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Ciro Gomes e o abraço do PL: pragmatismo político ou abandono das antigas trincheiras?

A política brasileira tem uma memória curta, mas o eleitor costuma lembrar quando os discursos de ontem entram em choque com as alianças de hoje. A decisão do PL do Ceará de apoiar Ciro Gomes (PSDB) na disputa pelo Governo do Estado abriu uma nova e controversa etapa na trajetória de um dos políticos mais conhecidos do país. O acordo, oficializado em convenção estadual, coloca no mesmo palanque forças que, durante anos, estiveram em campos políticos radicalmente opostos. O próprio Ciro construiu boa parte de sua trajetória recente criticando duramente Jair Bolsonaro e o bolsonarismo. Agora, recebe o apoio do partido que abriga o ex-presidente e seus principais aliados no Estado.

A questão que emerge desse movimento vai muito além da disputa eleitoral cearense. Afinal, o que mudou: Ciro, o PL ou simplesmente as circunstâncias? A resposta, evidentemente, dependerá da interpretação de cada eleitor. Mas é inegável que a aliança produz um forte contraste com o histórico recente do ex-governador. Ciro sempre procurou se apresentar como uma alternativa independente tanto ao lulismo quanto ao bolsonarismo, posicionando-se como uma espécie de terceira via. Ao longo dos últimos anos, porém, sua estratégia nacional perdeu força nas urnas. Em 2018, terminou a corrida presidencial em terceiro lugar; quatro anos depois, caiu para a quarta posição, com pouco mais de 3,5 milhões de votos. Desde 2006, ainda segundo levantamento do UOL, ele não conquista uma eleição majoritária ou proporcional.

É nesse contexto que a candidatura ao Governo do Ceará ganha uma dimensão que ultrapassa os limites estaduais. Ciro volta às origens de sua carreira política e tenta reconstruir sua força justamente no território onde construiu seu principal capital eleitoral. O movimento pode ser compreendido como uma tentativa legítima de retomar protagonismo ou como uma mudança de rota diante do desgaste acumulado em quatro candidaturas presidenciais. O fato é que, depois de duas derrotas consecutivas na corrida pelo Palácio do Planalto, a disputa estadual representa uma oportunidade concreta de voltar ao centro do poder político. A pergunta inevitável é se essa reconstrução passa pela formação de alianças com grupos que, até pouco tempo atrás, estavam entre seus principais adversários.

A aproximação com o PL também expõe uma realidade cada vez mais evidente na política brasileira: as alianças regionais frequentemente seguem uma lógica própria. O próprio deputado federal André Fernandes afirmou que o acordo entre o PL cearense e Ciro é local e não estabelece compromisso de apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. A declaração revela justamente a distância entre a estratégia eleitoral do Estado e os projetos nacionais do partido. Em outras palavras, o PL pode apoiar Ciro no Ceará sem necessariamente incorporar sua candidatura presidencial ou alterar sua posição na disputa pelo Planalto.

A operação política, entretanto, não foi pacífica. A escolha do PL provocou uma disputa interna que colocou em lados opostos Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. Enquanto Michelle defendia a candidatura de Priscila Costa ao Senado, prevaleceu a composição que indicou Alcides Fernandes, pai de André Fernandes, para a disputa pela vaga. O episódio escancarou que, por trás da retórica nacional de unidade ideológica, existem interesses regionais, projetos pessoais e estratégias eleitorais capazes de reorganizar alianças de maneira surpreendente.

Para Ciro, a aliança representa uma vitória política imediata. Para seus adversários, porém, abre-se um flanco para questionamentos sobre coerência. Durante anos, o político cearense construiu sua imagem nacional justamente pela crítica contundente aos dois grandes polos da política brasileira. Sua relação com o campo petista se deteriorou progressivamente, enquanto o bolsonarismo esteve entre os alvos mais frequentes de suas críticas. Agora, ao receber o apoio do PL, Ciro passa a enfrentar uma cobrança inevitável: até onde vai a independência política e onde começa o pragmatismo eleitoral?

Não se trata, necessariamente, de afirmar que Ciro abandonou suas convicções ou que sua trajetória tenha perdido qualquer conteúdo ideológico. A política é dinâmica e alianças eleitorais podem ser construídas em torno de objetivos específicos. Mas também seria ingênuo ignorar o simbolismo de uma aproximação como essa. Quando adversários históricos passam a dividir o mesmo projeto eleitoral, o eleitor tem o direito de perguntar quais princípios permanecem intocados e quais foram relativizados em nome da conquista do poder.

O episódio também recoloca em discussão a própria viabilidade de uma nova candidatura presidencial de Ciro Gomes. A possibilidade não está descartada, mas o cenário atual é muito diferente daquele de 2018, quando ele ainda conseguiu ocupar o espaço de terceira força nacional. Em 2022, sua votação diminuiu e, desde então, sua trajetória política passou por mudanças partidárias e por uma reorientação de sua atuação. Em 2026, sua prioridade formal é o Governo do Ceará, candidatura já oficializada pelo PSDB, com apoio do PL estadual.

O desafio de Ciro, portanto, não é apenas vencer uma eleição. É reconstruir uma identidade política capaz de convencer um eleitorado que já o viu ocupar diferentes posições no tabuleiro nacional. O retorno ao Ceará pode ser sua tentativa de recuperar relevância e, quem sabe, transformar uma eventual vitória estadual em plataforma para um novo projeto nacional. Mas o caminho será difícil: a política brasileira está cada vez mais polarizada, e o espaço para candidaturas que pretendem se apresentar como alternativa aos extremos tornou-se mais estreito.

No fim das contas, a aliança entre Ciro Gomes e o PL cearense produz uma imagem que dificilmente passará despercebida: um político que durante anos combateu o bolsonarismo agora recebe o apoio formal de seu principal partido. A interpretação desse movimento ficará nas mãos do eleitor. Para alguns, trata-se da maturidade necessária para construir uma frente ampla em torno dos interesses do Ceará. Para outros, é apenas mais um capítulo do pragmatismo eleitoral que transforma antigos inimigos em aliados quando está em jogo o controle do poder.

É justamente nessa contradição que reside o maior desafio de Ciro Gomes. Mais do que convencer o eleitor de que ainda possui força para disputar uma eleição presidencial, caso essa possibilidade volte ao horizonte, ele terá primeiro de responder a uma questão mais elementar: qual é, afinal, o projeto político que pretende representar? A resposta poderá determinar não apenas o resultado da eleição no Ceará, mas também o lugar que Ciro ocupará na política brasileira daqui para frente.

Por Damatta Lucas para o portal Jogo do Poder

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