Quando a dúvida vira arma política, a democracia precisa responder

Nunes Marques endurece defesa das urnas eletrônicas e afirma que desacreditar o sistema é “desconvidar” o eleitor da maior festa democrática do país
A eleição ainda nem chegou, mas uma velha estratégia política já começa a reaparecer no horizonte brasileiro: colocar a urna eletrônica no centro da desconfiança para, depois, questionar o resultado que dela sair.
Foi diante desse cenário que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, fez neste domingo (9), em Brasília, uma defesa direta do sistema eletrônico de votação. Durante a Corrida pela Democracia, realizada no Autódromo Internacional Nelson Piquet, o ministro deixou claro que a Justiça Eleitoral não pretende assistir passivamente à tentativa de transformar a urna em instrumento de suspeição política.
A mensagem foi objetiva: desacreditar o sistema de votação não é apenas atacar uma tecnologia; é atingir a própria disposição do eleitor de participar do processo democrático.
Segundo Nunes Marques, o sistema brasileiro construiu sua credibilidade ao longo de três décadas por meio de aperfeiçoamento tecnológico, fiscalização e mecanismos de auditoria.
E foi justamente nesse ponto que o presidente do TSE fez uma advertência que ganha peso especial em um ano eleitoral:
“Desacreditar o sistema de votação brasileiro é desconvidar o eleitor brasileiro a participar da maior festa democrática do Brasil.”
Não se trata, portanto, apenas de uma discussão técnica sobre equipamentos. O que está em jogo é a confiança do cidadão no resultado produzido pelas urnas.
Uma semana para abrir a urna – e fechar o espaço da desinformação
A declaração de Nunes Marques encerrou a primeira Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação, iniciativa realizada pelo TSE em parceria com Tribunais Regionais Eleitorais.
Entre os dias 3 e 9 de agosto, o eleitor teve acesso a demonstrações sobre o funcionamento das urnas, seus mecanismos de segurança e procedimentos de fiscalização. A iniciativa foi apresentada pelo próprio TSE como uma ação de transparência ativa.
A estratégia é simples: se existe dúvida, que ela seja confrontada com informação.
Se existe suspeita, que ela seja submetida à fiscalização.
Se existe desinformação, que seja enfrentada com dados, procedimentos públicos e mecanismos de auditoria.
Nunes Marques classificou a iniciativa como um marco de transparência e segurança e afirmou esperar que, ao final da semana, a desinformação estivesse “menor” diante das informações apresentadas à sociedade.
É uma mudança importante de postura da Justiça Eleitoral: em vez de apenas reagir depois que a mentira circula, o tribunal procura ocupar antecipadamente o espaço da informação.
A urna volta ao centro da disputa política
O movimento do TSE ocorre em um momento particularmente sensível.
Em julho, o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, participou de encontro com embaixadores estrangeiros e pediu que os países enviassem “a maior quantidade de observadores possíveis” para acompanhar as eleições de outubro. Na ocasião, ele também apresentou alegações sobre as urnas que já haviam sido contestadas pela Justiça Eleitoral.
Flávio afirmou que não estava questionando o sistema eleitoral brasileiro e sustentou que a presença de observadores internacionais contribuiria para ampliar a transparência.
A questão, porém, está justamente no efeito político desse tipo de discurso.
Porque existe uma diferença entre fiscalizar uma eleição e construir previamente a ideia de que uma eleição precisa ser fiscalizada porque seu sistema não merece confiança.
A primeira atitude é parte normal da democracia.
A segunda pode alimentar uma dúvida que, depois, dificilmente será contida.
O episódio também inevitavelmente remete à trajetória política de Jair Bolsonaro. Em 2022, o então presidente levou críticas ao sistema eletrônico de votação a uma reunião com embaixadores. Em 2023, o TSE declarou Bolsonaro inelegível por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação relacionados àquela atuação.
Agora, quatro anos depois, a discussão reaparece pelas mãos do filho.
A diferença é que, desta vez, o TSE parece disposto a disputar o terreno da informação antes que a desconfiança se transforme em narrativa dominante.
A fórmula da desconfiança
Há uma fórmula política que se tornou conhecida no Brasil: afirmar confiança nas urnas ao mesmo tempo em que se acumulam perguntas, suspeitas e insinuações sobre sua segurança.
É uma contradição que merece ser observada.
Porque não basta dizer “confio” depois de passar dias levantando suspeitas.
A democracia não pode funcionar sob a lógica de que o resultado é legítimo apenas quando favorece determinado grupo político.
A eleição precisa ser aceita antes, durante e depois da votação.
O eleitor tem o direito de fiscalizar.
Os partidos têm o direito de questionar.
Os candidatos têm o direito de criticar.
Mas questionamento democrático exige fatos, provas e procedimentos verificáveis. Sem isso, a crítica pode facilmente se transformar em instrumento de corrosão da confiança pública.
Nunes Marques: a urna pode ser aperfeiçoada, mas não precisa ser desmoralizada
A posição adotada por Nunes Marques não significa que a Justiça Eleitoral considere o sistema perfeito ou acabado.
Pelo contrário.
Desde que assumiu a presidência do TSE, o ministro tem defendido justamente o aperfeiçoamento contínuo do modelo. Na cerimônia de posse, em maio, classificou o sistema eletrônico de votação como “patrimônio institucional” da democracia brasileira e afirmou que cabe à Justiça Eleitoral preservar, aperfeiçoar e fortalecer continuamente a confiança pública nas urnas.
Essa é uma diferença fundamental.
Aperfeiçoar é uma coisa. Deslegitimar é outra.
Toda tecnologia pode evoluir.
Todo sistema pode ser fiscalizado.
Toda instituição pode ser aperfeiçoada.
Mas isso não significa que se deva lançar sobre o processo eleitoral uma suspeita permanente sem apresentar evidências capazes de sustentá-la.
TSE prepara nova frente contra deepfakes e desinformação
O tribunal também prepara mecanismos específicos para enfrentar um dos maiores desafios das eleições de 2026: o uso de inteligência artificial para produzir conteúdos falsos ou manipulados.
O TSE já vem trabalhando com plataformas digitais para estabelecer ferramentas destinadas a reduzir a circulação de deepfakes e outros conteúdos de desinformação durante o processo eleitoral.
A preocupação é justificada.
Se em eleições anteriores a disputa pela informação já foi capaz de alterar o ambiente político, a inteligência artificial oferece agora uma ferramenta ainda mais poderosa para fabricar vídeos, áudios e imagens capazes de parecer verdadeiros.
A urna pode ser segura.
Mas a informação que chega ao eleitor também precisa ser.
A nova batalha eleitoral
O debate sobre as urnas, portanto, não deve ser analisado isoladamente.
Ele faz parte de uma batalha maior pela confiança do eleitor.
De um lado, a Justiça Eleitoral tenta demonstrar como o sistema funciona, abre equipamentos, apresenta mecanismos de fiscalização e amplia a transparência.
Do outro, setores políticos continuam alimentando questionamentos sobre a segurança do processo, ainda que, em determinados momentos, procurem deixar claro que não estão formalmente contestando a eleição.
É nesse espaço entre a afirmação e a insinuação que a democracia brasileira precisará caminhar até outubro.
E talvez esteja aí o principal recado da manifestação de Nunes Marques:
a eleição não começa no dia em que o eleitor aperta a tecla “confirma”. Ela começa muito antes — no momento em que o cidadão decide se acredita ou não que seu voto será respeitado.
Por isso, a defesa da urna eletrônica não é defesa de um governo, de um partido ou de um candidato.
É defesa do direito de o eleitor votar sabendo que seu voto será registrado, fiscalizado e contabilizado dentro das regras estabelecidas.
No Brasil de 2026, essa talvez seja uma das disputas mais importantes de todas:
não apenas quem vencerá a eleição, mas quem conseguirá impedir que a democracia seja derrotada pela desconfiança antes mesmo de a urna ser aberta.
Análise Política de Damatta Lucas
Imagem: STF



