DestaquesEleições GeraisManchetesNacionalPolíciaPolítica

JOGO DO PODER | A eleição que expõe o velho machismo da política brasileira

Por que, em um país onde as mulheres são maioria do eleitorado, nenhuma delas aparece hoje como protagonista de uma chapa presidencial competitiva?

Essa é uma pergunta que o Brasil de 2026 não pode evitar.

A eleição presidencial deste ano caminha para um fato politicamente constrangedor: pela primeira vez desde 2002, o país poderá chegar às urnas sem uma mulher ocupando o posto de candidata a presidente ou vice-presidente em uma chapa considerada competitiva.

Não se trata de uma questão meramente eleitoral. É um retrato da estrutura de poder brasileira.

E o contraste é difícil de ignorar. As mulheres representam 52,84% do eleitorado nacional, segundo os dados mais recentes do Tribunal Superior Eleitoral. São mais de 83,8 milhões de eleitoras. São maioria nas urnas, mas continuam sendo minoria nas instâncias em que se decide quem terá o direito de disputar e exercer o poder.

A pergunta, portanto, precisa ser ampliada: o problema está na falta de mulheres capazes de disputar a Presidência ou na falta de disposição dos partidos para colocá-las no centro do jogo?

A resposta não pode ser simplesmente a primeira.

Onde estão as mulheres?

A história recente mostra que mulheres competitivas existem.

Dilma Rousseff chegou à Presidência da República. Marina Silva disputou duas eleições presidenciais com votações expressivas. Heloísa Helena alcançou quase 7% dos votos em 2006. Simone Tebet tornou-se uma das principais figuras da disputa de 2022. Manuela d’Ávila e Kátia Abreu estiveram em chapas com candidaturas presidenciais competitivas. Mara Gabrilli, Ana Paula Matos e Ana Amélia Lemos também ocuparam posições relevantes em chapas presidenciais.

Portanto, não parece razoável concluir que o Brasil simplesmente tenha ficado sem mulheres capazes de participar da disputa pelo Palácio do Planalto.

O problema talvez seja outro.

Quem escolhe os candidatos? Quem controla as alianças? Quem distribui os recursos? Quem decide quais nomes podem crescer? E quem determina, nos bastidores, que determinada mulher é suficientemente boa para ser vice, mas não suficientemente forte para ser cabeça de chapa?

É aí que a discussão deixa de ser apenas eleitoral e passa a ser estrutural.

A política ainda funciona como um clube masculino

A política brasileira continua carregando marcas de uma cultura construída durante décadas — e até séculos — sob uma lógica essencialmente masculina.

O homem é frequentemente apresentado como o candidato natural ao poder.

A mulher precisa provar mais.

Precisa explicar mais.

Precisa demonstrar mais competência.

Precisa superar maior resistência.

E, mesmo depois de tudo isso, muitas vezes ainda é convidada a ocupar o papel de coadjuvante.

Não é coincidência que, quando se fala em composição de chapas, mulheres apareçam frequentemente como instrumentos de equilíbrio eleitoral: para melhorar a imagem da candidatura, ampliar a comunicação com o eleitorado feminino, representar determinado segmento ou diminuir rejeições.

Mas ocupar uma chapa como elemento estratégico não é a mesma coisa que comandá-la.

A diferença é enorme.

E é justamente essa diferença que o processo eleitoral de 2026 está colocando diante do país.

O caso Flávio Bolsonaro é simbólico

A escolha do deputado Alfredo Gaspar como candidato a vice na chapa de Flávio Bolsonaro tornou ainda mais evidente esse dilema.

Havia expectativa de que o candidato pudesse escolher uma mulher para a vice-presidência, inclusive como estratégia para ampliar sua interlocução com o eleitorado feminino. A decisão, porém, acabou recaindo sobre um homem. A escolha foi anunciada em 5 de agosto.

É importante não transformar essa decisão isolada em prova de uma regra geral. Mas ela é politicamente simbólica.

Porque a pergunta permanece:

se as mulheres são maioria do eleitorado, por que a primeira reação dos partidos continua sendo procurar homens para ocupar os espaços mais importantes das chapas?

A questão não é obrigar partidos a escolherem mulheres.

É perguntar por que, tantas vezes, elas sequer chegam à mesa onde as escolhas são feitas.

As “candidatas laranjas” não podem servir de desculpa

Existe, evidentemente, um problema que não pode ser ignorado: o uso de candidaturas femininas fictícias ou sem efetiva participação política para cumprir formalmente regras eleitorais.

A Justiça Eleitoral tem endurecido o combate às chamadas candidaturas fictícias e às fraudes à cota de gênero. A legislação estabelece que as listas proporcionais devem respeitar o mínimo de 30% e o máximo de 70% de candidaturas de cada sexo.

Mas combater candidaturas de fachada não significa aceitar a ausência de mulheres nos verdadeiros centros de poder.

Uma coisa é impedir fraude.

Outra, completamente diferente, é utilizar a existência de fraudes como justificativa para manter as mulheres afastadas das disputas mais importantes.

Não se pode transformar a exceção fraudulenta em argumento contra a presença legítima da mulher na política.

Mas as mulheres também precisam ocupar o espaço

Há, sim, uma parcela dessa responsabilidade que precisa ser discutida entre as próprias mulheres.

Não basta reclamar da falta de espaço se não houver disposição para ocupar esse espaço.

É necessário construir lideranças, organizar movimentos, disputar partidos, formar quadros, conquistar eleitorado e enfrentar as estruturas internas que historicamente foram dominadas por homens.

A política não oferece lugar espontaneamente a ninguém.

Entretanto, essa constatação não pode ser usada para inverter a responsabilidade.

Não é possível exigir que mulheres construam candidaturas competitivas em estruturas partidárias nas quais, muitas vezes, elas têm menos recursos, menor influência interna e menor acesso às decisões estratégicas.

A responsabilidade, portanto, é compartilhada — mas o peso histórico não é igual.

Maioria nas urnas, minoria no poder

Os números são eloquentes.

Nas eleições municipais de 2024, as mulheres representaram cerca de 33% das candidaturas. Foram 155 mil candidatas entre 456.310 registros. Apenas 733 mulheres foram eleitas prefeitas e 12.380 chegaram às câmaras municipais. Nas eleições gerais de 2022, somente quatro mulheres foram eleitas para o Senado e 91 para a Câmara dos Deputados.

O próprio Tribunal Superior Eleitoral reconhece a contradição: as mulheres são maioria do eleitorado, mas a participação delas entre os eleitos ainda não chega a 20%.

Isso não é um detalhe estatístico.

É uma anomalia democrática.

Uma democracia na qual mais da metade dos eleitores é formada por mulheres, mas os espaços de comando permanecem majoritariamente masculinos, precisa olhar para dentro de si.

E o problema não termina na política.

A sub-representação feminina também aparece em diversos espaços de poder e decisão — no Judiciário, nas instituições econômicas, nas estruturas partidárias, nas grandes organizações públicas e privadas.

O Brasil mudou muito.

Mas determinadas estruturas de poder mudaram pouco.

A ausência de 2026 deveria provocar indignação democrática

Talvez a maior questão desta eleição não seja simplesmente perguntar qual homem vencerá a Presidência.

Talvez seja perguntar por que, em pleno século XXI, o eleitor brasileiro está sendo apresentado a um cenário no qual uma mulher sequer aparece entre as principais alternativas para comandar o país.

Não faltam mulheres no Brasil.

Não faltam eleitoras.

Não faltam profissionais qualificadas.

Não faltam cientistas, empresárias, juristas, médicas, professoras, administradoras, pesquisadoras, jornalistas, magistradas, servidoras públicas e lideranças sociais.

Então o que falta?

Falta abrir as portas do poder.

E essa abertura não ocorrerá apenas com discursos sobre igualdade, campanhas publicitárias no Dia Internacional da Mulher ou fotografias de mulheres ao lado de dirigentes partidários.

Mulheres precisam estar onde o poder realmente é exercido.

Precisam decidir.

Precisam comandar.

Precisam disputar.

Precisam perder e ganhar.

Precisam ter o direito de errar como os homens historicamente tiveram.

Porque democracia não significa apenas permitir que mulheres votem.

Significa também permitir que elas sejam votadas, escolhidas, financiadas, apoiadas e colocadas em condições reais de disputar o poder.

O Brasil precisa responder

A eleição de 2026 pode acabar sendo lembrada não apenas pela disputa entre os principais nomes masculinos que estarão no páreo.

Pode ser lembrada também pelo vazio feminino nas chapas presidenciais competitivas.

E esse vazio deveria incomodar.

Não porque uma mulher tenha de ser colocada artificialmente em uma chapa.

Mas porque uma sociedade que possui mais de 83 milhões de eleitoras não deveria considerar normal que os principais partidos nacionais não consigam — ou não queiram — apresentar uma mulher com força suficiente para disputar o comando da República.

A questão que o Jogo do Poder coloca é simples, mas incômoda:

não temos mulheres capazes de disputar a Presidência ou temos um sistema político que ainda não aprendeu a enxergá-las como protagonistas?

Talvez seja exatamente essa a pergunta que os partidos prefeririam não responder.

Porque, quando mais da metade do eleitorado é feminina e os homens continuam ocupando quase todos os lugares de maior poder, já não basta perguntar onde estão as mulheres.

É preciso perguntar:

quem está impedindo que elas cheguem lá?

Relacionados

Botão Voltar ao topo