
O Brasil melhorou. Mas ainda está muito longe de poder dizer que resolveu o problema da educação.
O Ideb 2025 trouxe uma notícia positiva: todas as etapas da educação básica registraram crescimento. É um avanço que precisa ser reconhecido, sobretudo depois dos enormes prejuízos provocados pela pandemia. Mas transformar esse resultado em discurso triunfalista seria um erro. O País avançou nas notas, mas continua devendo uma educação capaz de garantir aprendizagem efetiva para milhões de crianças e adolescentes.
E é justamente aí que está o ponto central.
O Ideb não é apenas uma fotografia da educação brasileira. Ele funciona como um diagnóstico. E o diagnóstico mostra que, embora o Brasil esteja melhorando, ainda existem feridas profundas no sistema educacional.
Nos anos iniciais do ensino fundamental, onde estão as crianças que começam a construir sua trajetória escolar, o resultado foi o mais positivo. A nota chegou a 6,3, contra 6,0 em 2023. Foi também a única etapa a superar a meta estabelecida para 2021.
Isso deveria provocar mais do que comemoração. Deveria provocar uma pergunta: o que estamos fazendo de certo com nossas crianças e por que não conseguimos levar esse mesmo desempenho para as etapas seguintes?
A resposta talvez esteja justamente na falta de continuidade.
O Brasil historicamente cria programas, anuncia reformas, troca governos e muda prioridades. O que falta, muitas vezes, é uma política educacional permanente, capaz de atravessar administrações e sobreviver às disputas políticas.
Não basta colocar a criança na escola
Durante décadas, o grande desafio brasileiro foi garantir acesso. E houve avanços expressivos. Hoje, uma parcela muito maior da população está dentro das escolas.
Mas existe uma diferença brutal entre estar matriculado e aprender.
Uma criança pode frequentar a escola durante anos e ainda assim chegar ao final do ensino fundamental com dificuldades de leitura, escrita e matemática.
É esse problema que precisa estar no centro da próxima agenda educacional brasileira.
Não basta ampliar vagas. Não basta construir escolas. Não basta distribuir equipamentos ou lançar programas com nomes atraentes.
É necessário identificar precocemente quem está tendo dificuldade, oferecer reforço, acompanhar individualmente o aluno, aproximar a família da escola, valorizar professores e criar projetos pedagógicos que realmente produzam aprendizagem.
A criança não pode esperar.
Se uma deficiência de aprendizagem aparece aos sete ou oito anos e ninguém consegue corrigi-la, ela provavelmente acompanhará o estudante durante toda a vida escolar. Quanto mais tarde o problema for enfrentado, maior será o custo — para o aluno, para a família e para o próprio Estado.
O abismo aparece nos anos finais
Nos anos finais do ensino fundamental, o Ideb subiu de 5,0 para 5,3. É uma melhora. Mas ainda insuficiente.
A etapa ficou abaixo da meta de 5,5 estabelecida para 2021.
É justamente nesse período que muitos estudantes começam a perder o vínculo com a escola. A criança se transforma em adolescente, as dificuldades acumuladas aparecem com mais força e a escola passa a disputar a atenção do jovem com trabalho, redes sociais, problemas familiares e uma realidade econômica que muitas vezes empurra o adolescente para fora da sala de aula.
É aqui que o Brasil precisa agir antes que seja tarde.
Não adianta esperar o adolescente abandonar a escola para então tentar recuperá-lo.
É preciso construir mecanismos de acompanhamento muito antes disso.
Ensino médio: o velho problema brasileiro
No ensino médio, o quadro continua ainda mais preocupante.
O Ideb avançou de 4,3 para 4,5, mas permanece distante da meta de 5,2.
Há investimentos, reformas, ensino integral, mudanças curriculares e programas de incentivo à permanência. O Pé-de-Meia, por exemplo, procura combater a evasão oferecendo apoio financeiro aos estudantes.
Tudo isso pode ajudar.
Mas nenhuma política de permanência será suficiente se o jovem não enxergar sentido naquilo que está aprendendo.
A escola precisa preparar para a vida, para o trabalho, para a universidade e para a cidadania.
O jovem precisa perceber que permanecer na escola não é apenas uma obrigação burocrática. É uma oportunidade concreta de construir o próprio futuro.
O Brasil precisa parar de recomeçar
Talvez esse seja o maior problema da educação brasileira: cada governo parece querer inaugurar uma nova solução.
Programas mudam de nome. Reformas são substituídas por outras reformas. Metas envelhecem. E, enquanto isso, o estudante continua esperando.
O Ideb 2025 expõe exatamente essa contradição.
O País avançou, mas as metas de 2021 continuam sendo utilizadas como referência porque não foram estabelecidos novos objetivos depois daquele ciclo.
Isso é sintomático.
Como exigir resultados mais ambiciosos se o próprio País não estabelece metas novas e compatíveis com os desafios atuais?
É necessário construir uma agenda nacional de educação que não seja propriedade de governo, partido ou ideologia.
Educação não pode começar de novo a cada eleição.
O exemplo está dentro do próprio Brasil
Há Estados que apresentam resultados melhores e que desenvolveram políticas capazes de produzir avanços. O importante é compreender que boas experiências existem em diferentes regiões e sob governos de diferentes orientações políticas.
Isso desmonta uma velha desculpa brasileira.
Não é necessário esperar uma fórmula mágica.
É necessário estudar o que funciona, avaliar resultados, corrigir erros e reproduzir experiências bem-sucedidas.
Se uma rede pública consegue melhorar a aprendizagem, reduzir a evasão e elevar o desempenho dos estudantes, o País deveria perguntar imediatamente: por que isso não pode ser feito em outras redes?
O verdadeiro Ideb está dentro da sala de aula
O Brasil deve comemorar o crescimento registrado em 2025. Mas deve comemorar com os pés no chão.
Porque o verdadeiro indicador da educação brasileira não está apenas no número divulgado pelo MEC.
Está na criança que consegue finalmente ler um texto e compreender o que leu.
Está no aluno que deixa de ter medo da matemática.
Está no adolescente que não abandona a escola.
Está no jovem que termina o ensino médio sabendo que possui condições de disputar uma vaga na universidade ou entrar no mercado de trabalho.
É isso que precisa ser medido.
O Brasil já conseguiu colocar mais crianças e jovens na escola. Agora precisa garantir que eles aprendam.
E esse talvez seja o maior projeto educacional que o País ainda não conseguiu realizar.
O Ideb mostra que houve avanço. Ótimo.
Mas avanço não pode ser confundido com vitória.
O Brasil melhorou. Agora precisa ter coragem para exigir muito mais de si mesmo.
Por Damatta Lucas
Imagem: Arquivo



