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Lula e Flávio abrem a corrida presidencial com estratégias opostas e transformam ruas em primeiro grande palco da eleição

São Bernardo do Campo e Rio de Janeiro foram escolhidos para marcar o primeiro capítulo de uma disputa que promete ser uma das mais acirradas da história recente do país

A eleição presidencial de 2026 deixou de ser apenas uma sucessão de pesquisas, articulações partidárias e discursos de pré-campanha. Neste domingo, 16 de agosto, a disputa ganhou as ruas e passou a ter oficialmente a dimensão de uma campanha eleitoral. Foi o primeiro dia autorizado pela Justiça Eleitoral para a propaganda eleitoral, inclusive na internet, e os dois nomes que aparecem no centro da corrida presidencial escolheram seus principais redutos políticos para iniciar a caminhada rumo ao Palácio do Planalto.

De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a São Bernardo do Campo, cidade que representa uma espécie de marco zero de sua trajetória política. Do outro, Flávio Bolsonaro (PL) levou sua campanha para Copacabana, um dos espaços mais identificados com as manifestações bolsonaristas no Rio de Janeiro.

Mais do que dois comícios, os acontecimentos de domingo funcionaram como uma apresentação das identidades que Lula e Flávio pretendem levar para os próximos meses.

Lula apostou na memória, na trajetória sindical, na experiência de governo e na tentativa de apresentar sua candidatura como continuidade de uma história política iniciada ainda no movimento operário do ABC paulista.

Flávio escolheu outro caminho: assumiu de maneira explícita a condição de herdeiro político de Jair Bolsonaro, mobilizou a identidade bolsonarista e transformou a oposição ao governo petista em uma das principais bandeiras de sua largada.

A eleição, portanto, começou com uma espécie de duelo de símbolos.

São Bernardo: Lula volta ao ponto de partida

Não foi por acaso que Lula escolheu São Bernardo do Campo.

O estádio Primeiro de Maio, ligado historicamente às grandes assembleias dos metalúrgicos do ABC, representa uma das imagens mais fortes da trajetória do presidente. Foi naquele ambiente de mobilização sindical que Lula ganhou projeção nacional e ajudou a construir a identidade política que posteriormente desembocaria na criação do Partido dos Trabalhadores.

Décadas depois, o cenário mudou completamente.

O antigo líder sindical que muitas vezes discursava para trabalhadores em estruturas improvisadas voltou ao mesmo ambiente diante de uma campanha profissionalizada, com grande estrutura de palco, telões, caravanas e uma militância organizada para produzir impacto político e visual.

A mensagem é evidente: Lula quer transformar sua própria história em argumento eleitoral.

Durante o discurso, o presidente recuperou episódios de sua trajetória, mencionou a família, relembrou personagens ligados à formação política e intelectual do PT e voltou a apresentar temas que deverão ocupar espaço importante na campanha, como educação, emprego, segurança pública, soberania nacional e desenvolvimento econômico.

Também apareceu com força uma agenda que ganhou importância estratégica no discurso do governo: a exploração de minerais estratégicos e das chamadas terras raras, tema relacionado à soberania econômica e tecnológica do Brasil.

O presidente ainda voltou a defender propostas sociais e econômicas que pretende transformar em marcas de sua campanha.

A presença de Lula em São Bernardo foi, assim, uma tentativa de ligar três tempos diferentes: o Lula sindicalista, o Lula presidente e o Lula candidato que busca permanecer no Palácio do Planalto.

Flávio transforma Copacabana em território bolsonarista

Se Lula procurou o passado para reforçar sua identidade, Flávio Bolsonaro buscou em Copacabana a força simbólica do movimento político construído por seu pai.

A escolha da Avenida Atlântica não é meramente geográfica. Copacabana tornou-se, nos últimos anos, um dos principais palcos das manifestações do bolsonarismo no Rio de Janeiro.

Foi nesse ambiente que Flávio subiu ao trio elétrico para inaugurar oficialmente sua campanha presidencial.

O ato teve bandeiras, manifestações de apoio, referências a Jair Bolsonaro e uma forte presença da simbologia que marcou as campanhas da direita brasileira desde 2018.

O senador procurou apresentar-se como continuador de um projeto político familiar, mas também como alguém que pretende construir sua própria candidatura.

A estratégia é particularmente importante porque Flávio precisa transformar a popularidade e a identidade política associadas ao sobrenome Bolsonaro em uma candidatura presidencial capaz de alcançar eleitores que não necessariamente integram a base mais fiel do bolsonarismo.

Seu discurso concentrou críticas ao governo Lula, ataques à condução da economia, defesa de uma política de segurança pública mais dura e promessa de combate às organizações criminosas.

Flávio também utilizou referências ao pai para reforçar a ideia de continuidade. Durante o ato, um áudio de Jair Bolsonaro foi reproduzido, numa demonstração clara de que a campanha pretende manter o ex-presidente como elemento central da identidade eleitoral do candidato.

A escolha de Copacabana também produziu uma imagem eleitoral poderosa: Flávio tentando ocupar fisicamente o espaço que, durante anos, foi associado às grandes manifestações de seu pai.

Dois discursos, uma mesma batalha pelo eleitor brasileiro

O primeiro dia revelou que a campanha deverá ser marcada por uma disputa intensa de narrativas.

Lula pretende apresentar o pleito como uma escolha entre projetos de governo e comparar sua administração com os anos de Jair Bolsonaro.

Flávio, por sua vez, trabalha para transformar a eleição em um julgamento sobre o governo Lula e, ao mesmo tempo, consolidar-se como representante do campo político que se identifica com Bolsonaro.

Essa diferença de estratégia deverá aparecer praticamente em todos os grandes temas da campanha.

Na economia, Lula tende a destacar emprego, renda, investimentos e políticas sociais. Flávio deverá explorar inflação, carga tributária, gastos públicos e críticas ao modelo econômico petista.

Na segurança pública, o candidato do PL pretende ocupar um espaço de forte apelo entre eleitores preocupados com criminalidade e violência. Lula também percebeu a importância do tema e passou a sinalizar propostas para ampliar a coordenação nacional da segurança pública.

Na política externa, soberania e recursos estratégicos deverão ganhar relevância.

E, transversalmente a todos esses assuntos, estará uma disputa ainda mais profunda: qual dos dois conseguirá apresentar-se como o candidato capaz de representar o futuro do país sem perder a força de sua própria base eleitoral?

A eleição começa apertada, apesar das diferenças entre as pesquisas

Os levantamentos divulgados nas últimas semanas mostram uma vantagem de Lula no primeiro turno, mas também revelam que a distância para Flávio não elimina a possibilidade de uma disputa competitiva.

Pesquisa CNT/MDA divulgada em 11 de agosto apontou Lula com 42,4% das intenções de voto no primeiro turno, contra 28,7% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno simulado pelo levantamento, Lula aparecia com 48%, diante de 39,1% de Flávio.

Já uma pesquisa BTG Pactual/Nexus divulgada nesta segunda-feira, 17 de agosto, mostrou um cenário mais apertado no eventual segundo turno, mantendo Lula e Flávio em situação de empate técnico dentro da margem de erro. O levantamento ouviu 2.003 eleitores entre 14 e 16 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais.

A fotografia das pesquisas, portanto, não permite tratar a eleição como decidida.

Ao contrário.

Ela aponta para uma campanha na qual cada ponto percentual poderá ser disputado com intensidade, especialmente entre eleitores indecisos, segmentos menos identificados ideologicamente e aqueles que poderão definir seu voto somente nas semanas finais.

A batalha que não aparece nos palanques: a abstenção

Existe ainda um adversário silencioso para os dois principais candidatos: a abstenção.

A mobilização das ruas é importante, mas não necessariamente se transforma em voto na urna.

O desafio das campanhas será converter entusiasmo, militância, exposição digital e manifestações públicas em comparecimento eleitoral.

Esse problema pode ser particularmente relevante em uma eleição marcada por elevada polarização e por índices expressivos de rejeição aos principais nomes.

Para Lula, a missão será manter mobilizado o eleitor que votou nele em 2022 e convencer setores que eventualmente estejam frustrados com o governo a retornar às urnas.

Para Flávio, o desafio é semelhante: transformar a força simbólica do bolsonarismo em participação efetiva, ampliando a votação para além do núcleo mais fiel ao sobrenome Bolsonaro.

É uma equação simples apenas na aparência.

Não basta convencer o eleitor. É preciso fazê-lo votar.

O segundo turno já começa a ser disputado no primeiro

Outro aspecto relevante da largada é que Lula e Flávio não estão disputando apenas o primeiro turno.

A movimentação das campanhas já considera o eventual segundo turno.

Nesse cenário, os votos conquistados por candidatos como Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e outros concorrentes poderão adquirir peso decisivo.

A pergunta que começa a circular nos bastidores é para onde irão esses eleitores caso seus candidatos não avancem.

A direita terá de administrar suas próprias divisões. O centro terá papel estratégico. E Lula precisará ampliar seu campo eleitoral para além do eleitorado tradicional do PT.

É justamente aí que a eleição pode ficar mais complexa.

Uma candidatura pode liderar o primeiro turno e, ainda assim, enfrentar enorme dificuldade para construir maioria no segundo.

A televisão, a internet e as ruas vão definir a próxima etapa

O início oficial da propaganda também abre uma nova fase da disputa.

A campanha passa agora a ocupar de maneira mais intensa as redes sociais, os eventos públicos, os veículos de comunicação e, posteriormente, o horário eleitoral gratuito.

O TSE também estabeleceu regras específicas para propaganda digital, desinformação e utilização de inteligência artificial durante as eleições de 2026.

Isso significa que a guerra eleitoral não será travada apenas nos palanques.

Ela estará nos celulares, nos vídeos curtos, nos grupos de mensagens, nas transmissões ao vivo, nos debates e nas imagens produzidas diariamente pelas campanhas.

O primeiro domingo serviu apenas como demonstração de força.

Uma eleição que começa com duas imagens

São Bernardo do Campo e Copacabana produziram, neste domingo, duas imagens que provavelmente acompanharão a campanha até outubro.

De um lado, Lula diante do estádio que simboliza sua origem política, tentando transformar décadas de trajetória em argumento para permanecer no poder.

Do outro, Flávio Bolsonaro diante do mar de Copacabana, buscando provar que o sobrenome Bolsonaro continua capaz de mobilizar multidões e de conduzir a direita brasileira a uma nova disputa pelo Planalto.

A eleição de 2026 começou, portanto, com dois candidatos tentando responder à mesma pergunta por caminhos completamente diferentes:

o Brasil quer continuidade ou mudança?

A resposta não estará nos palanques, nem nas pesquisas isoladamente.

Estará nas urnas.

E, a partir deste domingo, cada discurso, cada caminhada, cada vídeo, cada promessa e cada movimento político passa a fazer parte de uma disputa que promete ocupar o centro da vida brasileira pelos próximos meses.

A corrida começou. E, ao contrário do que alguns imaginavam, o primeiro dia já deixou claro que não haverá espaço para uma campanha morna.

Por Damatta Lucas

Imagem: Montagem

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