Crivella.

Mais de um mês depois do pedido, diplomatas no Itamaraty confirmam à coluna do UOL que nenhuma resposta foi dada por parte de Pretória.

Um dos cenários temidos por parte do governo é de que os sul-africanos passem meses sem dar uma resposta, uma forma diplomática também de indicar que não estão satisfeitos com o nome proposto.

O veto explícito a um embaixador estrangeiro causaria um abalo nas relações bilaterais. Portanto, o caminho de menor atrito seria o de “não decidir” ou adiar de forma indefinida uma resposta.

Na capital sul-africana, não há nenhuma explicação para a demora. Experientes negociadores brasileiros apontam que, quando se trata de um país aliado, é tradição dar o aval ao nome sugerido em poucos dias. Seria, na linguagem diplomática, um gesto de confiança.

Na condição de anonimato, embaixadores ainda revelaram que, em certos casos, países que queriam demonstrar uma afinidade com o governo brasileiro deram a chancela ao nome proposto em apenas 24 horas.

Outros diplomatas preferem, pelo menos por enquanto, não tirar conclusões precipitadas sobre a demora, indicando que o prazo ainda está dentro do “compreensível” diante da complexidade do caso.

Fontes do governo sul-africano admitem que um “não” ao Brasil potencialmente causaria um abalo na relação bilateral e poderia desgastar uma aliança considerada como estratégica.

Evangélicos e passaporte retido

A nomeação de um bispo ocorre num momento especialmente delicado para o governo Bolsonaro, criticado pelo movimento evangélico por não agir de forma mais contundente diante da crise aberta com a expulsão de representantes da Igreja Universal do Reino de Deus de Angola.

Com olhos na eleição em 2022, Bolsonaro não pode se dar ao luxo de abrir uma tensão com os bispos. Não por acaso, também designou o vice-presidente Hamilton Mourão para tratar da situação em uma recente visita ao presidente de Angola.

Os sul-africanos, portanto, vivem uma encruzilhada entre agradar ao Brasil e não comprar uma briga com seus vizinhos no continente.

Mas a crise ainda é ampliada pela situação judicial de Crivella. O ex-prefeito até agora não tem acesso a seu passaporte, retido pela Justiça.

Jogo do Poder

Fonte: UOL