
O candidato do PL conserva uma fatia expressiva do eleitorado, mas começa a enfrentar o problema que nenhuma pesquisa consegue esconder: a dificuldade de transformar votos em uma coalizão política capaz de disputar o poder
Há uma imagem que começa a se desenhar com nitidez no cenário eleitoral brasileiro de 2026: Flávio Bolsonaro continua de pé, mas o palanque ao seu redor está ficando menor.
E essa talvez seja uma das questões mais importantes da eleição até aqui.
O Republicanos acaba de confirmar sua neutralidade na disputa presidencial. Dos diretórios estaduais consultados, 17 defenderam que o partido não tome posição nacional, enquanto nove preferiram uma aliança com o PL. A decisão é mais um revés para Flávio, que esperava encontrar na legenda uma ponte para ampliar sua composição política e, inclusive, solucionar a equação da vice-presidência.
Antes disso, PP e União Brasil já haviam escolhido preservar a liberdade de seus diretórios estaduais, deixando de oferecer à candidatura do PL o apoio nacional que Flávio buscava.
É preciso, entretanto, separar duas coisas que frequentemente são confundidas em uma eleição: força eleitoral e força política.
Flávio ainda tem a primeira.
A segunda é que começa a ser colocada à prova.
O paradoxo de Flávio
O dado mais intrigante da conjuntura é que o candidato aparentemente perde musculatura partidária ao mesmo tempo em que mantém uma posição competitiva nas pesquisas.
O levantamento BTG/Nexus divulgado nesta semana colocou Lula com 41% e Flávio com 37% no primeiro turno. No cenário de segundo turno apresentado pelo instituto, os dois aparecem em situação ainda mais apertada: 46% para Lula contra 45% para Flávio.
Portanto, não existe base factual para anunciar a candidatura como eleitoralmente morta.
Muito pelo contrário.
Existe uma parcela considerável do eleitorado que continua disposta a votar no candidato do PL.
Mas é justamente aí que começa o problema.
Se Flávio continua competitivo nas urnas, por que os grandes partidos não estão acompanhando sua candidatura na mesma proporção?
Essa é uma pergunta política, e não apenas eleitoral.
E talvez seja a pergunta que mais deveria interessar aos estrategistas da campanha.
O Centrão não está abandonando o eleitorado de direita
É preciso cuidado para não interpretar a neutralidade do Centrão como uma ruptura definitiva com o eleitorado bolsonarista.
PP, União Brasil e Republicanos possuem interesses próprios, bancadas, governos estaduais, candidaturas ao Senado e à Câmara e estratégias diferentes em cada região.
A neutralidade oferece exatamente isso: liberdade.
Liberdade para apoiar Flávio em determinado estado, negociar com outro grupo em outro, construir palanques próprios e esperar que a eleição presidencial amadureça.
No caso do PP, a posição nacional foi justificada justamente pela necessidade de preservar autonomia para as disputas estaduais e parlamentares.
Isso significa que o Centrão não necessariamente está dizendo “não” ao bolsonarismo.
Está dizendo algo politicamente mais sofisticado:
“Ainda não sabemos quem terá condições de vencer.”
E essa diferença pode ser decisiva.
A política não se faz apenas com pesquisa
Flávio pode chegar à eleição com 37% das intenções de voto.
Mas uma eleição presidencial não é uma pesquisa.
É uma operação gigantesca de transferência de votos, mobilização, comunicação, alianças, palanques estaduais, financiamento, tempo de propaganda, estrutura partidária e capacidade de convencer o eleitor que ainda não decidiu.
É aí que a candidatura começa a encontrar seu principal teste.
O PL tem estrutura.
O bolsonarismo tem militância.
Jair Bolsonaro continua sendo uma referência política para milhões de brasileiros.
Mas Flávio precisa provar que consegue transformar esse patrimônio político em uma candidatura presidencial que ultrapasse os limites naturais de seu próprio campo.
Essa é a fronteira que separa uma candidatura forte de uma candidatura majoritária.
O risco da bolha
Existe outro desafio.
A força do bolsonarismo é, simultaneamente, o maior patrimônio e uma das maiores limitações da candidatura.
A identidade política extremamente consolidada produz fidelidade.
Mas fidelidade não é necessariamente expansão.
O eleitor que já está convencido precisa ser mantido. O problema é conquistar aquele que não está.
E esse eleitor pode estar no centro, pode estar entre os independentes, pode ter votado em Bolsonaro e estar hoje indeciso, pode ter votado em Lula e admitir uma mudança, ou simplesmente pode não querer transformar a eleição novamente em um plebiscito sobre os dois polos que dominam a política brasileira.
É esse eleitor que Flávio precisa alcançar.
A pergunta, portanto, não é se ele tem uma base.
Tem.
A pergunta é se essa base consegue crescer.
O relógio eleitoral está correndo
Ainda há meses pela frente.
Isso significa que qualquer diagnóstico definitivo seria precipitado.
Uma candidatura pode mudar de patamar rapidamente.
Uma crise política pode alterar o humor do eleitorado.
Uma decisão econômica pode modificar prioridades.
Um debate pode produzir uma mudança de percepção.
Uma aliança inesperada pode redesenhar o mapa eleitoral.
E uma escolha acertada para a vice-presidência pode ajudar a ampliar a imagem de uma candidatura que hoje ainda carrega fortemente a marca Bolsonaro.
Por isso, falar em desmoronamento talvez seja exagerado.
Mas falar em perda de musculatura política já é perfeitamente possível diante dos movimentos partidários observados.
A candidatura não está desabando.
Está sendo obrigada a demonstrar que consegue caminhar sem a grande coalizão que imaginava ter ao seu lado.
E o Piauí?
No Piauí, o cenário acrescenta outra camada de dificuldade.
Flávio possui uma presença eleitoral relevante no estado e continua sendo o principal nome identificado com a direita nos cenários de pesquisa disponíveis.
Mas a distância para Lula é significativa.
Levantamento Real Time Big Data divulgado em julho apontou Lula com 65% das intenções de voto contra 20% de Flávio no primeiro turno.
Isso significa que o bolsonarismo não desapareceu do Piauí.
Longe disso.
Mas significa também que transformar a candidatura de Flávio em uma força majoritária no estado é uma tarefa muito mais difícil.
E há uma consequência política importante.
Quanto menor for a capacidade de Flávio de produzir uma votação expressiva no Piauí, maior será a necessidade de seus aliados estaduais construírem uma estratégia própria para suas candidaturas ao Senado e à Câmara.
Nesse cenário, a eleição presidencial e as eleições proporcionais podem caminhar juntas em determinados momentos – e separadas em outros.
O eleitor pode votar em um candidato ao Senado identificado com o campo bolsonarista sem necessariamente transferir automaticamente esse voto para Flávio.
Essa é uma das peculiaridades de 2026 que ainda precisará ser observada.
O que está realmente em disputa
Talvez a discussão mais interessante não seja saber se Flávio Bolsonaro conseguirá vencer Lula.
É cedo para isso.
A questão é saber qual será o tamanho político de Flávio quando a campanha efetivamente começar.
Chegará com uma grande coalizão?
Chegará praticamente sozinho?
Conseguirá atrair partidos que hoje preferem a neutralidade?
Conseguirá apresentar um discurso capaz de ultrapassar o eleitorado bolsonarista tradicional?
Conseguirá convencer o Centrão de que sua candidatura possui viabilidade concreta?
Ou os grandes partidos continuarão esperando o resultado das pesquisas antes de colocar suas estruturas em movimento?
São perguntas que não têm resposta definitiva neste momento.
Mas são perguntas que já estão colocadas sobre a mesa.
O barco ainda navega – mas mudou a paisagem
Talvez seja essa a melhor tradução do momento.
Flávio Bolsonaro não está fora da disputa.
Não está eleitoralmente irrelevante.
Não perdeu sua base.
E não pode ser descartado por nenhum analista que pretenda compreender seriamente a eleição de 2026.
Mas também não se pode ignorar o outro lado da fotografia.
O Republicanos preferiu a neutralidade.
PP e União Brasil não fecharam apoio nacional.
E os grandes partidos do Centrão, em vez de se lançarem de corpo inteiro ao lado do candidato do PL, preservam suas alternativas.
A candidatura continua competitiva.
Mas a coalizão que poderia transformar essa competitividade em uma máquina eleitoral nacional ainda não apareceu.
E talvez seja justamente essa a batalha que Flávio tenha pela frente nos próximos meses.
Não basta sobreviver eleitoralmente. É preciso construir poder político.
Essa será a prova.
Porque chegar perto de Lula em uma pesquisa é uma coisa.
Construir uma maioria para derrotá-lo é outra completamente diferente.
E é nessa diferença – entre estar vivo na pesquisa e estar preparado para vencer uma eleição nacional – que poderá estar o destino da candidatura de Flávio Bolsonaro em 2026.
Por Damatta Lucas
Imagem – Antonio Luiz



