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Amapá acende alerta sobre risco fiscal após revelar rombo bilionário pouco depois de empréstimo com garantia da União

A situação fiscal do Amapá voltou ao centro das atenções depois que o governo estadual reconheceu um desequilíbrio financeiro próximo de R$ 1 bilhão, revelado apenas 44 dias após a contratação de um empréstimo de R$ 536 milhões junto ao Banco do Brasil, operação respaldada por garantia do Tesouro Nacional. O episódio levanta questionamentos sobre a qualidade das informações disponíveis no momento da autorização do crédito e sobre a capacidade dos mecanismos de acompanhamento das finanças estaduais de identificar, com rapidez, mudanças relevantes na situação econômica de um ente federativo.

O ponto mais sensível do caso está justamente na garantia oferecida pela União. Quando o governo federal avaliza uma operação dessa natureza, assume o compromisso de honrar a dívida caso o Estado deixe de cumprir suas obrigações. Posteriormente, a União busca recuperar os valores por meio das chamadas contragarantias, que podem envolver o bloqueio de recursos e outras medidas previstas nos contratos. O problema é que, quando a saúde financeira do Estado se deteriora rapidamente, o risco originalmente calculado para a operação pode se transformar em uma exposição adicional para as contas públicas federais.

A dimensão desse risco não é meramente teórica. Dados divulgados pelo Tesouro Nacional mostram que, desde 2016, a União já desembolsou R$ 89,42 bilhões para honrar garantias relacionadas a operações de crédito de estados e municípios. Somente em 2026, até junho, o volume acumulado chegou a R$ 2,90 bilhões. O próprio Amapá aparece entre os entes cujas dívidas garantidas pelo governo federal já exigiram pagamentos do Tesouro ao longo do ano.

Nesse contexto, a revelação de um rombo de quase R$ 1 bilhão pouco tempo depois da contratação do novo financiamento provoca uma discussão inevitável sobre os critérios de avaliação utilizados antes da concessão do aval federal. Segundo a apuração publicada pela imprensa, a situação fiscal posteriormente informada pelo governo amapaense, caso já fosse conhecida durante a análise da operação, poderia comprometer a classificação de risco atribuída ao Estado e, consequentemente, impedir a concessão da garantia da União. O episódio também ganhou peso porque ocorreu poucos meses depois de o Amapá ter deixado de honrar outras obrigações cobertas pelo governo federal.

O Ministério da Fazenda, por sua vez, sustenta que a operação foi autorizada de acordo com os critérios técnicos vigentes no momento da contratação. A pasta afirma ainda que alterações posteriores na situação fiscal dos entes são acompanhadas por instrumentos de monitoramento e pelas contragarantias previstas nos contratos. A explicação é relevante porque estabelece uma distinção entre a análise realizada antes da assinatura do empréstimo e a deterioração financeira que teria sido identificada posteriormente.

O caso, portanto, não se limita ao tamanho do rombo apresentado pelo governo estadual. Ele coloca em discussão a própria arquitetura de proteção das finanças públicas brasileiras. De um lado, os Estados precisam de acesso ao crédito para financiar investimentos e reorganizar suas dívidas. De outro, quando existe garantia federal, parte importante do risco acaba sendo transferida para a União e, em última instância, para o conjunto dos contribuintes.

A legislação e as normas do Tesouro Nacional estabelecem critérios para a concessão de garantias federais e para o acompanhamento das operações de crédito. O desafio está em assegurar que essas regras sejam capazes de capturar rapidamente mudanças relevantes na realidade fiscal dos governos estaduais. A existência de mecanismos formais de controle não elimina, por si só, o risco de que informações sejam atualizadas posteriormente ou que uma situação financeira se deteriore em um intervalo curto.

O episódio também reforça a importância da transparência na divulgação dos dados fiscais e do trabalho permanente dos órgãos de controle. Tribunal de Contas, controladorias, Ministério Público de Contas e demais instituições de fiscalização têm papel fundamental na análise da execução orçamentária, da evolução do endividamento e da qualidade das informações apresentadas pelos governos. Quanto maior a dependência de garantias da União, maior também deve ser o nível de transparência e de escrutínio sobre a capacidade real de pagamento dos Estados.

O caso do Amapá deixa, assim, uma pergunta que ultrapassa as fronteiras do próprio Estado: até que ponto os mecanismos atuais conseguem impedir que uma operação de crédito considerada segura no papel se transforme, pouco tempo depois, em um novo risco para o Tesouro Nacional? A resposta passa pela qualidade das informações fiscais, pela atualização permanente dos indicadores e pela efetividade da fiscalização. Afinal, quando uma dívida estadual conta com o aval da União, o problema de um governo local pode, em determinadas circunstâncias, acabar chegando à conta de todos os brasileiros.

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