Lula tira o “paz e amor” do palanque e parte da a gerra de 2026

Aos 80 anos, presidente oficializa candidatura ao quarto mandato, promete enfrentar o Congresso, endurece o discurso sobre soberania e tenta reconquistar o eleitor jovem
A campanha de 2026 começou com um recado que ninguém dentro ou fora do PT deveria ignorar: Lula não quer disputar a eleição como o velho “Lulinha paz e amor”. Quer disputar como o “Lulinha porreta”.
E essa mudança de tom não é meramente retórica.
Na convenção que oficializou sua candidatura à reeleição, o presidente apresentou uma espécie de manifesto para o quarto mandato. Falou de educação, juventude, idosos, indústria de defesa, terras raras, transição energética, Congresso, emendas parlamentares, violência contra a mulher e soberania nacional.
Mas, por trás de todas essas bandeiras, existe uma mensagem política muito mais simples:
Lula quer entrar na eleição como protagonista absoluto e mostrar que ainda tem força para comandar o país.
Aos 80 anos, o presidente sabe que sua idade será inevitavelmente colocada em discussão. Por isso, tratou de responder antes que seus adversários transformassem o tema em uma arma eleitoral.
“Eu tô inteiraço”, afirmou.
É o Lula tentando convencer o eleitor de que o calendário pode registrar 80 anos, mas a disposição política continua intacta.
Não é o mais o Lula da conciliação?
O ponto mais explosivo da convenção talvez tenha sido justamente a declaração de que ele não pretende repetir o comportamento político de outros momentos.
“Não quero mais ser o Lulinha paz e amor. Quero ser o Lulinha porreta.”
A frase pode parecer apenas uma tirada de palanque, mas carrega uma estratégia.
Lula sabe que governar o próximo mandato, caso seja reeleito, poderá exigir uma relação diferente com um Congresso que ganhou enorme poder sobre o orçamento e sobre a definição das políticas públicas.
E o presidente já avisou que pretende comprar essa briga.
“Minha quarta presidência é pra mudar muita coisa. Vai ter briga com emenda parlamentar.”
Está desenhado, portanto, um dos grandes campos de batalha de 2026: quem terá mais poder para definir os rumos do país — o Planalto ou um Congresso cada vez mais influente?
Lula quer recuperar o futuro
Outro alvo evidente do discurso foi o eleitor jovem.
O presidente tentou falar diretamente com uma geração que não necessariamente carrega na memória os governos Lula de 2003 e 2007 e que, portanto, não pode ser conquistada apenas pela nostalgia.
É preciso apresentar futuro.
Por isso, a educação apareceu no centro do discurso.
Lula afirmou que quer “resolver definitivamente” o papel da educação no país e associou o investimento nos jovens à prevenção da violência.
“É mais barato investir em educação do que manter alguém na prisão.”
A frase funciona como slogan e como estratégia eleitoral.
O presidente quer apresentar a educação como investimento, segurança pública como consequência e juventude como prioridade.
Mas existe um desafio gigantesco: convencer uma geração que não está obrigada a votar no passado de que o futuro ainda passa pelo lulismo.
Soberania contra a dependência
Lula também colocou na mesa uma agenda que pode ganhar enorme peso durante a campanha: a soberania econômica.Terras raras e minerais críticos, indústria de defesa e transição energética foram apresentados como áreas estratégicas para o Brasil.
O discurso foi duro.
“Nem chinês, nem americano, nem francês vão meter o dedo nas nossas terras raras.”
É uma frase calculada para ultrapassar a bolha tradicional do PT.
Lula tenta ocupar o terreno do nacionalismo econômico e apresentar o Brasil como uma potência que não pode simplesmente exportar suas riquezas e importar tecnologia.
A aposta é clara: o país precisa deixar de ser apenas fornecedor de matéria-prima e passar a controlar conhecimento, tecnologia e valor agregado.
O Congresso foi avisado
Se Lula vencer, uma coisa parece evidente pelo discurso da convenção: a relação com o Congresso poderá ser muito diferente.
O presidente criticou o sistema de emendas parlamentares e também disparou contra o fundo partidário.
Não é pouca coisa.
As emendas se transformaram em uma das principais ferramentas de poder do Legislativo. Mexer nesse modelo significa mexer em interesses concretos de deputados e senadores.
Por isso, quando Lula diz que haverá “briga”, não está apenas fazendo discurso para militantes.
Está enviando um aviso.
Se voltar ao Planalto, pretende tentar recuperar espaço político que considera excessivamente transferido ao Congresso.
A pergunta é se terá força para fazê-lo.
Lulinha: a pedra do caminho
E há ainda um problema que o discurso presidencial não consegue simplesmente apagar: as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
O material da convenção registra que o ministro André Mendonça autorizou a abertura de dois inquéritos para apurar suspeitas de tráfico de influência e corrupção. A defesa de Lulinha nega irregularidades e afirma que não há fatos que justifiquem as investigações.
Lula tentou antecipar o debate.
Disse que, se o filho for acusado, deverá responder como qualquer outra pessoa e que não haverá privilégio.
Politicamente, é a tentativa de cortar pela raiz uma narrativa que a oposição certamente pretende explorar.
Mas eleição presidencial é também uma disputa por símbolos.
E o nome “Lulinha” certamente será usado pelos adversários sempre que houver oportunidade.
O presidente sabe disso.
Por isso, ao afirmar que o filho não ficará escondido, tenta transformar uma potencial vulnerabilidade em demonstração de confiança e respeito às instituições.
A convenção também expôs contradições
Até dentro do próprio evento houve um episódio revelador.
Lula reconheceu que foi um erro não haver uma mulher escalada para falar no principal momento da convenção e chamou Janja para discursar.
O episódio mostra como a campanha terá de administrar não apenas adversários externos, mas também a própria imagem política.
Lula pretende falar de mulheres, juventude, idosos e novas gerações.
Para isso, precisará demonstrar que sua campanha não está apenas repetindo fórmulas antigas.
Alckimin e uma aliança que já não causa surpresa
Geraldo Alckmin continuará como vice.
A antiga rivalidade presidencial entre os dois praticamente virou peça de museu da política brasileira.
Hoje, Alckmin representa justamente uma das pontes de Lula com setores econômicos e políticos que dificilmente estariam naturalmente dentro do campo petista.
A chapa, portanto, repete a fórmula de 2022.
Mas o cenário de 2026 é outro.
O principal adversário citado no material é Flávio Bolsonaro, enquanto Lula entra na disputa amparado por uma rede de partidos aliados que inclui PSB, PDT, PCdoB, PV, PSOL e Rede.
A eleição que Lula não pode perder . É aqui que está o verdadeiro significado da convenção.
Lula não está simplesmente tentando conquistar mais quatro anos.
Está tentando consolidar um legado.
Se vencer, chegará ao quarto mandato e poderá somar 16 anos no comando do país, segundo o material apresentado.
Isso transforma 2026 em uma eleição histórica para o próprio Lula.
Uma derrota encerraria sua trajetória presidencial com uma marca inevitável: depois de voltar ao poder em 2022, não conseguiu convencer o país a lhe entregar um último mandato.
Uma vitória, ao contrário, permitiria que ele escolhesse como quer ser lembrado.
É justamente por isso que o discurso foi tão carregado de energia.
Lula pediu desculpas pelos erros, reivindicou os resultados do governo, prometeu mais educação, falou em soberania, defendeu a indústria nacional, atacou o modelo das emendas e avisou que não pretende terminar a carreira política como um presidente simplesmente conciliador.
Ele quer terminar como Lula. Mas quer terminar por cima.
O tabuleiro está montado
A convenção petista colocou oficialmente Lula na pista.
Agora começa a parte realmente difícil.
Será preciso transformar discurso em voto.
Transformar realizações em esperança.
Transformar promessas em confiança.
E, sobretudo, convencer um eleitorado que mudou.
Lula terá de enfrentar uma oposição que tentará explorar seus desgastes, uma direita organizada em torno do bolsonarismo, um Congresso poderoso, problemas econômicos e sociais que continuam pressionando o governo e uma geração mais jovem que não necessariamente possui a mesma relação afetiva com o petista que marcou eleições anteriores.
Por isso, a frase escolhida por Lula talvez seja mais importante do que parece.
“Não quero mais ser o Lulinha paz e amor. Quero ser o Lulinha porreta.”
É o anúncio de uma campanha mais agressiva.
É também uma aposta de alto risco.
Porque, em 2026, não bastará a Lula lembrar o eleitor do que fez.
Ele terá de convencê-lo de que ainda é o homem capaz de decidir o que o Brasil fará daqui para frente.
E essa será, provavelmente, a batalha mais difícil de sua longa carreira política.
Por Damatta Lucas
Imagem: Pública



