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Brasil discute as crises de hoje e deixa o futuro fora da agenda

Presidente da SBPC alerta para o esvaziamento do debate eleitoral sobre ciência, clima, inteligência artificial, minerais críticos, novas pandemias e envelhecimento da população

Enquanto a crise político-institucional e as denúncias relacionadas ao caso Master concentram o debate público, questões que definirão o futuro do Brasil continuam praticamente fora da agenda eleitoral. O alerta é da presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, para quem o país corre o risco de gastar toda a energia política com as disputas do presente e deixar de discutir os desafios estratégicos que já estão batendo à porta.

Doutora em engenharia elétrica, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Francilene avalia que existe uma falsa escolha entre defender a integridade das instituições e discutir um projeto de desenvolvimento para o país. Na sua avaliação, os dois assuntos deveriam caminhar juntos. O problema, segundo ela, é que a crise atual passou a ocupar um espaço desproporcional na agenda pública, empurrando para a periferia temas como ciência, tecnologia, mudanças climáticas, transição energética, inteligência artificial, preparação para novas crises sanitárias e aproveitamento dos minerais estratégicos existentes no território brasileiro.

A preocupação da SBPC ganhou forma concreta com a criação do Observatório das Eleições, iniciativa que reúne mais de uma centena de propostas consideradas estratégicas para o desenvolvimento nacional. A entidade tenta aproximar essas propostas das candidaturas e provocar um debate eleitoral capaz de olhar além do calendário imediato. O resultado, porém, ainda está aquém do esperado: pouco mais de uma centena de candidaturas aderiram às discussões, sem compromisso de candidatos a governador e com participação federal também considerada insuficiente.

Para Francilene, a ausência da ciência no debate eleitoral não é exatamente uma novidade. Historicamente, o tema costuma aparecer de maneira secundária, ganhando força apenas quando o país é confrontado com situações de emergência. Foi assim durante a pandemia de covid-19 e voltou a acontecer diante das enchentes no Rio Grande do Sul, das queimadas, da seca e da escassez hídrica registradas em diferentes regiões brasileiras.

O problema é que esses episódios deixaram de ser acontecimentos isolados e passaram a fazer parte de uma realidade que exige planejamento permanente. As mudanças climáticas já produzem impactos econômicos e sociais concretos, atingindo cidades, sistemas de abastecimento, produção agrícola, infraestrutura e os próprios biomas brasileiros. Para a comunidade científica, portanto, a discussão não deveria surgir apenas depois de uma tragédia, mas estar incorporada às políticas públicas de longo prazo.

Outro ponto considerado estratégico é a exploração dos chamados minerais críticos e das terras raras. O Brasil possui recursos importantes para cadeias industriais ligadas à transformação digital, à transição energética e às novas tecnologias. A questão, entretanto, não se resume à capacidade de extrair riquezas do subsolo. O desafio é construir condições para agregar valor, desenvolver tecnologia e processar esses recursos dentro do país, evitando que o Brasil permaneça preso ao velho modelo de exportação de matéria-prima.

É justamente nesse ponto que a ciência e a tecnologia assumem papel central. Sem pesquisa, inovação, formação de profissionais qualificados e investimentos contínuos, a riqueza mineral pode simplesmente reproduzir uma histórica dependência econômica: o país fornece recursos naturais enquanto outros países dominam as etapas de maior valor agregado.

A mesma lógica vale para a transformação digital e o avanço acelerado da inteligência artificial. A pergunta, segundo Francilene, não deveria ser apenas como o Brasil utilizará essas tecnologias, mas qual grau de soberania tecnológica pretende construir na próxima década. A dependência de tecnologias desenvolvidas no exterior pode transformar-se em uma questão estratégica para a economia, para a segurança e para a autonomia nacional.

Há ainda um desafio que tende a crescer silenciosamente: o envelhecimento da população. O Brasil se aproxima de uma mudança profunda em sua estrutura demográfica, e a preparação para esse cenário exigirá políticas de saúde, previdência, trabalho, educação, tecnologia e proteção social. Para a presidente da SBPC, o país precisa perguntar que tipo de sociedade pretende construir quando a parcela da população acima dos 60 anos superar, em perspectiva, a população em idade produtiva.

A preparação para novas crises sanitárias também deveria estar entre as prioridades nacionais. A experiência da covid-19 demonstrou o custo humano, econômico e social de uma emergência de grandes proporções. Para Francilene, o Brasil precisa fortalecer sua capacidade de resposta, melhorar as estratégias de imunização e preparar o Sistema Único de Saúde (SUS) para futuras ameaças. O alerta é direto: novas crises sanitárias são esperadas; a dúvida é quando ocorrerão e se o país estará preparado.

Ao mesmo tempo, a dirigente científica defende que a fiscalização das instituições e o respeito ao devido processo legal não podem ser abandonados. A SBPC, a Academia Brasileira de Ciências e outras entidades científicas já se posicionaram pela necessidade de respeito aos ritos constitucionais, ao direito de defesa e aos procedimentos legais nas investigações em curso.

A preocupação está na transformação de disputas, vazamentos e versões em combustível permanente para o debate político, enquanto questões estruturais perdem espaço. Para a comunidade científica, combater eventuais irregularidades e, simultaneamente, discutir o futuro do país não são tarefas incompatíveis. Ao contrário: fazem parte da mesma agenda de fortalecimento institucional e construção de um projeto nacional.

O alerta de Francilene Garcia coloca uma questão incômoda no centro das eleições: que país os candidatos estão propondo construir depois que as crises políticas de hoje deixarem de ocupar as manchetes?

A resposta exigirá mais do que disputa eleitoral, denúncias e conflitos institucionais. Exigirá visão de longo prazo, investimento em conhecimento e capacidade de transformar ciência em política pública. Caso contrário, o Brasil poderá chegar à próxima década com enormes riquezas naturais, uma população mais envelhecida, desafios climáticos maiores e tecnologias cada vez mais determinantes — mas ainda sem a soberania necessária para decidir o próprio caminho.

Redação: Damatta Lucas, com informações da Agência Brasil / Imagem: Valter Campanato

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