Futuro da Síria depende do fim de sanções dos EUA, diz enviado da ONU
Paulo Sérgio visitou Damasco e viu situação de mais liberdade política

Em visita a Damasco no final de março, o presidente da Comissão de Inquérito das Nações Unidas sobre a Síria, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, encontrou uma cidade marcada por seis décadas de ausência de liberdades políticas sob o regime do partido Baath, liderado pelo ex-presidente Bashar al-Assad. Segundo ele, a Síria enfrenta uma situação socioeconômica desesperadora, agravada pelas sanções impostas pelas potências ocidentais, especialmente pelos Estados Unidos.
De acordo com Pinheiro, a principal barreira para a recuperação econômica do país são as sanções econômicas norte-americanas, que impedem a Síria de integrar o sistema Swift, rede internacional de transações bancárias. “As pessoas querem abrir negócios, atrair empresas e fazer investimentos, mas não conseguem por causa dessas sanções. O levantamento dessas restrições é o mínimo necessário para iniciar uma reconstrução”, afirmou.
Apesar de a União Europeia ter flexibilizado algumas medidas após a queda de Assad, as restrições dos EUA ao sistema financeiro continuam travando qualquer perspectiva de progresso econômico. Washington sinalizou que poderia amenizar as sanções se o governo sírio enfrentasse grupos jihadistas, mas, até agora, não houve avanços significativos nesse sentido.
Pinheiro também comentou os recentes massacres de civis alauítas, apontando que não houve conivência do governo, mas sim uma subestimação da gravidade dos conflitos. Segundo ele, a dissolução das Forças Armadas do regime anterior levou à formação de milícias e grupos armados descontentes, alguns dos quais retaliaram comunidades específicas. O resultado foi um cenário de terror que levou cerca de 20 mil alauítas a buscar refúgio no Líbano.
O governo sírio criou um comitê para investigar os massacres. Segundo o presidente da Comissão da ONU, a equipe é formada por juízes e advogados que não pertencem ao atual governo, e demonstraram compromisso com uma apuração independente. No entanto, Pinheiro destaca que só será possível avaliar a seriedade do comitê após a divulgação do relatório final e da resposta governamental às recomendações.
Organizações civis e de direitos humanos que atuam na Síria relatam que agora operam com mais liberdade, sem vigilância constante por parte do Estado. Apesar da instabilidade, essas entidades reconhecem que não há “plano B”: o sucesso da atual administração é visto como essencial para evitar um colapso ainda maior.
O governo promete realizar eleições dentro de cinco anos, mas o cenário atual não favorece a realização de um processo democrático. Com mais de 13 milhões de sírios deslocados, entre refugiados e pessoas que perderam suas casas, além de registros civis destruídos, a organização de eleições livres e justas parece, por ora, inviável.
A liderança do novo governo, no entanto, levanta preocupações. O atual presidente, Ahmed al-Sharaa (também conhecido como al-Jolani), tem origem jihadista e passou por organizações como Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Para Pinheiro, a comunidade internacional deve permanecer atenta e vigilante. “O fim de uma ditadura não significa automaticamente o início de uma democracia. Estamos diante de um processo de transição que será, como muitos outros, aos trancos e barrancos”, concluiu.
Edição JP – Com informações Agência Brasil – Imagem: Ocha/Ali Haj Suleiman