O Cerco à riqueza do Brasil: Trump, China e a disputa pelo tesouro que está debaixo de terras brasileiras

O Brasil entrou no centro da guerra tecnológica entre Estados Unidos e China. A questão agora não é apenas quem quer nossos minerais críticos, mas quanto dessa riqueza permanecerá no país e se o Brasil terá coragem de transformar suas reservas em soberania industrial
O Brasil descobriu que existe uma riqueza capaz de mudar sua posição no tabuleiro internacional — e ela não está nos campos de petróleo, nas plantações de soja ou nas grandes jazidas de minério de ferro.
Está debaixo da terra.
Terras raras, nióbio, lítio, grafite, níquel e outros minerais considerados críticos passaram a ocupar um lugar central na economia mundial porque estão na base de tecnologias que definem o poder industrial, energético, militar e tecnológico do século XXI.
Carros elétricos, baterias, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, sistemas de defesa, motores, satélites e outras tecnologias avançadas dependem desses minerais. A própria Agência Nacional de Mineração reconhece que eles são fundamentais para cadeias industriais de alto valor agregado.
E é justamente aí que começa o problema — e também a oportunidade brasileira.
O mundo descobriu o subsolo brasileiro.
E agora todos querem participar dele.
Trump olha para o Brasil porque a China chegou primeiro
A ofensiva americana não pode ser compreendida apenas como uma busca por novas fontes de minério.
Ela faz parte de uma disputa muito maior.
Os Estados Unidos querem reduzir sua dependência da China em setores considerados estratégicos. E a China construiu, ao longo de décadas, uma vantagem que vai muito além da posse das jazidas.
Pequim aprendeu a dominar a cadeia.
Extrair é apenas o primeiro passo.
Depois vêm separação, refino, processamento químico, produção de materiais e fabricação dos componentes tecnológicos.
É justamente nessas etapas que a vantagem chinesa se torna extraordinária. Segundo a Agência Nacional de Mineração, a China responde por cerca de 70% da capacidade mundial de refino de minerais críticos e concentra aproximadamente 85% a 90% do refino global de terras raras e cerca de 90% da produção de ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro.
É isso que Washington quer enfrentar.
E, nessa disputa, o Brasil aparece como um dos territórios mais importantes do planeta.
O tesouro brasileiro que ainda não virou poder
O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais de terras raras e uma diversidade mineral extraordinária.
Mas há uma diferença entre possuir a riqueza e controlar economicamente essa riqueza.
O próprio Ministério de Minas e Energia apresenta os minerais críticos brasileiros como uma oportunidade para atrair investimentos e ampliar a participação do país nas cadeias globais associadas à transição energética e à tecnologia.
O problema está na transformação dessa vantagem geológica em vantagem industrial.
O Brasil pode retirar o minério do solo.
Mas precisa dominar também aquilo que acontece depois.
Separar.
Refinar.
Processar.
Transformar.
Produzir.
E, finalmente, desenvolver tecnologia.
Caso contrário, o país corre o risco de repetir uma velha história: vender matéria-prima barata e comprar de volta, muito mais caro, o produto sofisticado produzido a partir dela.
Essa é a discussão que está por trás do atual interesse internacional.
Não é apenas uma disputa por toneladas de minério.
É uma disputa pelo valor agregado.
E o governo brasileiro?
Brasília percebeu que a corrida internacional pode representar uma oportunidade histórica — mas também uma armadilha.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que o Brasil não abrirá mão da soberania sobre seus minerais críticos e estratégicos. Segundo ele, essa riqueza deve servir à industrialização, à inovação tecnológica e à criação de empregos qualificados.
A posição é importante porque estabelece uma diferença fundamental.
O Brasil não está dizendo que não quer investimento estrangeiro.
Está dizendo que não quer simplesmente entregar a matéria-prima.
E essa diferença pode valer bilhões.
O presidente Lula reforçou a mesma ideia ao afirmar que o país não pretende repetir, com terras raras e minerais críticos, o modelo histórico de exportação de minério sem transformação industrial.
Em julho, durante reunião com ministros e especialistas, Lula foi ainda mais direto. Disse que o Brasil vai desenvolver tecnologia própria e afirmou que Trump poderia “começar a se preocupar” com o avanço brasileiro nesse setor.
Dias depois, o presidente voltou ao tema e declarou que o Brasil não será simplesmente exportador de terras raras e minerais críticos e que a exploração precisa estar associada à pesquisa nacional.
A mensagem política está dada.
O Brasil quer negociar. Mas quer negociar com valor.
A China está do outro lado da mesa
É impossível entender a movimentação americana sem colocar a China no centro da equação.
Pequim não precisa necessariamente controlar todas as minas do planeta.
O poder chinês está, sobretudo, na capacidade de transformar minerais em produtos industriais.
É exatamente isso que assusta Washington.
E é exatamente isso que pode colocar o Brasil numa posição privilegiada.
Porque o país possui recursos que interessam aos dois gigantes.
Estados Unidos querem diversificar suas fontes de abastecimento.
China quer preservar sua posição nas cadeias globais e ampliar suas relações com produtores estratégicos.
Europa, Japão, Índia e outros mercados também buscam alternativas para reduzir riscos de concentração.
A Agência Nacional de Mineração reconhece que esse movimento internacional está relacionado à segurança energética, tecnológica e à necessidade de diversificação das cadeias de suprimento.
Ou seja:
o Brasil não precisa escolher entre Washington e Pequim.
Pode conversar com os dois.
E é justamente aí que está sua força de negociação.
O caso Serra Verde mostra que o jogo já começou
Não se trata mais de uma discussão abstrata.
O movimento já chegou às empresas.
Em maio, o Cade abriu procedimento para analisar operações envolvendo a brasileira Serra Verde Pesquisa e Mineração e a americana USA Rare Earth. A operação está inserida em uma estratégia que envolve mineração, processamento, separação, metalização e fabricação de ímãs.
O caso é emblemático.
Porque mostra que a disputa pelo subsolo brasileiro já está sendo acompanhada por uma corrida empresarial pela cadeia produtiva.
E isso muda completamente a dimensão do debate.
A pergunta deixou de ser:
“Quem quer comprar o minério brasileiro?”
A pergunta agora é:
“Quem vai controlar a tecnologia, o processamento e o mercado construído a partir desse minério?”
Essa é a pergunta que Brasília precisa responder.
O BID também enxergou o tamanho da oportunidade
O interesse não está restrito às grandes potências.
O BID mapeou entre 15 e 20 projetos brasileiros de minerais críticos e terras raras com potencial para receber financiamento, dentro de um universo de aproximadamente 50 iniciativas analisadas.
O movimento revela que o Brasil começa a sair da condição de promessa geológica para entrar na condição de destino de capital.
Mas existe um obstáculo.
Dinheiro sozinho não resolve.
Os projetos precisam de tecnologia, infraestrutura, garantias, financiamento de longo prazo, pesquisa e segurança jurídica.
É justamente nesse ponto que instituições brasileiras, como BNDES e os órgãos federais ligados ao setor mineral, ganham importância.
O desafio é criar mecanismos capazes de transformar a riqueza enterrada em indústria instalada.
Não é uma questão de fechar o Brasil ao capital estrangeiro
Seria um erro transformar essa discussão em uma batalha simplista entre capital nacional e estrangeiro.
O Brasil precisa de investimentos.
Precisa de tecnologia.
Precisa de pesquisa.
Precisa de parceiros internacionais.
Precisa de mercado.
Mas também precisa estabelecer condições.
Se uma empresa estrangeira quiser explorar uma riqueza estratégica brasileira, a pergunta não deveria ser apenas quanto ela vai investir.
Deveria ser:
Quanto será processado no Brasil?
Quanto será investido em pesquisa?
Quantos empregos qualificados serão criados?
Que tecnologia será transferida?
Que parte da cadeia produtiva ficará no país?
Quanto valor permanecerá na economia brasileira?
É esse o verdadeiro debate.
O novo pré-sal pode não ser petróleo
Durante décadas, o pré-sal simbolizou a possibilidade de o Brasil transformar uma riqueza natural em instrumento de desenvolvimento.
Agora surge uma nova fronteira.
As terras raras e os minerais críticos podem representar algo semelhante — só que em uma economia completamente diferente.
O petróleo movimentou o século XX.
Os minerais críticos podem ajudar a definir o século XXI.
Mas existe uma diferença decisiva.
No caso das terras raras, não basta ter a jazida.
É preciso dominar a tecnologia.
E quem dominar a tecnologia ficará com a maior parcela da riqueza.
É por isso que a declaração de Lula sobre o Brasil desenvolver sua própria capacidade tecnológica não deve ser tratada apenas como provocação política a Trump.
Ela contém uma estratégia.
O país precisa transformar sua vantagem geológica em vantagem industrial.
Trump pode querer. A China pode querer. Mas quem decide é o Brasil
A Constituição brasileira estabelece que os recursos minerais pertencem à União e que sua exploração depende das regras e autorizações do Estado brasileiro. A própria ANM reforça que investimentos estrangeiros estão submetidos à legislação nacional.
Portanto, o Brasil não está diante de uma escolha entre entregar ou não entregar suas riquezas.
Está diante de uma escolha muito mais sofisticada.
Como negociar?
Se Washington quer segurança de fornecimento, que ofereça tecnologia, investimentos e mercado.
Se Pequim quer ampliar sua presença, que apresente também conhecimento, processamento e industrialização.
Se a Europa quer reduzir sua dependência da China, que participe da construção de cadeias produtivas em território brasileiro.
E se o mundo inteiro precisa dos minerais brasileiros, que o Brasil use essa necessidade como instrumento de negociação.
O mundo está olhando para o subsolo. O Brasil precisa olhar para o futuro
A corrida começou.
Trump olha para o Brasil.
A China olha para o Brasil.
A Europa olha para o Brasil.
Os investidores olham para o Brasil.
O mercado tecnológico olha para o Brasil.
E agora chegou a hora de o próprio Brasil olhar para sua riqueza com outros olhos.
Não como mais uma commodity.
Não como mais uma oportunidade de exportar toneladas de minério.
Não como mais um ciclo de exploração seguido de dependência tecnológica.
Mas como uma oportunidade histórica de construir indústria.
O verdadeiro valor das terras raras não está apenas naquilo que existe debaixo da terra.
Está no conhecimento necessário para transformar essa riqueza.
Está nos laboratórios.
Nas universidades.
Nas empresas.
Nas fábricas.
Nos centros de pesquisa.
Na capacidade de produzir ímãs, componentes, baterias, materiais avançados e tecnologias de alto valor.
Está, sobretudo, na capacidade de o Brasil negociar com o mundo sem entregar a ele o direito de decidir o destino da riqueza brasileira.
Trump pode querer nossas terras raras.
A China pode querer nossas terras raras.
O mundo inteiro pode querer nossas terras raras.
Mas a pergunta que realmente importa é outra:
O Brasil vai vender a riqueza ou vai tranformá-la em poder?
Essa talvez seja uma das decisões econômicas e geopolíticas mais importantes das próximas décadas.
Porque a riqueza está enterrada.
Mas a soberania sobre ela terá de ser construída aqui em cima.
E essa decisão é exclusivamente brasileira.
Análise crítica de Damatta Lucas
Imagem: Montagem



