
A neutralidade do Progressistas implode a tentativa de formar uma chapa com Tereza Cristina e revela o principal desafio da candidatura: transformar o bolsonarismo em uma aliança nacional capaz de ultrapassar os limites de sua própria base
A eleição presidencial de 2026 acaba de produzir um daqueles fatos que parecem administrativos, mas carregam enorme significado político.
O Progressistas decidiu permanecer neutro na disputa presidencial. A decisão, anunciada nesta sexta-feira (31), praticamente sepulta a possibilidade de Tereza Cristina compor a chapa de Flávio Bolsonaro como candidata a vice-presidente. A senadora havia aceitado o convite do candidato do PL, mas a formalização dependia justamente de uma composição partidária que agora perdeu sustentação.
É um revés importante para Flávio.
Não porque o PP, sozinho, determine uma eleição presidencial. Não determina. O problema está no significado político da decisão.
Flávio precisa construir uma candidatura nacional. E uma candidatura nacional não se sustenta apenas na fidelidade do eleitorado bolsonarista. Precisa de partidos, governadores, prefeitos, lideranças regionais, setores econômicos, estrutura eleitoral e, sobretudo, capacidade de conversar com segmentos que não se identificam integralmente com o bolsonarismo.
É justamente aí que a candidatura começa a encontrar dificuldades.
O episódio Tereza Cristina é maior do que uma escolha de vice
Tereza Cristina não era apenas um nome para preencher uma vaga na chapa.
Ex-ministra da Agricultura e uma das principais referências políticas do agronegócio no Congresso, sua presença poderia funcionar como uma ponte entre o núcleo mais ideológico do bolsonarismo e setores do centro político e produtivo que desejam participar da eleição sem necessariamente assumir todos os custos de uma associação direta com a família Bolsonaro.
A tentativa, portanto, tinha lógica política.
Mas fracassou antes mesmo de ser consolidada.
Flávio anunciou publicamente que Tereza Cristina havia aceitado o convite. Poucos minutos depois, o PP confirmou que permaneceria neutro. O contraste entre os dois anúncios tornou o episódio ainda mais simbólico: a candidatura revelou uma composição antes que o partido estivesse disposto a bancá-la.
E eleição presidencial é também uma disputa por demonstrações de força.
Quando um partido importante prefere não subir no palanque, a mensagem política não está apenas na ausência do apoio. Está na cautela.
O Centrão não funciona por fidelidade ideológica
Há uma explicação objetiva para o comportamento do PP e da federação União Progressista.
O partido precisa preservar seus interesses regionais. Em diversos estados, a correlação de forças é diferente daquela encontrada no debate nacional. Uma aliança presidencial com Flávio poderia representar ganhos em determinadas regiões, mas também custos eleitorais em outras.
Esse cálculo explica por que o PP e o União Brasil já haviam apresentado movimentos diferentes em âmbito estadual. Em São Paulo, por exemplo, os diretórios de PP e União Brasil formalizaram apoio a Flávio, embora a tendência nacional da federação apontasse para a neutralidade.
É a velha lógica da política brasileira: Brasília não necessariamente determina o que acontece nos estados.
E isso é especialmente relevante para uma candidatura que precisa transformar popularidade em capilaridade.
O número que Flávio não pode ignorar
Há outro problema, talvez ainda mais importante que a ausência do PP.
A pesquisa Datafolha divulgada em 24 de julho mostra Lula com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 32% de Flávio Bolsonaro. Ronaldo Caiado aparece com 4%, enquanto Romeu Zema e Renan Santos têm 3% cada. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
No segundo turno, o quadro também exige atenção: Lula aparece com 48%, contra 43% de Flávio.
Isso não significa que a eleição esteja decidida.
Está longe disso.
Mas significa que a candidatura de Flávio ainda precisa ampliar seu eleitorado para além do núcleo que já está identificado com o bolsonarismo.
E esse talvez seja o maior desafio de sua campanha.
O problema da herança política
Flávio Bolsonaro carrega uma vantagem extraordinária: o sobrenome.
Mas carrega também sua principal limitação.
A candidatura nasceu dentro de um campo político extremamente identificado com Jair Bolsonaro. Isso garante um eleitorado fiel, mobilizado e ideologicamente engajado.
Ao mesmo tempo, pode dificultar a expansão para eleitores que desejam uma alternativa ao governo Lula, mas não necessariamente querem reproduzir a mesma polarização política dos últimos anos.
É nesse espaço que candidatos como Ronaldo Caiado e Romeu Zema tentam encontrar alguma margem de crescimento.
A direita brasileira, portanto, não está necessariamente diante de um problema de falta de eleitorado.
Está diante de um problema de distribuição desse eleitorado.
Há um campo conservador amplo. A questão é saber quem conseguirá organizá-lo.
E agora, qual caminho resta a Flávio?
A partir daqui, a estratégia da campanha precisará ser mais sofisticada.
O primeiro desafio será escolher um vice que agregue politicamente sem simplesmente reproduzir o eleitorado que Flávio já possui.
O segundo será ampliar a interlocução com governadores, prefeitos e partidos de centro-direita, especialmente nos estados onde o bolsonarismo não possui a mesma força.
O terceiro será apresentar uma agenda econômica e administrativa capaz de dialogar com o eleitor que quer mudança, mas exige previsibilidade.
O quarto será reduzir a dependência da polarização como único instrumento de mobilização eleitoral.
E existe uma quinta questão, talvez decisiva: demonstrar autonomia política.
Flávio não pode ser percebido apenas como o candidato que herdou o espólio eleitoral do pai. Precisará construir uma identidade própria, apresentar propostas próprias e convencer o eleitor de que existe um projeto de governo além da continuidade de uma disputa política iniciada em 2018.
Essa é uma tarefa considerável.
O relógio eleitoral não para
O calendário está avançando.
E quanto mais a campanha se aproxima da fase decisiva, menor será o espaço para improvisações.
O episódio do PP mostra exatamente isso.
Não basta anunciar alianças. É preciso que elas tenham sustentação partidária.
Não basta apresentar um nome forte para vice. É necessário que esse nome consiga representar uma coalizão.
Não basta manter 32% de intenção de voto. É preciso descobrir de onde virão os votos necessários para transformar uma candidatura competitiva em uma candidatura majoritária.
A diferença entre 32% e 40%, em uma eleição presidencial, não é apenas matemática.
É política.
São milhões de eleitores que ainda precisam escolher.
O bolsonarismo diante do próprio limite
Talvez o maior teste de Flávio Bolsonaro seja justamente este: descobrir se o bolsonarismo consegue deixar de ser apenas uma força de resistência e se transformar em uma força capaz de construir maioria.
A candidatura tem uma base consolidada.
Tem um sobrenome nacional.
Tem uma militância altamente mobilizada.
Tem um partido.
Mas ainda enfrenta dificuldades para construir uma frente partidária ampla.
A neutralidade do PP não elimina Flávio da disputa. Tampouco significa que seus antigos aliados estejam definitivamente fora de seu campo político. A própria política brasileira é marcada por alianças que mudam conforme o turno, o estado e a conveniência eleitoral.
Mas o episódio revela uma realidade incontornável: Flávio Bolsonaro ainda precisa construir a ponte entre o eleitorado que já o apoia e aquele que será necessário para vencer.
E essa ponte não será construída apenas com Bolsonaro.
Precisará ser construída com política.
Com alianças.
Com propostas.
Com capacidade de negociação.
E, sobretudo, com a conquista de um eleitor que não necessariamente votará contra Lula apenas porque Flávio é Bolsonaro.
É nesse eleitor, ainda em disputa, que provavelmente estará boa parte do destino da eleição de 2026.
A candidatura de Flávio continua viva e competitiva. Mas o episódio do PP demonstra que, a esta altura da corrida presidencial, o maior adversário do candidato talvez não seja apenas Lula — seja a dificuldade de transformar um movimento político fortemente identificado com um sobrenome em uma maioria eleitoral nacional.
Por Damatta Lucas – Imagem: Internet



