
Pré-candidatura da delegada pelo MDB cria uma nova variável na corrida pela Câmara Federal e pode atingir diretamente candidatos que dependem do voto da segurança, das mulheres e do eleitorado urbano.
A candidatura de Anamelka Albuquerque à Câmara Federal começa a produzir um efeito que talvez seja mais importante do que o número de votos que ela possui hoje: obriga os adversários a fazer contas diferentes.
E eleição proporcional é, antes de tudo, uma guerra de contas.
A delegada da Polícia Civil, que já vinha sendo apontada como nome competitivo, decidiu mirar Brasília pelo MDB. O partido colocou seu nome numa nominata que também reúne os deputados federais Marcos Aurélio Sampaio e Castro Neto, além de outros pré-candidatos. A legenda chegou a trabalhar publicamente com a perspectiva de conquistar até três cadeiras.
Mas há algo ainda mais relevante.
Anamelka não chega à disputa como uma desconhecida.
Segundo levantamento divulgado sobre sua pré-candidatura, ela reúne cerca de 230 mil seguidores nas redes sociais.
É uma audiência que não garante voto — e seria irresponsável transformar seguidores em votos automaticamente —, mas representa um ativo político que muitos candidatos levam anos para construir.
E é justamente aí que começa o problema para alguns concorrentes.
O primeiro alvo da mudança: a própria chapa do MDB
Se existe um lugar onde a chegada de Anamelka produz impacto imediato, é dentro do próprio MDB.
Marcos Aurélio Sampaio e Castro Neto já são deputados federais e aparecem na composição da chapa. Ambos, portanto, têm mandato, estrutura política e experiência eleitoral.
Anamelka chega com outro tipo de capital.
Nome novo. Visibilidade. Segurança pública. Mulher. Redes sociais.
E isso pode ser uma combinação eleitoralmente incômoda.
Não porque necessariamente vá retirar votos diretamente de Marcos Aurélio ou Castro Neto, mas porque cada voto conquistado por uma candidatura forte dentro de uma chapa altera a distribuição interna de forças.
Se o MDB pretende fazer três federais, a competição será menos sobre quem conhece mais políticos e mais sobre quem consegue transformar notoriedade em voto.
E a delegada pode ter uma vantagem particular: não precisa disputar exatamente o mesmo eleitor de seus colegas.
Ela pode construir uma faixa eleitoral própria.
MAS É FORA DO MDB QUE O SINAL AMARELO PODE ACENDER
A candidatura que mais naturalmente se cruza com Anamelka é a do delegado Charles Pessoa.
E aqui existe uma coincidência impossível de ignorar.
Charles Pessoa anunciou oficialmente sua pré-candidatura a deputado federal pelo PV apresentando justamente a segurança pública e o combate ao crime organizado como pilares de sua plataforma.
Anamelka também pretende levar segurança pública para o centro de sua candidatura.
Temos, portanto:
Delegado x delegada.
Segurança pública x segurança pública.
Experiência policial x experiência policial.
Câmara Federal x Câmara Federal.
É uma das sobreposições eleitorais mais claras do cenário atual.
E Charles Pessoa já possui uma marca própria construída no combate ao crime organizado. A própria Secretaria da Segurança Pública do Piauí divulgou recentemente operação relacionada a ameaças contra o delegado em razão de sua atuação contra uma organização criminosa.
Há ainda um dado político importante: o Sindicato dos Policiais Civis do Piauí aprovou apoio institucional à pré-candidatura de Charles Pessoa para deputado federal.
Ou seja: Charles já ocupa um espaço organizado dentro da categoria policial.
Anamelka, por sua vez, pode tentar construir um espaço diferente: segurança + mulheres + prevenção + gestão + proteção social.
É aí que a disputa fica interessante.
O ELEITORADO FEMININO PODE SER O GRANDE CAMPO DE BATALHA
Existe uma diferença fundamental entre Anamelka e boa parte dos concorrentes da segurança pública.
Ela é mulher.
E pode transformar isso numa plataforma política.
A delegada não precisa ficar restrita à discussão sobre policiamento ostensivo, combate ao crime organizado ou endurecimento penal.
Pode falar de:
- feminicídio;
- violência doméstica;
- assédio;
- proteção das vítimas;
- segurança das mulheres;
- segurança digital;
- prevenção;
- atendimento especializado;
- políticas públicas de proteção.
Isso abre uma avenida eleitoral muito maior.
E permite que Anamelka tente fazer algo que candidatos tradicionais da segurança têm mais dificuldade de fazer:
transformar segurança pública em uma agenda feminina.
Essa pode ser uma de suas principais diferenciações.
FABRÍCIO LOIOLA E ETNIEL ANCHEITA: MAIS DOIS NOMES NO RADAR
O problema para quem pretende ocupar o eleitorado ligado à segurança é que Anamelka não será a única representante da categoria na corrida federal.
Levantamentos recentes apontam também Fabrício Loiola e Etniel Ancheita, pelo Republicanos, como nomes cotados para a Câmara Federal, ao lado de Charles Pessoa, Fábio Abreu e Elizete Lima.
Isso produz uma situação interessante.
O voto da segurança pública pode chegar à eleição fragmentado entre várias candidaturas.
E, nesse cenário, quem conseguir ultrapassar a barreira corporativa e transformar sua identidade profissional em candidatura de massa poderá sair na frente.
Anamelka tem uma possibilidade concreta de fazer isso pelo caminho feminino.
Charles, pelo combate ao crime organizado.
Fábio Abreu possui uma trajetória política e eleitoral própria.
Fabrício Loiola e Etniel Ancheita podem disputar segmentos específicos do eleitorado ligado às forças de segurança.
Portanto, a disputa não será simplesmente “quem é policial”.
Será:
quem consegue transformar a experiência na segurança em votos fora da segurança.
E FÁBIO ABREU?
Aqui a sobreposição merece atenção especial.
O capitão Fábio Abreu já possui trajetória política consolidada e também aparece entre os pré-candidatos federais ligados à segurança pública.
A diferença é que Fábio não depende apenas da identidade profissional.
Ele já construiu carreira eleitoral.
Por isso, Anamelka não representa necessariamente uma ameaça direta à sua candidatura, mas pode disputar uma parcela do eleitorado que tradicionalmente se identifica com candidatos oriundos da segurança.
E isso é suficiente para alterar o cálculo.
Em uma eleição proporcional apertada, alguns milhares de votos podem significar uma cadeira — ou a perda dela.
E O PT? AÍ A CONVERSA FICA MAIS COMPLEXA
O impacto de Anamelka não se limita aos candidatos policiais.
A eleição para deputado federal no Piauí já apresenta nomes fortes dentro da federação liderada pelo PT.
Uma pesquisa do Instituto Amostragem divulgada em abril colocou Georgiano Neto, do PSD, na liderança geral entre as citações para deputado federal, enquanto Dr. Francisco e Flávio Nogueira apareciam entre os nomes mais citados da federação petista; Florentino Neto e Charles Pessoa também apareciam no levantamento.
Isso mostra que Anamelka entrará numa disputa muito mais ampla.
Ela terá de enfrentar não apenas candidatos com identidade policial, mas também políticos com máquinas partidárias, mandatos, estruturas municipais e grupos eleitorais consolidados.
É justamente por isso que sua eventual capacidade de mobilização digital pode ser importante.
Marcos Aurélio e Castro Neto: o problema dentro de casa
Aqui está talvez a situação mais delicada.
Marcos Aurélio Sampaio e Castro Neto são hoje deputados federais pelo MDB.
Anamelka entra na mesma chapa.
Isso significa que os três estarão, em alguma medida, submetidos à mesma matemática partidária.
E existe uma pergunta inevitável nos bastidores:
o MDB conseguirá transformar três candidaturas competitivas em três cadeiras?
Se conseguir, ótimo para todos.
Se não conseguir, a disputa interna ganha importância.
É aí que Anamelka pode deixar de ser uma candidata nova e passar a ser uma variável decisiva dentro da própria legenda.
A grande arma: não falar apenas de polícia
Se Anamelka quiser realmente mudar de patamar, seu discurso terá de ultrapassar o uniforme.
Sua experiência policial é sua origem.
Não necessariamente precisa ser seu limite.
Ela pode transformar segurança pública em uma agenda muito mais ampla:
Segurança das mulheres
Uma das bandeiras com maior potencial de identificação popular.
Combate ao feminicídio
Tema capaz de conectar segurança, justiça e proteção social.
Inteligência policial
Um discurso moderno e tecnicamente defensável.
Tecnologia contra o crime
Reconhecimento facial, integração de bancos de dados, investigação digital e inteligência.
Proteção de crianças e adolescentes
Amplia enormemente o público da candidatura.
Combate à violência digital
Tema particularmente forte para uma candidatura com presença nas redes.
Valorização dos policiais
Aqui ela fala diretamente à categoria que conhece por dentro.
Integração das forças de segurança
Uma pauta que pode aproximar Polícia Civil, Polícia Militar, guardas municipais e gestores.
O que pode realmente assustar os adversários?
Não é a candidatura.
É o crescimento da candidatura.
Porque, neste momento, ninguém pode afirmar que Anamelka será eleita.
Mas também seria um erro tratá-la como uma candidatura simbólica.
Ela tem notoriedade pública, experiência profissional, presença digital e uma pauta que conversa com problemas concretos da população. A própria Polícia Civil confirmou seu afastamento para disputar a eleição, ao lado de Charles Pessoa, que também concorrerá à Câmara Federal.
E há outra questão.
A eleição proporcional não exige que Anamelka seja a candidata mais conhecida do Piauí.
Ela precisa encontrar uma combinação eleitoral suficientemente eficiente.
Se conseguir reunir:
mulheres + segurança + Teresina + servidores públicos + famílias + interior + redes sociais + lideranças municipais,
a equação muda.
Quem precisa olhar para Anamelka com mais atenção?
Sem transformar hipótese em fato, os nomes cuja disputa pode apresentar maior sobreposição temática ou partidária são:
Dentro do MDB:
- Marcos Aurélio Sampaio;
- Castro Neto;
- demais integrantes da nominata federal.
Na segurança pública:
- Charles Pessoa;
- Fábio Abreu;
- Fabrício Loiola;
- Etniel Ancheita;
- Elizete Lima.
A presença de todos esses nomes no radar federal é registrada em levantamentos recentes sobre a eleição de 2026.
E há um detalhe especialmente importante:
Charles Pessoa já aparece em pesquisa eleitoral citada como um dos nomes lembrados para deputado federal e recebeu apoio institucional do sindicato dos policiais civis.
Portanto, esse pode ser um dos confrontos eleitorais mais interessantes da campanha.
A delegada que pode obrigar a política a refazer suas contas
Anamelka ainda não tem mandato.
Não tem uma longa história eleitoral.
Não possui, pelo menos publicamente, uma estrutura municipal comparável à de alguns políticos tradicionais.
Mas tem uma coisa que a política tradicional nem sempre consegue comprar:
atenção.
E atenção, quando transformada em organização política, pode virar voto.
É por isso que sua pré-candidatura merece ser acompanhada.
Não porque a eleição esteja ganha.
Não está.
Não porque seus adversários já estejam derrotados.
Não estão.
Mas porque a delegada pode representar uma das candidaturas capazes de embaralhar a distribuição de votos entre segurança pública, eleitorado feminino e setores urbanos do Piauí.
E aí está o verdadeiro ponto de tensão.
Anamelka não precisa derrubar ninguém para mudar a eleição.
Basta crescer.
Porque, quando uma candidatura nova começa a ocupar o espaço que outros consideravam reservado, os donos antigos do território eleitoral são obrigados a se mexer.
E é exatamente aí que começa a parte mais interessante da eleição de 2026 no Piauí.
Por Damatta Lucas
Imagem: Instagram



