O Brasil não é quintal de ninguém

Entre a soberania nacional e a submissão a Washington, a eleição de 2026 poderá colocar diante dos brasileiros uma escolha que vai muito além de esquerda ou direita: que papel o Brasil quer ocupar no mundo?
Há momentos em que uma eleição deixa de ser apenas uma disputa entre candidatos e passa a representar uma discussão sobre o próprio destino de uma nação.
O Brasil chega a 2026 diante de uma questão que não pode ser escondida atrás da polarização política: queremos um país soberano, capaz de negociar de igual para igual com as grandes potências, ou um Brasil que procure em Washington a autorização para decidir seus próprios caminhos?
É essa pergunta que emerge com força diante da aproximação política entre setores do bolsonarismo e o governo de Donald Trump.
O debate ganhou uma dimensão ainda maior depois que Eduardo Bolsonaro passou a atuar nos Estados Unidos e celebrou publicamente uma mensagem do governo norte-americano que reafirma a histórica Doutrina Monroe e sustenta que a predominância dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental não deveria voltar a ser questionada.
Não se trata de uma frase qualquer.
A Doutrina Monroe pertence à história da política externa norte-americana e, em diferentes períodos, foi utilizada para justificar a ideia de que os Estados Unidos teriam uma posição privilegiada de influência sobre as Américas. Quando esse conceito volta ao centro do discurso de Washington, o Brasil precisa prestar atenção.
E muito.
Porque o Brasil não é uma república subordinada aos Estados Unidos.
É uma das maiores nações do planeta, possui território continental, população superior a 200 milhões de habitantes, enormes reservas minerais, biodiversidade estratégica, petróleo, água, produção agrícola, matriz energética diversificada e uma posição geopolítica que lhe permite dialogar com diferentes blocos de poder.
O Brasil não precisa escolher entre Washington e Pequim.
O Brasil precisa escolher o Brasil.
É justamente aí que a postura de setores do bolsonarismo merece ser examinada com atenção.
Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, esteve com Donald Trump na Casa Branca e tornou pública sua disposição de aprofundar a aproximação com os Estados Unidos. Também defendeu que países e empresas estrangeiras participem da exploração das terras raras brasileiras, embora tenha associado essa abertura à necessidade de trazer tecnologia e agregar valor dentro do próprio território nacional.
O problema, portanto, não é simplesmente negociar com os Estados Unidos.
Nenhum país sério pode se dar ao luxo de fechar portas para uma das maiores economias do planeta.
O problema começa quando negociação é confundida com alinhamento automático; parceria, com dependência; e amizade diplomática, com submissão estratégica.
Essa diferença é fundamental.
O Brasil tem riquezas demais para pensar pequeno
As terras raras são apenas um exemplo.
Esses minerais são estratégicos para tecnologias de alta complexidade, incluindo eletrônica, veículos elétricos, energia eólica, robótica, inteligência artificial e setores relacionados à defesa. A disputa mundial por esses recursos cresceu justamente porque a China possui posição dominante na mineração e, sobretudo, no processamento.
Nesse cenário, o Brasil não deveria enxergar sua riqueza mineral como simples mercadoria a ser retirada do território.
Deveria enxergá-la como instrumento de desenvolvimento.
Minério bruto vale dinheiro.
Tecnologia, conhecimento, indústria e cadeia produtiva valem muito mais.
É essa discussão que deveria estar no centro da campanha presidencial.
Como transformar terras raras em indústria brasileira?
Como produzir tecnologia no Brasil?
Como formar pesquisadores?
Como criar empregos qualificados?
Como garantir que uma riqueza estratégica não transforme o país apenas em fornecedor de matéria-prima para as grandes potências?
Essas são perguntas de Estado.
Não são questões de esquerda ou direita.
São questões de soberania.
A perigosa ideia de que o Brasil precisa de um padrinho
O que causa preocupação é a construção de uma cultura política segundo a qual o Brasil somente poderá recuperar sua força se tiver o apoio de uma potência estrangeira.
Esse é o verdadeiro espírito que precisa ser combatido.
Não porque os Estados Unidos sejam inimigos.
Não são.
Assim como a China também não precisa ser tratada como inimiga.
O Brasil deve manter relações comerciais, diplomáticas e estratégicas com ambos — e também com Europa, Índia, África, América Latina e demais parceiros.
A independência de um país não significa isolamento.
Significa capacidade de conversar com todos sem se ajoelhar diante de ninguém.
É isso que uma política externa madura deveria representar.
E é justamente por isso que a postura de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e a aproximação de Flávio Bolsonaro com Donald Trump precisam ser submetidas ao escrutínio público.
Não basta perguntar se Trump gosta de Flávio.
A pergunta que interessa ao brasileiro é outra:
O que o Brasil ganharia — e o que poderia perder — com uma relação de alinhamento tão estreito com Washington?
Uma eleição sob o olhar de Washington
A questão ficou ainda mais delicada porque a relação entre Brasil e Estados Unidos atravessa um período de forte tensão comercial e diplomática.
O Brasil levou medidas tarifárias norte-americanas à Organização Mundial do Comércio, enquanto Washington e Brasília protagonizam uma sequência de conflitos envolvendo comércio, diplomacia e política.
Nesse ambiente, Flávio Bolsonaro chegou a enviar uma carta ao governo Trump pedindo que determinadas tarifas contra produtos brasileiros não fossem aplicadas ou fossem adiadas. A própria existência dessa interlocução demonstra o peso que a relação com Washington passou a ocupar na estratégia política do candidato.
E isso precisa ser debatido sem paixão.
Porque, se um candidato pretende governar o Brasil, o primeiro compromisso deve ser com o eleitor brasileiro.
Não com Donald Trump.
Não com qualquer presidente estrangeiro.
Não com qualquer potência econômica.
Com o Brasil.
O verdadeiro patriotismo não usa bandeira estrangeira como muleta
Há uma diferença enorme entre admirar a sociedade americana, consumir produtos americanos, estudar nos Estados Unidos ou defender uma relação amistosa entre os dois países — tudo isso é perfeitamente legítimo.
Outra coisa é transformar o modelo político de uma potência estrangeira em referência absoluta para definir os interesses nacionais.
O patriotismo brasileiro não precisa ser antiamericano.
Mas também não pode ser americanófilo a ponto de aceitar que Washington determine quais devem ser os nossos aliados, quais riquezas devemos explorar, quais políticas devemos adotar ou quem deve governar o país.
O Brasil não pode trocar a condição de protagonista pela de coadjuvante.
Essa é a discussão que deveria estar sendo travada nas ruas, nas universidades, no Congresso, nos meios de comunicação e, principalmente, dentro das famílias brasileiras.
Porque quando se fala em petróleo, terras raras, Amazônia, água, energia, biodiversidade, alimentos e território, não estamos falando apenas de economia.
Estamos falando do patrimônio de gerações.
O voto de 2026 também será sobre soberania
A eleição presidencial de 2026 não deveria ser reduzida a uma batalha entre Bolsonaro e Lula, direita e esquerda, conservadores e progressistas.
Existe uma questão maior.
Que Brasil queremos entregar às próximas gerações?
Um Brasil que negocia com o mundo inteiro, mas decide por conta própria?
Ou um Brasil que busca proteção e aprovação de uma potência estrangeira para realizar seu projeto político?
Essa é uma escolha que pertence exclusivamente aos brasileiros.
Nenhum presidente americano votará nas urnas brasileiras.
Nenhum governo estrangeiro pagará a conta das nossas escolhas.
Nenhuma potência assumirá as consequências de decisões tomadas em Brasília.
Quem pagará — ou colherá os frutos — será o povo brasileiro.
Por isso, a grande questão de 2026 talvez não seja saber quem será o mais próximo de Trump.
A pergunta realmente importante é muito mais simples:
quem estará disposto a colocar os interesses do Brasil acima dos interesses de qualquer governo estrangeiro?
Porque ser aliado dos Estados Unidos pode ser uma escolha diplomática.
Ser parceiro da China pode ser uma necessidade econômica.
Negociar com a Europa pode ser estratégico.
Mas ser brasileiro, antes de tudo, significa compreender que a soberania nacional não pode ter dono, procuração ou padrinho.
O Brasil não precisa de tutores.
Precisa de projeto.
Não precisa de submissão.
Precisa de soberania.
E, diante das grandes disputas geopolíticas que já se desenham para o século XXI, talvez essa seja a maior escolha que o eleitor terá diante da urna:
um Brasil que se curva diante das potências ou um Brasil que aprende, finalmente, a sentar-se à mesa como potência.



