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Mulheres avançam no empreendedorismo e ganham protagonismo na economia do Piauí

Durante muito tempo, empreender para muitas mulheres significou apenas uma alternativa diante da falta de oportunidades no mercado formal de trabalho. Essa realidade, porém, vem mudando. No Piauí, o empreendedorismo feminino deixou de ser apenas uma estratégia de sobrevivência e passou a ocupar um espaço cada vez mais relevante na economia, na geração de renda e na criação de novos negócios.

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. As mulheres já representam uma parcela expressiva dos pequenos negócios piauienses e aparecem com forte presença em setores como comércio, serviços, beleza, gastronomia, vestuário, artesanato e economia criativa. Em algumas bases de dados, elas chegam a representar aproximadamente 47% das empresas ativas no Estado, enquanto levantamentos específicos sobre pequenos negócios apontam participação próxima de 37,8%.

Mais do que números, esses indicadores revelam uma mudança de comportamento econômico. Mulheres que antes estavam fora do mercado empresarial passaram a assumir o comando de pequenos negócios, transformar habilidades em fontes de renda e buscar independência financeira por meio da atividade empreendedora.

De alternativa de renda a estratégia de autonomia

O crescimento do empreendedorismo feminino tem diferentes explicações. Para algumas mulheres, abrir um negócio ainda representa uma resposta à necessidade de complementar a renda familiar. Para outras, significa conquistar autonomia financeira, deixar o emprego formal, transformar uma profissão em empresa ou simplesmente construir uma trajetória profissional independente.

O resultado é uma presença feminina cada vez mais diversificada no ambiente empresarial.

Salões de beleza, lojas de roupas e acessórios, produção de alimentos, confeitarias, empresas de serviços, comércio eletrônico, artesanato e negócios ligados à economia criativa são alguns dos segmentos em que as empreendedoras piauienses ganharam espaço.

Mas há uma característica importante nesse movimento: muitas delas já não querem apenas vender. Querem administrar, crescer, contratar, investir em tecnologia, ampliar mercados e transformar pequenos negócios em empresas competitivas.

É justamente nesse ponto que o empreendedorismo feminino passa a ter importância estratégica para a economia estadual.

Crédito começa a abrir novas portas

Um dos principais obstáculos historicamente enfrentados pelas mulheres que desejam empreender é o acesso ao crédito. Sem capital para comprar equipamentos, ampliar estoques, reformar estabelecimentos ou investir em divulgação, muitos negócios permanecem pequenos durante anos.

Nesse cenário, as linhas de financiamento voltadas ao público feminino passaram a desempenhar papel importante.

A Agência de Fomento e Desenvolvimento do Estado do Piauí (Badespi), por exemplo, mantém iniciativas destinadas à inclusão produtiva e ao fortalecimento de empreendedoras. O chamado Fomento Mulher já movimentou mais de R$ 92 milhões, ampliando o acesso ao financiamento para mulheres que atuam tanto na informalidade quanto como Microempreendedoras Individuais (MEIs).

O dinheiro, entretanto, não representa apenas crédito. Para uma pequena empreendedora, pode significar a compra de uma máquina, a ampliação de uma cozinha, a aquisição de mercadorias, a abertura de um ponto comercial ou a profissionalização de um serviço que antes funcionava de maneira improvisada.

É nesse momento que uma política de crédito deixa de ser apenas financeira e passa a produzir efeitos sociais e econômicos.

Capacitação é o segundo grande desafio

Ter uma boa ideia não é suficiente para garantir a sobrevivência de uma empresa. Muitos pequenos negócios fracassam não pela falta de mercado, mas pela ausência de planejamento, controle financeiro, conhecimento de marketing, formação de preços e capacidade de gestão.

Por isso, a capacitação tornou-se uma das principais ferramentas para consolidar o avanço das mulheres no empreendedorismo.

O Sebrae Piauí mantém programas e jornadas de formação voltados às empreendedoras, com conteúdos que passam por gestão, fluxo de caixa, precificação, marketing digital, liderança e planejamento empresarial.

A atuação de instituições públicas, privadas e organizações da sociedade civil também amplia essa rede de apoio, criando oportunidades para que mulheres que começaram seus negócios de maneira informal possam adquirir conhecimentos para profissionalizar suas atividades.

Em Teresina, iniciativas vinculadas às políticas públicas para mulheres e programas de qualificação profissional também oferecem cursos de curta duração em áreas como estética, beleza e serviços, muitas vezes com foco direto na geração de renda.

O Instituto Federal do Piauí e outras instituições de ensino completam esse ecossistema com cursos e ações de extensão que ajudam a aproximar as empreendedoras de conhecimentos relacionados à formalização, administração e finanças.

Networking também virou ferramenta de crescimento

Empreender sozinha pode ser uma necessidade no começo, mas crescer exige relacionamento.

É nesse espaço que organizações como a Associação Mulheres de Negócios do Piauí (AMNe-PI) ganham importância. A formação de redes de contatos permite a troca de experiências, a criação de parcerias, a divulgação de produtos e serviços e a aproximação entre empreendedoras de diferentes segmentos.

Feiras, encontros empresariais, eventos de capacitação e iniciativas de networking também ajudam a romper uma das maiores dificuldades enfrentadas por pequenos negócios: a falta de visibilidade.

Uma empreendedora que consegue ampliar sua rede de contatos aumenta as possibilidades de encontrar fornecedores, clientes, parceiros comerciais e até investidores.

Ainda existem barreiras — e elas não são pequenas

O avanço, entretanto, não significa que o caminho esteja livre.

A burocracia, o custo do crédito, a dificuldade de acesso a mercados maiores e a necessidade de qualificação continuam entre os principais desafios para quem administra uma pequena empresa.

Existe ainda uma barreira que dificilmente aparece nas estatísticas financeiras: a dupla jornada.

Muitas empreendedoras continuam responsáveis por grande parte das tarefas domésticas e familiares. Isso significa que o tempo disponível para estudar gestão, participar de cursos, buscar clientes, cuidar das redes sociais ou planejar o crescimento da empresa é menor.

É uma desvantagem competitiva que não pode ser ignorada.

Por isso, políticas de incentivo ao empreendedorismo feminino precisam ir além da simples oferta de crédito. É necessário combinar financiamento, capacitação, acesso a mercados, tecnologia, formalização e redes de apoio.

Uma força econômica que ainda pode crescer muito

O empreendedorismo feminino já é uma realidade consolidada no Piauí. O próximo desafio é transformar quantidade em escala e presença em competitividade.

Não basta que milhares de mulheres tenham pequenos negócios. É preciso criar condições para que essas empresas sobrevivam, cresçam, contratem trabalhadores, conquistem novos mercados e aumentem sua participação na economia estadual.

O crédito pode ser a porta de entrada. A capacitação pode ser o caminho. Mas a consolidação dependerá de políticas permanentes e de um ambiente empresarial capaz de permitir que essas empreendedoras avancem.

As mulheres piauienses já demonstraram que sabem empreender.

Agora, o desafio é garantir que tenham capital, conhecimento, mercado e condições para crescer.

Porque quando uma mulher transforma uma habilidade em negócio, não está apenas criando uma fonte de renda para si. Está movimentando fornecedores, atraindo consumidores, gerando empregos e fortalecendo a economia local.

O empreendedorismo feminino deixou de ser coadjuvante. No Piauí, ele já é uma das forças que ajudam a movimentar a economia — e pode se tornar ainda maior se houver políticas capazes de transformar pequenos negócios em empresas cada vez mais competitivas.

Por Damatta Lucas

Imagem: Damatta Lucas

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