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Do lobby ao “Dark Horse”: Flávio Bolsonaro e Lulinha entram no centro da disputa eleitoral

Dois filhos de candidatos à Presidência da República passaram a ocupar espaços diferentes, mas igualmente incômodos, no debate eleitoral de 2026. De um lado, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é alvo de investigações da Polícia Federal que apuram suspeitas de tráfico de influência e possíveis relações com lobistas e empresários interessados em negócios com órgãos do governo. De outro, Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, enfrenta questionamentos sobre a relação financeira com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e os recursos destinados à produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro.

A disputa entre os dois campos políticos ganhou uma nova dimensão depois que Marco Aurélio Carvalho, advogado de Lulinha e coordenador do grupo Prerrogativas, lançou um desafio público a Flávio Bolsonaro: que o candidato apresente seus sigilos bancário e fiscal e esclareça, de forma documental, a movimentação financeira relacionada ao filme.

A provocação ocorre justamente quando os dois episódios são utilizados pelas campanhas como munição política. O caso Lulinha é explorado por adversários do presidente Lula como exemplo de possível influência de familiares do poder sobre negócios privados. Já o caso Dark Horse passou a ser utilizado pelos aliados de Lula para questionar a transparência de Flávio Bolsonaro e sua relação com Daniel Vorcaro.

Lulinha: investigação mira suspeitas de tráfico de influência

Fábio Luís Lula da Silva é investigado pela Polícia Federal em diferentes inquéritos. Uma das linhas de apuração procura esclarecer se ele teria exercido influência em negociações envolvendo o Ministério da Saúde e interesses empresariais ligados à comercialização de medicamentos à base de cannabis.

Outra frente investiga possíveis relações econômicas e contatos com empresários e lobistas. Entre os nomes que aparecem nas apurações está o de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontado como personagem central nas investigações sobre fraudes contra aposentados e pensionistas.

A PF também examina informações relacionadas à lobista Roberta Luchsinger e possíveis contatos dela com integrantes do governo. As investigações, contudo, estão em andamento e não significam que Lulinha tenha sido condenado ou que as suspeitas tenham sido comprovadas judicialmente. A defesa nega irregularidades e afirma que ele é vítima de uma exploração política dos inquéritos.

Em fevereiro, o ministro André Mendonça autorizou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Fábio Luís a pedido da Polícia Federal. Posteriormente, o próprio ministro determinou que a PF investigasse o vazamento de informações sigilosas relacionadas ao caso, preservando jornalistas e suas fontes.

É justamente nesse ponto que o advogado Marco Aurélio Carvalho tenta estabelecer uma diferença política entre os dois episódios.

Segundo ele, Lulinha teria colocado seus dados à disposição das autoridades e, por isso, Flávio deveria adotar procedimento semelhante para esclarecer as movimentações relacionadas ao financiamento de “Dark Horse”.

Flávio Bolsonaro e os milhões do “Dark Horse”

Enquanto o caso Lulinha avança nos tribunais, Flávio Bolsonaro enfrenta uma crise de transparência envolvendo a produção do filme “Dark Horse”, obra que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro.

O episódio ganhou força após a divulgação de mensagens e áudios relacionados ao banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo as informações divulgadas, Flávio teria solicitado recursos ao então banqueiro para viabilizar a produção do filme.

O valor inicialmente associado à operação chegou a R$ 61 milhões, equivalentes a cerca de US$ 10 milhões, enquanto outros registros apontam que o pedido feito por Flávio teria alcançado aproximadamente R$ 134 milhões. Parte dos recursos teria passado pelo fundo americano Havengate, ligado ao advogado Paulo Calixto, que também possui vínculos profissionais com Eduardo Bolsonaro.

A questão central, portanto, não é apenas quanto dinheiro foi movimentado. É quem colocou o dinheiro, por meio de quais contratos, para qual finalidade e qual foi efetivamente o destino dos recursos.

E é exatamente essa prestação de contas que permanece no centro da controvérsia.

A promessa dos 30 dias

Em 19 de maio, depois que o caso veio a público, Flávio Bolsonaro afirmou que apresentaria o contrato relacionado à operação e uma prestação de contas da produtora responsável pelo filme.

O compromisso anunciado era de que os documentos seriam apresentados em até 30 dias.

O prazo passou.

Em agosto, porém, o senador passou a sustentar que a prestação de contas já havia sido realizada pela própria produtora e chegou a mencionar reportagem jornalística como fonte das informações.

O problema é que os documentos apresentados até agora não respondem integralmente às principais perguntas sobre a operação financeira. Segundo reportagens recentes, a produtora Go Up Entertainment entregou às autoridades um laudo pericial elaborado a partir de documentos internos, apontando custo de aproximadamente R$ 75 milhões para o filme e afirmando que os recursos seriam privados.

Mas o próprio material pericial possui limitações: o trabalho foi elaborado com base nos documentos disponibilizados pela empresa e não apresenta, por si só, todos os contratos, notas fiscais e informações necessárias para esclarecer completamente a origem dos recursos.

Assim, a discussão deixou de ser simplesmente sobre a existência ou não de um investimento privado. Passou a envolver a cadeia financeira que levou o dinheiro até a produção do filme.

O elo Vorcaro-Havengate

Esse é um dos pontos mais sensíveis do episódio.

As informações divulgadas indicam que Daniel Vorcaro teria realizado transferências que chegaram ao fundo Havengate, utilizado no financiamento de “Dark Horse”. O fundo, por sua vez, aparece relacionado a pessoas próximas ao núcleo político dos Bolsonaro.

Uma perícia apresentada pela defesa da produtora afirma que o Havengate teria investido no filme e que o aporte total registrado pelo fundo alcançaria mais de US$ 13 milhões. As mensagens atribuídas a Vorcaro, porém, apontam para repasses de pelo menos US$ 10,6 milhões solicitados por Flávio.

É justamente essa sobreposição de valores, personagens, contratos e empresas que mantém o caso sob investigação.

A Polícia Civil de São Paulo apura, entre outras hipóteses, se recursos públicos desviados de contratos firmados pela Prefeitura de São Paulo poderiam ter chegado à estrutura responsável pelo filme. A Polícia Federal também recebeu elementos da investigação estadual e analisa possíveis conexões com recursos de emendas parlamentares. As autoridades ainda não concluíram que houve desvio de dinheiro público para a produção.

Dois filhos, duas crises políticas

O embate entre os casos Lulinha e Flávio Bolsonaro ganhou, inevitavelmente, uma dimensão eleitoral.

Os aliados de Lula procuram apresentar o episódio Dark Horse como uma demonstração de que Flávio precisa explicar sua relação com Vorcaro e os recursos destinados ao filme. Já os adversários do governo utilizam as investigações contra Lulinha para questionar a influência de familiares do presidente sobre empresários interessados em contratos públicos.

A comparação, entretanto, exige cautela.

No caso de Lulinha, existem investigações formais da Polícia Federal sobre suspeitas de tráfico de influência, mas não há condenação criminal contra ele pelos fatos investigados. A defesa nega as acusações.

No caso de Flávio Bolsonaro, existem investigações sobre a origem e a circulação de recursos relacionados ao filme, além de questionamentos públicos sobre a relação com Daniel Vorcaro e sobre a documentação apresentada pela produtora. Também não há, até o momento, uma conclusão judicial definitiva de que Flávio tenha cometido crime.

O que existe, em ambos os episódios, é uma pergunta política inevitável: qual é o limite entre relações familiares, influência política, negócios privados e interesses que circulam ao redor do poder?

A cobrança por transparência

É nesse ambiente que o desafio lançado por Marco Aurélio Carvalho ganha força eleitoral.

O advogado de Lulinha sustenta que, se o filho de Lula teve seus sigilos submetidos à investigação, Flávio Bolsonaro deveria apresentar espontaneamente seus próprios dados para esclarecer a movimentação financeira relacionada ao filme.

A cobrança coloca os dois episódios frente a frente.

De um lado, um filho de presidente investigado por possíveis relações com lobistas e empresários e acusado politicamente de utilizar sua proximidade com o poder para abrir portas em negócios privados.

De outro, um candidato à Presidência obrigado a explicar uma operação financeira milionária envolvendo um banqueiro investigado, um fundo sediado nos Estados Unidos, uma produtora cinematográfica e uma obra dedicada à trajetória de seu próprio pai.

A diferença fundamental, neste momento, é que nenhum dos dois casos está encerrado.

E justamente por isso a eleição presidencial começa a incorporar uma pergunta que ultrapassa a disputa entre Lula e Bolsonaro: quem estará disposto a abrir os documentos, esclarecer os fluxos financeiros e permitir que as instituições concluam as investigações sem transformar suspeitas em condenações antecipadas?

No caso de Lulinha, a Justiça autorizou investigações e quebra de sigilos, enquanto a defesa sustenta que não houve irregularidade. No caso Dark Horse, a Polícia Civil e a Polícia Federal continuam examinando documentos e movimentações financeiras, enquanto Flávio Bolsonaro afirma que o filme foi financiado com recursos privados e nega irregularidades.

Na campanha eleitoral, entretanto, a disputa já está definida: cada lado cobra do adversário a transparência que considera indispensável — enquanto tenta explicar as sombras que cercam o próprio campo político.

Por Damatta Lucas

Imgem: Reprodução

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