
Durante muito tempo, falar em agricultura familiar no Piauí significava falar de resistência. De homens e mulheres que plantavam, colhiam e criavam animais quase sempre enfrentando dificuldades de acesso a crédito, assistência técnica, tecnologia, mercados e, principalmente, canais permanentes de comercialização.
Esse cenário, entretanto, começa a mudar.
A agricultura familiar piauiense está deixando de ocupar um espaço secundário para assumir um papel cada vez mais estratégico no desenvolvimento econômico e social do Estado. E essa transformação pode ser percebida não apenas dentro das comunidades rurais, mas também nas feiras, nos mercados, nas instituições públicas, nos restaurantes e, sobretudo, na mesa do consumidor.
O campo está ganhando visibilidade.
E quando o produtor rural passa a ter onde apresentar, divulgar e vender aquilo que produz, toda uma cadeia econômica se movimenta.
É nesse ambiente que iniciativas de incentivo à agricultura familiar ganham importância. A Assembleia Legislativa do Piauí tem sido um dos espaços onde essa discussão vem encontrando eco. Um dos parlamentares que mais têm associado sua trajetória política e profissional à defesa do setor é o deputado Francisco Limma, do PT.
Engenheiro agrônomo, ex-prefeito de São João do Arraial e atualmente vice-presidente da Alepi, Limma construiu boa parte de sua trajetória profissional ligada ao desenvolvimento rural, à capacitação de produtores e à organização de negócios agrícolas. Sua própria biografia parlamentar registra experiências com SEBRAE, INCRA/PNUD, SUDENE/PNUD e projetos de tecnologias agroecológicas.
Não se trata, portanto, de uma bandeira que surgiu agora por conveniência política. A agricultura familiar acompanha a trajetória profissional e pública do parlamentar há décadas.
E talvez seja justamente essa experiência que explique sua insistência em transformar o debate sobre o campo em uma discussão também sobre produção, renda, mercado e desenvolvimento.
Do roçado para o mercado
A agricultura familiar não pode mais ser enxergada apenas pela lógica do pequeno produtor que planta para sobreviver.
Ela produz alimentos. Gera renda. Mantém famílias no campo. Movimenta pequenas economias municipais. Preserva conhecimentos tradicionais. Estimula o cooperativismo. Fortalece mulheres e jovens rurais. E, quando recebe assistência e acesso ao mercado, pode se transformar em um poderoso instrumento de desenvolvimento regional.
Um exemplo recente dessa nova realidade foi a III Feira da Agricultura Familiar, Povos Tradicionais e Economia Solidária, realizada em Teresina como parte do Circuito Nordestino da Agricultura Familiar.
Ao destacar o evento, Francisco Limma ressaltou justamente três dimensões que ajudam a explicar a transformação do setor: articulação, negócios e comercialização. A feira reuniu produtores, entidades e expositores para apresentar produtos, experiências e estratégias de mercado.
E esse talvez seja o ponto central.
Não basta produzir.
É preciso produzir, divulgar, agregar valor e vender.
A agricultura familiar só consegue romper definitivamente com o ciclo da precariedade quando o produtor encontra mercado para aquilo que coloca no campo.
O consumidor também mudou
Do outro lado dessa cadeia está um consumidor cada vez mais atento ao que chega à sua mesa.
A procura por alimentos frescos, produzidos localmente, com menor grau de processamento e, em determinados casos, provenientes de sistemas agroecológicos ou orgânicos, cria novas oportunidades para quem vive da pequena produção.
A feira deixa de ser apenas um espaço de venda.
Passa a ser uma ponte entre quem produz e quem consome.
É ali que o consumidor conhece a origem do alimento, conversa com o produtor, descobre novos produtos e percebe que aquilo que chega à sua mesa pode ter uma história muito diferente daquela dos produtos que percorrem longas cadeias de distribuição.
Para o agricultor, significa mercado.
Para o consumidor, significa opção.
Para o município, significa circulação de dinheiro.
Para o Estado, significa desenvolvimento.
É uma equação aparentemente simples, mas com enorme capacidade de transformação social.
A força que vem do interior
O fortalecimento da agricultura familiar também representa uma mudança importante na relação entre o campo e as cidades.
Quando uma família rural consegue aumentar sua produção e comercializar seus produtos, o benefício não fica restrito à propriedade. O dinheiro circula no comércio local, aumenta a demanda por serviços, estimula o transporte, fortalece associações e cooperativas e cria novas possibilidades de trabalho.
É uma economia que nasce pequena, mas pode produzir efeitos grandes.
Programas voltados ao desenvolvimento rural sustentável caminham nessa direção. O Programa Piauí Sustentável e Inclusivo, por exemplo, trabalha com melhoria da renda e da qualidade de vida da população rural, segurança alimentar, acesso à água, produção ambientalmente sustentável e adaptação às mudanças climáticas. Segundo informações apresentadas por Limma na Alepi, a iniciativa envolve regularização fundiária e implantação de projetos produtivos junto a comunidades tradicionais, mulheres, jovens e comunidades ribeirinhas.
Isso demonstra que o debate sobre agricultura familiar já ultrapassou a velha discussão sobre simplesmente “ajudar o pequeno produtor”.
A questão agora é outra:
como transformar o pequeno produtor em protagonista de uma economia rural mais forte, sustentável e competitiva?
Limma e uma bandeira que atravessa sua trajetória
A atuação de Francisco Limma nessa área tem uma característica particular: a agricultura familiar não aparece isoladamente, mas conectada a outras agendas.
Economia solidária, geração de renda, desenvolvimento local, comunidades tradicionais, segurança alimentar e sustentabilidade fazem parte de uma mesma visão de desenvolvimento.
Na Assembleia, sua atuação também alcança questões estruturais do campo. Em março de 2026, por exemplo, o deputado apresentou requerimento para a realização de audiência pública sobre conflitos agrários, regularização de terras públicas e impactos socioambientais decorrentes da expansão da fronteira agrícola no Piauí.
Ou seja, a discussão não se limita à produção.
Envolve também quem tem acesso à terra, quem consegue produzir, quem consegue vender e quais condições existem para que as comunidades permaneçam no território.
Essa é uma discussão particularmente importante para um Estado que possui enorme potencial agrícola, mas que também convive com desigualdades históricas no acesso a oportunidades e mercados.
Uma nova imagem do homem e da mulher do campo
Talvez a maior transformação esteja justamente na percepção social.
O agricultor familiar começa a deixar de ser visto como alguém condenado a produzir pouco e sobreviver com dificuldade.
Passa a ser reconhecido como produtor de alimentos, empreendedor rural, fornecedor, comerciante, integrante de cooperativa e agente econômico.
Essa mudança de mentalidade é fundamental.
Porque não existe agricultura familiar forte sem agricultor valorizado.
E não existe agricultor valorizado quando seu produto é vendido abaixo do custo, quando não há assistência técnica ou quando a produção fica sem mercado.
Por isso, cada feira, cada programa de assistência, cada iniciativa de comercialização e cada política pública que aproxima produtor e consumidor pode representar muito mais do que um evento.
Pode representar uma porta aberta.
O desafio agora é consolidar o avanço
O Piauí começa a construir uma realidade em que agricultura familiar pode ser sinônimo de produção, qualidade, sustentabilidade e renda.
Mas o desafio é transformar iniciativas pontuais em uma política permanente.
É necessário ampliar assistência técnica, facilitar acesso a crédito, melhorar logística, fortalecer cooperativas, investir em tecnologia, estimular a agroecologia, criar canais permanentes de comercialização e aproximar cada vez mais os pequenos produtores das compras institucionais e do mercado consumidor.
Também será necessário agregar valor.
Não basta vender a matéria-prima. O futuro está também no beneficiamento, na embalagem, na certificação, na identidade territorial e na capacidade de transformar produtos do campo em marcas reconhecidas.
O Piauí tem matéria-prima, tem produtores e tem consumidores.
O que precisa cada vez mais é aproximar esses três pontos.
O campo pode ser uma das grandes forças do Piauí
A agricultura familiar não é apenas uma política de assistência social.
É política econômica.
É segurança alimentar.
É geração de emprego.
É permanência das famílias no campo.
É preservação ambiental.
É valorização cultural.
E pode ser, sobretudo, uma das grandes ferramentas de desenvolvimento do Piauí.
A própria presença crescente da agricultura familiar em eventos públicos e espaços institucionais demonstra que o setor ganhou uma visibilidade que antes não possuía.
Na Alepi, essa pauta encontra em Francisco Limma um de seus defensores mais identificados com o setor. O parlamentar divulgou, em junho de 2026, relatório segundo o qual havia protocolado 168 proposições legislativas entre 2023 e 2026, incluindo projetos, requerimentos, audiências públicas e outras matérias.
Mas, para além dos números parlamentares, existe algo maior acontecendo.
É o produtor que volta para casa depois de vender toda a produção.
É a família que encontra uma nova fonte de renda.
É a mulher que transforma aquilo que produz em negócio.
É o jovem que começa a enxergar no campo uma oportunidade e não necessariamente uma obrigação de partir.
E é o consumidor que descobre que alimentação saudável também pode significar valorizar quem produz perto de sua própria casa.
No fim das contas, fortalecer a agricultura familiar significa fortalecer uma cadeia que começa na terra e termina na mesa.
E, quando essa cadeia funciona, ganham o produtor, o consumidor, os municípios e o próprio Piauí.
O campo, definitivamente, já não pode ser tratado como coadjuvante.
Ele quer — e pode — ser protagonista.
Por Damatta Lucas – Imagem: Internet



