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O crime organizado não pode ser passaporte para a política

Partidos são pressionados a criar filtros contra facções e milícias, mas reação expõe uma fragilidade perigosa: até onde vai a responsabilidade das legendas na proteção das eleições?

A aproximação entre crime organizado e política deixou de ser uma hipótese distante para se transformar em uma preocupação concreta das instituições brasileiras. Às vésperas das eleições de 2026, o Ministério Público Eleitoral apertou o cerco e cobrou dos partidos medidas capazes de dificultar a entrada de pessoas ligadas a facções criminosas, milícias e outras estruturas ilegais no processo eleitoral.

A reação das legendas, porém, revela um problema que merece atenção. Algumas começaram a criar filtros, exigir certidões, declarações de idoneidade e informações patrimoniais. Outras alegam que não possuem instrumentos para investigar a vida dos candidatos e que essa tarefa caberia às autoridades policiais, ao Ministério Público e à própria Justiça Eleitoral.

O debate é legítimo. Partido político não é polícia, não dispõe dos mesmos mecanismos de investigação do Estado e também não pode substituir a Justiça na definição de culpa ou inocência. Mas existe uma diferença fundamental entre investigar criminalmente alguém e adotar critérios mínimos de integridade para permitir que alguém represente uma legenda nas urnas.

É justamente nessa fronteira que está o ponto mais importante da discussão.

O Ministério Público Eleitoral quer que os partidos conheçam melhor aqueles que pretendem lançar candidatos. Isso significa olhar para antecedentes, patrimônio, vínculos conhecidos e eventuais sinais de financiamento ilícito. Também entram no pacote comissões de ética e mecanismos internos capazes de identificar situações suspeitas.

Não se trata de transformar diretórios partidários em delegacias. Trata-se de impedir que as estruturas partidárias sejam utilizadas como porta de entrada para interesses criminosos.

A preocupação não é exagerada. O poder econômico do crime organizado, sua capacidade de corrupção, lavagem de dinheiro, controle territorial e influência social representam uma ameaça que pode ultrapassar as fronteiras da segurança pública e alcançar diretamente a política.

E, quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas policial.

Passa a ser institucional.

Um candidato financiado ou apoiado por organizações criminosas não disputa apenas uma eleição. Ele pode levar para dentro do Estado interesses privados e ilegais, comprometer decisões públicas e transformar mandatos em instrumentos de proteção para grupos que deveriam estar sob investigação.

Por isso, a cobrança feita aos partidos precisa ser vista dentro de uma lógica maior: a democracia também precisa de mecanismos de defesa.

Ao mesmo tempo, os filtros precisam respeitar o devido processo legal, o direito de defesa e as garantias individuais. Suspeita não pode ser confundida com condenação, e partido algum pode criar tribunais particulares para decidir quem é culpado.

O caminho, portanto, não está nem na omissão nem no arbítrio.

Está na responsabilidade.

Algumas legendas já começaram a estabelecer regras específicas, enquanto outras dizem possuir mecanismos internos de controle ou ainda avaliam as exigências apresentadas pelo Ministério Público Eleitoral. O movimento é importante, mas deveria ter começado muito antes da pressão institucional.

A política brasileira não pode esperar que uma facção tente entrar pela porta da frente para somente então descobrir que era necessário instalar uma fechadura.

As eleições pertencem ao cidadão. Os partidos são instrumentos da democracia. E os mandatos representam a soberania popular.

Nenhum desses espaços pode ser transformado em território de expansão do crime organizado.

A grande questão das eleições de 2026, portanto, não é apenas quem terá votos suficientes para chegar ao poder. É também quem está por trás de cada candidatura, quem financia cada projeto e quais interesses poderão chegar junto com cada mandato.

Porque combater a infiltração do crime na política não é uma questão partidária.

É uma questão de sobrevivência institucional da própria democracia.

Fonte: Damatta Lucas

Imagem: MPE

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