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O Jogo do Poder: Mendonça no ataque, Kássio na defesa – e a sombra de Bolsonaro sobre o Supremo

Coincidência, estratégia ou apenas a lógica do poder? A atuação de dois ministros indicados por Jair Bolsonaro coloca uma pergunta incômoda sobre a mesa: quem ganha politicamente quando processos contra Lula e sua família avançam enquanto o campo bolsonarista tenta sobreviver à própria crise?

Há histórias que não precisam de uma conspiração comprovada para produzir uma pergunta política.

Basta que os movimentos aconteçam no mesmo tabuleiro, envolvendo os mesmos personagens, em momentos eleitoralmente decisivos.

É exatamente por isso que a atuação dos ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques merece ser acompanhada com lupa.

Não porque seja possível afirmar que exista uma operação coordenada para beneficiar Jair ou Flávio Bolsonaro — isso exigiria provas que, até aqui, não estão demonstradas. Mas porque os dois ministros foram indicados por Jair Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal e, em episódios recentes, suas decisões passaram a produzir efeitos politicamente relevantes para os dois lados da disputa presidencial.

E, em política, efeito também é poder.

A velha frase de Bolsonaro volta ao centro do tabuleiro

Quando o Senado aprovou André Mendonça para o STF, em dezembro de 2021, Jair Bolsonaro celebrou abertamente a indicação.

Naquele momento, o então presidente chegou a dizer que não controlaria os votos do Supremo, mas que Mendonça e Kassio Nunes Marques representariam, “em tese”, 20% daquilo que seu grupo gostaria que fosse decidido na Corte.

A frase, mais de quatro anos depois, ganhou uma dimensão que ultrapassa a retórica.

Mendonça e Nunes Marques não são subordinados de Bolsonaro — ministros do Supremo não recebem ordens de quem os indicou. Mas são, objetivamente, os dois ministros que chegaram à Corte por indicação direta do ex-presidente.

E agora os dois ocupam posições particularmente sensíveis diante da sucessão presidencial de 2026.

De um lado, Mendonça autorizou novas investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, inclusive uma apuração sobre suspeitas de tráfico de influência e corrupção. A investigação foi solicitada pela Polícia Federal e a defesa do filho de Lula contestou a iniciativa.

De outro, Nunes Marques, na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, tomou decisões com impacto direto sobre a campanha de Flávio Bolsonaro.

É aí que a política começa a enxergar uma coincidência difícil de ignorar.

Mendonça e a máquina das manchetes

A investigação sobre Lulinha tem uma característica particularmente explosiva: o sobrenome Lula.

Qualquer investigação envolvendo o filho do presidente inevitavelmente alcança uma dimensão política muito superior ao processo judicial em si.

E a história brasileira já demonstrou como acusações envolvendo familiares de presidentes podem transformar-se em armas eleitorais.

O caso Gamecorp, por exemplo, foi explorado politicamente durante anos contra Fábio Luís Lula da Silva, inclusive em momentos decisivos das campanhas presidenciais.

Agora, quase duas décadas depois, o nome de Lulinha volta ao centro do noticiário policial e político.

A diferença é que o ambiente eleitoral de 2026 é ainda mais tóxico.

Lula disputa a Presidência.

Flávio Bolsonaro tenta consolidar-se como principal herdeiro eleitoral do pai.

Jair Bolsonaro está juridicamente cercado.

E, nesse ambiente, qualquer investigação contra Lula ou sua família possui enorme valor político para a oposição.

É por isso que não basta perguntar se a investigação é juridicamente legítima.

É preciso perguntar também:

qual é o efeito político produzido por ela?

E o caso Flávio?

Aqui está uma das contradições mais intrigantes do atual jogo de poder.

Enquanto Lulinha voltou às manchetes por investigações autorizadas por Mendonça, Flávio Bolsonaro também está envolvido em uma história que merece investigação e esclarecimento.

É o caso Dark Horse.

Mensagens e áudios divulgados em maio mostraram Flávio Bolsonaro negociando com Daniel Vorcaro recursos para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro. O valor originalmente discutido chegou a US$ 24 milhões, embora o próprio Flávio tenha afirmado posteriormente que o fundo ligado ao banqueiro havia investido cerca de US$ 12 milhões.

Documentos divulgados posteriormente apontaram pagamentos de pelo menos US$ 10,6 milhões, equivalentes a cerca de R$ 61 milhões à época, para o projeto.

Flávio negou irregularidades e afirmou que se tratava de investimento privado destinado à produção cinematográfica.

O assunto, entretanto, chegou à Polícia Federal. E Mendonça autorizou a abertura de investigação para apurar justamente os repasses destinados ao filme.

Portanto, seria incorreto dizer que Mendonça simplesmente “blindou” Flávio.

A realidade é mais complexa.

O mesmo ministro que autorizou investigação envolvendo o filho de Lula também autorizou investigação envolvendo recursos destinados a um projeto ligado à família Bolsonaro.

E é justamente essa complexidade que torna o jogo ainda mais interessante.

Mas é Kassio quem aparece no outro lado do tabuleiro

Se Mendonça está associado, no debate político, às decisões que colocaram Lulinha novamente sob os holofotes, Kassio Nunes Marques aparece em outra frente: a eleitoral.

Em junho, como presidente do TSE, Nunes Marques suspendeu liminarmente a divulgação de uma pesquisa AtlasIntel que mostrava queda de Flávio Bolsonaro em um cenário de segundo turno contra Lula.

A decisão atendeu a pedido do PL e apontou possíveis problemas na formulação do questionário e eventual indução dos entrevistados. A decisão, contudo, era liminar e deveria ser submetida ao colegiado.

A situação provocou reação de especialistas e preocupação entre ministros do próprio TSE sobre os precedentes que poderiam ser criados.

Esse episódio é politicamente relevante porque ocorreu justamente depois que o caso Dark Horse havia provocado desgaste na imagem eleitoral de Flávio Bolsonaro.

Não significa que Nunes Marques tenha agido para proteger o candidato.

Significa algo diferente — e talvez mais importante:

uma decisão judicial teve o efeito concreto de interromper a circulação de uma pesquisa desfavorável ao candidato do PL.

Em uma eleição presidencial, isso não é um detalhe.

O segundo movimento: Bolsonaro

Há ainda outro processo que coloca Nunes Marques em posição estratégica.

O ministro é relator da revisão criminal apresentada pela defesa de Jair Bolsonaro contra a condenação de 27 anos e três meses relacionada à trama golpista.

Em maio, Nunes Marques encaminhou o pedido à Procuradoria-Geral da República e ampliou o prazo para manifestação diante da complexidade do processo.

É importante não fabricar uma conclusão que o processo ainda não permite.

A relatoria não significa absolvição.

Uma eventual decisão favorável também não é automática.

Mas a simples existência dessa revisão coloca Nunes Marques diante de um dos processos politicamente mais explosivos do país.

E isso significa que o ministro indicado por Bolsonaro poderá desempenhar papel relevante em uma questão que pode afetar diretamente o futuro político do ex-presidente.

O que Bolsonaro ganhou com suas duas indicações?

Talvez nada.

Talvez muito.

A resposta dependerá dos votos concretos, não das expectativas políticas.

Mas há uma constatação que ninguém pode apagar: Bolsonaro colocou dois ministros de sua confiança política na Suprema Corte e, anos depois, os dois estão em posições relevantes em processos que envolvem seu próprio grupo político e seus adversários.

Isso é institucionalmente permitido.

Mas politicamente é gigantesco.

E é justamente aí que mora a pergunta que Brasília evita fazer em voz alta:

até onde termina a coincidência e começa a estratégia?

Não há, até agora, prova pública de que Mendonça e Nunes Marques atuem em conjunto para beneficiar Bolsonaro.

Não há prova de que exista uma coordenação entre os ministros e a campanha de Flávio.

Não há prova de que investigações contra Lulinha tenham sido abertas para produzir dividendos eleitorais.

E afirmar essas coisas como fatos seria ultrapassar a fronteira entre jornalismo e acusação.

Mas também seria ingenuidade fingir que as decisões judiciais acontecem fora do ambiente político.

O Supremo virou parte do campo de batalha eleitoral

O problema brasileiro é maior que Mendonça, maior que Kassio e maior que Bolsonaro.

É a crescente judicialização da disputa política.

Quando pesquisas eleitorais vão parar nos tribunais, quando campanhas disputam vídeos nas redes sociais perante ministros, quando familiares de candidatos entram no radar de investigações policiais e quando decisões judiciais podem alterar o ambiente de uma eleição, o Supremo e o TSE deixam de ser percebidos apenas como árbitros.

Passam a ser percebidos — corretamente ou não — como peças do próprio jogo.

E essa percepção é perigosa.

Porque a democracia depende de uma coisa que é tão importante quanto a própria decisão judicial:

a confiança de que o julgador não está jogando para nenhum dos lados.

A pergunta que fica

A questão, portanto, não é saber se André Mendonça é bolsonarista ou se Kassio Nunes Marques é bolsonarista.

A questão é muito mais sofisticada.

É saber se, diante da eleição de 2026, os dois ministros conseguirão exercer suas funções de modo que suas decisões sejam percebidas como resultado exclusivo de critérios jurídicos — e não como capítulos de uma disputa de poder iniciada nas urnas e transferida para os tribunais.

Mendonça autorizou investigações contra Lulinha, mas também autorizou a investigação sobre os recursos destinados a Dark Horse.

Kassio suspendeu uma pesquisa que prejudicava Flávio, mas sua decisão ainda enfrentou o escrutínio do colegiado eleitoral.

Nunes Marques também conduz a revisão criminal apresentada por Jair Bolsonaro, mas isso não significa que Bolsonaro tenha qualquer resultado favorável garantido.

Os fatos, portanto, ainda estão em movimento.

E talvez seja justamente por isso que o assunto seja tão grave.

Porque, em uma eleição presidencial extremamente polarizada, não basta que a Justiça seja imparcial. Ela precisa parecer imparcial.

E quando dois ministros indicados pelo mesmo presidente que hoje é o principal símbolo de uma das forças políticas em disputa passam a ocupar posições decisivas no tabuleiro eleitoral, a sociedade tem o direito de perguntar.

Sem condenar previamente.

Sem absolver previamente.

Sem transformar suspeita em prova.

Mas perguntando.

Porque no jogo do poder, às vezes, a pergunta mais incômoda é também a mais necessária:

quem está realmente ganhando quando o jogo deixa as urnas e passa a ser decidido nos corredores do Supremo?

Por Damatta Lucas

Imagem: Montagem

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