Crise institucional ‘sequestra’ eleições e empurra propostas do Brasil para segundo plano

A menos de um mês do primeiro turno, disputa envolvendo o STF domina o noticiário e desloca do centro da campanha temas como economia, educação, ciência, segurança, mudanças climáticas e soberania nacional
A menos de um mês do primeiro turno das eleições de 2026, o debate que deveria colocar o futuro do Brasil no centro da discussão acabou atropelado pela crise político-institucional. Em vez de propostas para enfrentar os problemas estruturais do país, o noticiário, as redes sociais e as conversas do cotidiano passaram a ser dominados pelos desdobramentos das disputas envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e seus reflexos sobre outras instituições.
Para representantes de diferentes setores da sociedade civil ouvidos pela Agência Brasil, o momento é preocupante porque a crise institucional, embora grave e mereça investigação e esclarecimento, acabou ocupando praticamente todo o espaço da agenda eleitoral. O resultado é um cenário em que os eleitores recebem menos informações sobre aquilo que os candidatos pretendem fazer caso sejam eleitos.
A presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, resume a preocupação ao afirmar que o debate eleitoral está prejudicado diante da predominância da crise institucional do Poder Judiciário. Na avaliação dela, a concentração das atenções nesse conflito reduz o espaço para uma discussão mais ampla sobre os projetos apresentados nas eleições.
Na mesma direção, a presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, chama atenção para o que considera uma lacuna no debate pré-eleitoral. Segundo ela, temas fundamentais para o desenvolvimento nacional acabaram afastados do centro da discussão justamente em um momento em que o país precisaria discutir caminhos de longo prazo.
Entre esses assuntos estão ciência, tecnologia, inovação, orçamento público e políticas capazes de garantir estabilidade para investimentos estratégicos. A questão, segundo Francilene, não deveria ser uma escolha entre defender a integridade das instituições ou discutir um projeto de desenvolvimento nacional. As duas agendas, argumenta, são inseparáveis.
Investigações não podem apagar a eleição
Os entrevistados reconhecem a gravidade dos fatos revelados a partir dos desdobramentos da Operação Compliance Zero, cuja primeira fase foi deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025. As suspeitas envolvendo autoridades e o empresário Daniel Vorcaro, dono do antigo Banco Master, precisam ser devidamente apuradas, defendem.
Mas investigação e debate eleitoral não são agendas excludentes.
A avaliação predominante entre os representantes ouvidos é que as instituições devem cumprir seu papel, enquanto a sociedade precisa continuar discutindo as escolhas que estarão nas urnas em 4 de outubro. Afinal, governadores, parlamentares e demais representantes eleitos terão pela frente problemas concretos que não desaparecerão quando a crise institucional sair das manchetes.
Para o coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, a eleição de 2026 está entre as mais importantes desde a Constituição Federal de 1988. O mundo passa por uma profunda reorganização produtiva, ao mesmo tempo em que enfrenta conflitos e transformações geopolíticas que podem redefinir relações econômicas e estratégicas.
Nesse cenário, Cara aponta que desenvolvimento econômico, soberania nacional, defesa, educação, ciência e tecnologia deveriam ocupar posição central nas campanhas. Na avaliação dele, esses grandes temas estão sendo deixados de lado não apenas pelo noticiário e pelo debate público, mas também pelos próprios programas de governo apresentados pelos candidatos.
Trabalho, emprego e segurança também perderam espaço
A pauta da classe trabalhadora também aparece entre os assuntos que acabaram comprimidos pela crise institucional.
A presidenta do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Rita Serrano, destaca como prioridades o fim da escala 6×1, a geração de emprego e renda, a regulamentação da negociação coletiva no setor público, prevista no Projeto de Lei 1.893/2026, além da segurança pública e de políticas estratégicas para o desenvolvimento econômico.
Entre essas questões está ainda o aproveitamento dos minerais críticos e estratégicos, considerados fundamentais para a indústria e para a soberania brasileira.
Rita lembra que as centrais sindicais vinham atuando no Congresso para avançar em propostas relacionadas à jornada de trabalho e à regulamentação das relações trabalhistas e da representação sindical no setor público. O movimento, entretanto, perdeu espaço diante da escalada da crise entre os Poderes.
O diagnóstico é direto: enquanto o país mergulhou na turbulência institucional, temas que afetam diariamente milhões de brasileiros foram empurrados para o segundo plano.
Crise climática: Um problema que espera a eleição
Outro tema considerado estratégico é a emergência climática.
Os efeitos dos eventos extremos já deixaram de ser uma discussão distante. Enchentes, secas, destruição de cidades, perdas agrícolas e impactos sobre o orçamento público passaram a fazer parte da realidade brasileira.
O secretário executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, lembra os efeitos das enchentes no Rio Grande do Sul e da seca na Amazônia para mostrar que a questão climática possui consequências econômicas, sociais e humanas que não podem ser ignoradas.
Para ele, chama atenção o fato de poucos candidatos colocarem a crise climática entre suas principais prioridades. Mais preocupante ainda, segundo Astrini, é a existência de candidatos que negam o problema.
A ausência da questão ambiental no centro da campanha revela, na avaliação dos representantes da sociedade civil, uma distância perigosa entre os desafios concretos enfrentados pelo país e aquilo que efetivamente ocupa o debate eleitoral.
Minerais críticos e terras raras: A disputa pelo futuro
A discussão sobre minerais críticos e terras raras também ganhou importância estratégica. O Brasil possui recursos que podem ser decisivos para o avanço tecnológico, científico e industrial nas próximas décadas.
O assunto ganhou ainda mais relevância com a aprovação do projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, já encaminhado para sanção presidencial.
De um lado, o setor produtivo enxerga na iniciativa uma oportunidade de ampliar investimentos, agregar valor e fortalecer a capacidade tecnológica brasileira. De outro, organizações indígenas defendem que qualquer avanço nessa área esteja acompanhado de salvaguardas socioambientais e respeito à consulta prévia prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
É justamente nesse ponto que entra a preocupação das comunidades indígenas.
O coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Alcebias Constantino, afirma que a discussão sobre minerais estratégicos está diretamente relacionada à proteção dos territórios tradicionais. Sem esses territórios, argumenta, ficam comprometidos também direitos relacionados à saúde, educação e proteção das comunidades.
Movimento indígena decide disputar espaço nas urnas
Diante desse cenário, o movimento indígena decidiu transformar a eleição em instrumento direto de representação política.
Foram lançadas e apoiadas 56 candidaturas: 33 para deputado estadual, 19 para deputado federal, duas para senador, uma para governador e uma para suplência do Senado.
A estratégia é ampliar a presença indígena nos espaços de decisão e garantir que pautas construídas coletivamente tenham representantes capazes de defendê-las no Legislativo e no Executivo.
Para Constantino, a eleição não é apenas uma disputa entre nomes e partidos, mas uma ferramenta para assegurar direitos.
A crise institucional que domina o país, segundo ele, provoca instabilidade e pode gerar consequências para as comunidades indígenas. Mas existe também uma experiência histórica de resistência que faz com que o movimento mantenha sua mobilização.
O Brasil precisa voltar a discutir seu futuro
O ponto de convergência entre os representantes ouvidos é que a crise institucional não pode transformar a eleição em um plebiscito permanente sobre os conflitos entre instituições.
O Brasil continuará tendo de enfrentar os desafios da educação, da saúde, da segurança, do emprego, da ciência, da tecnologia, das mudanças climáticas, da soberania econômica e da proteção de seus recursos estratégicos.
A crise pode dominar o noticiário por semanas, mas não pode suspender os problemas que atingem a população todos os dias.
Com o primeiro turno se aproximando, cresce a necessidade de devolver ao eleitor o direito de comparar projetos, propostas e prioridades. A democracia não se resume ao funcionamento das instituições. Ela também depende da capacidade de a sociedade discutir, com clareza, que país pretende construir a partir das escolhas feitas nas urnas.
Por Damatta Lucas / Imagem: Fábio Rodrigues



