Pesquisa BTG/Nexus acende sinal de alerta para o presidente, mostra avanço acelerado do candidato do PL e revela que a eleição poderá ser decidida pelo eleitor que ainda não escolheu um lado
A eleição presidencial de 2026 acaba de ganhar um novo componente de tensão. A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (3) mostra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda na liderança do primeiro turno, com 41% das intenções de voto, mas vê Flávio Bolsonaro (PL) avançar quatro pontos em apenas uma semana, chegando a 37%.
A diferença, que era de nove pontos na rodada anterior, caiu para apenas quatro.
Mais impressionante ainda é o segundo turno: Lula aparece com 46%, contra 45% de Flávio Bolsonaro. Tecnicamente, uma situação de empate diante da margem de erro de dois pontos percentuais.
O resultado não autoriza falar, ainda, em virada. Mas autoriza uma conclusão política muito mais importante: a eleição que parecia caminhar para uma vantagem relativamente confortável de Lula começa a assumir características de uma disputa aberta e extremamente competitiva.
E é justamente aí que está o sinal amarelo para o presidente.
A velocidade do crescimento de Flávio é o dado que mais chama atenção
Não é apenas o tamanho da diferença que merece atenção. É a direção do movimento.
Flávio Bolsonaro passou de 33% para 37% no primeiro turno, enquanto Lula recuou de 42% para 41%.
Em outras palavras, Flávio avançou quatro pontos e Lula perdeu um.
Se esse comportamento se repetir nas próximas pesquisas, o cenário eleitoral poderá sofrer uma mudança importante. O candidato do PL deixaria de ser apenas o representante consolidado do eleitorado bolsonarista para se tornar um competidor efetivo pela liderança nacional.
Mas existe uma cautela indispensável: uma única pesquisa não estabelece tendência definitiva.
O que será decisivo é observar as próximas rodadas. Se Flávio permanecer nos 37%, avançar novamente ou começar a ultrapassar Lula, estaremos diante de uma mudança estrutural. Se recuar, o salto desta rodada poderá ter sido circunstancial.
Por isso, mais importante do que comemorar ou lamentar o resultado é acompanhar a curva.
O segundo turno mostra uma eleição praticamente empatada
É no segundo turno que o cenário se torna politicamente mais delicado para Lula.
O presidente aparece com 46%, contra 45% de Flávio.
Uma diferença de apenas um ponto.
Isso significa que, embora Lula continue liderando numericamente, a vantagem deixa de representar uma margem de segurança.
A disputa passa a depender de pequenos deslocamentos de eleitores, principalmente daqueles que não estão ideologicamente comprometidos com nenhum dos dois polos.
E é nesse segmento que pode estar a chave da eleição.
O eleitor não polarizado será o grande campo de batalha
A pesquisa estima que aproximadamente 20% do eleitorado brasileiro não se identifica nem com o lulismo nem com o bolsonarismo.
É justamente esse eleitor que pode decidir uma eleição tão apertada.
Nesse segmento, Lula aparece com 37% no primeiro turno, contra 30% de Flávio.
A vantagem é de sete pontos.
É um dado particularmente importante porque demonstra que o presidente ainda possui maior capacidade de penetração fora dos dois campos políticos mais radicalizados.
Flávio, por sua vez, tem uma base extremamente fiel. O desafio é transformar essa força em uma coalizão eleitoral mais ampla.
A questão para o candidato do PL não é simplesmente manter o eleitor bolsonarista.
Isso ele aparentemente já consegue.
A grande pergunta é:
Flávio consegue conquistar quem não é bolsonarista?
É aí que estará provavelmente o divisor de águas da eleição.
A fidelidade dos dois lados reduz o espaço para uma grande migração
Outro dado importante da pesquisa está na fidelidade eleitoral.
Entre os eleitores que já escolheram candidato no primeiro turno, 81% dos apoiadores de Lula dizem que a decisão está tomada. Entre os eleitores de Flávio, são 80%.
Isso revela dois blocos bastante consolidados.
Portanto, a eleição dificilmente será decidida por uma grande migração de lulistas para Flávio ou de bolsonaristas para Lula.
O jogo está em outro lugar.
Está nos indecisos, nos moderados e nos eleitores que ainda não escolheram definitivamente um lado.
Na pesquisa espontânea, Lula aparece com 36%, Flávio com 28%, enquanto 21% não sabem ou não responderam.
Há, portanto, um espaço eleitoral expressivo ainda em aberto.
A eleição também está dividida por idade
O recorte etário revela uma eleição quase partida em quatro.
Entre os jovens de 16 a 24 anos, Lula abre uma vantagem impressionante no segundo turno: 56% contra 31% de Flávio.
São 25 pontos de diferença.
Mas o cenário se inverte entre os adultos.
Flávio lidera entre os eleitores de 25 a 40 anos por 51% a 39% e entre aqueles de 41 a 59 anos por 48% a 43%.
Lula volta a liderar entre os eleitores de 60 anos ou mais, com 53% contra 38%.
A campanha de 2026, portanto, terá de ser extremamente segmentada.
Flávio precisa ampliar sua presença entre jovens e idosos.
Lula precisa recuperar espaço entre os homens e entre as faixas adultas nas quais o candidato do PL aparece à frente.
Mulheres e homens parecem viver eleições diferentes
O recorte por gênero é ainda mais expressivo.
Entre as mulheres, Lula vence por 54% a 37%.
Entre os homens, Flávio lidera por 53% a 37%.
É praticamente uma eleição espelhada.
Lula tem uma vantagem de 17 pontos entre as mulheres, enquanto Flávio abre 16 pontos entre os homens.
Isso cria dois desafios estratégicos distintos.
Para Lula, será necessário preservar sua forte vantagem feminina e, simultaneamente, reduzir a distância entre os homens.
Para Flávio, o caminho é o inverso: manter sua extraordinária vantagem masculina sem deixar que a rejeição entre as mulheres impeça a construção de uma maioria nacional.
O BTG e a leitura sobre o mercado
A pesquisa também chama atenção por ser contratada pelo BTG Pactual, uma das instituições mais importantes do mercado financeiro brasileiro.
Esse dado merece ser observado politicamente, mas exige cuidado.
Não é possível afirmar, apenas pelo fato de o levantamento ser contratado pelo BTG, que exista uma intenção de favorecer Flávio Bolsonaro ou de produzir uma pesquisa “pró-bolsonarismo”.
A própria série histórica da BTG/Nexus mostra Lula liderando Flávio com margens maiores em levantamentos anteriores.
O que a pesquisa permite dizer é outra coisa: o mercado está recebendo uma fotografia na qual a eleição aparece muito mais competitiva do que parecia algumas semanas atrás.
E isso pode ter consequências políticas.
Uma disputa percebida como apertada tende a aumentar a movimentação de partidos de centro, intensificar negociações e fazer com que aliados potenciais dos dois lados passem a avaliar com maior cuidado quem efetivamente possui capacidade de vencer.
O Centrão também estará olhando para esses números
Esse talvez seja um dos efeitos indiretos mais importantes.
Partidos do chamado Centrão não costumam trabalhar apenas com afinidades ideológicas. Trabalham também com cálculo de poder, espaços institucionais e possibilidade de vitória.
Quanto mais competitiva ficar a eleição presidencial, maior será o valor político dos partidos capazes de transitar entre diferentes campos.
Se Lula mantiver uma liderança confortável, o movimento natural será de aproximação com o governo.
Se Flávio continuar crescendo, os mesmos partidos poderão começar a enxergar a candidatura do PL como uma alternativa eleitoralmente viável.
Por isso, a próxima sequência de pesquisas poderá ter impacto muito além das intenções de voto.
Ela poderá começar a definir o mapa das alianças de 2026.
Para Lula, o maior perigo não é Flávio ter 37%. É a curva continuar subindo
Esse é o ponto central.
Lula ainda está na frente.
Ainda possui uma vantagem no primeiro turno.
Ainda lidera entre mulheres, jovens, idosos e eleitores não polarizados.
Mas a margem diminuiu rapidamente.
E eleição não é apenas fotografia.
Eleição também é movimento.
Se Flávio continuar avançando, o ambiente político mudará.
O discurso de “favoritismo de Lula” perderá força.
O Centrão ficará mais cauteloso.
Setores econômicos passarão a trabalhar com maior possibilidade de alternância.
E a oposição ganhará musculatura.
Para Flávio, a oportunidade também é um enorme desafio
Chegar a 45% no segundo turno é politicamente relevante.
Mas transformar 45% em maioria é outra história.
Flávio precisa demonstrar que consegue sair do eleitorado já convencido e conquistar o chamado eleitor do meio.
Precisa crescer sem aumentar a rejeição.
Precisa manter a fidelidade bolsonarista sem transformar a campanha em uma guerra exclusivamente contra Lula.
E precisa convencer o eleitor de que sua candidatura representa mais do que a continuidade do confronto político iniciado pelo pai.
Essa será talvez a maior prova de sua candidatura.
Ainda não é virada. É alerta.
A pesquisa BTG/Nexus não permite decretar uma virada eleitoral.
Mas seria igualmente equivocado tratá-la como um número qualquer.
Flávio Bolsonaro encostou em Lula.
O primeiro turno ficou muito mais apertado.
O segundo turno está tecnicamente empatado.
Os dois candidatos possuem eleitorados altamente fiéis.
E existe um contingente expressivo de eleitores ainda disponível para ser conquistado.
A eleição, portanto, começa a entrar em uma nova fase.
Para Lula, o momento exige reação.
Para Flávio, exige expansão.
Para o Centrão, exige cálculo.
E para o eleitor brasileiro, significa que a sucessão presidencial de 2026 pode estar muito mais aberta do que sugeriam as primeiras projeções.
A palavra ainda não é virada.
A palavra é alerta.
E, em uma eleição presidencial, quatro pontos de vantagem podem significar liderança.
Mas uma curva que continua descendo pode significar algo muito maior.
Por Damatta Lucas
Imagem Fabi Cascavel




