
“Estudei, trabalhei, fui mãe e enfrentei os medos de quem estava construindo o próprio caminho.” A frase resume uma das principais linhas do discurso de Anamelka Albuquerque, delegada da Polícia Civil e candidata a deputada federal pelo MDB do Piauí nas eleições de 2026.
Ao transformar a própria trajetória em elemento de sua campanha, Anamelka procura estabelecer uma ligação entre a experiência pessoal e a atuação profissional acumulada no atendimento a mulheres vítimas de violência. Para ela, a presença de mais mulheres nos espaços de decisão política precisa significar também a construção de políticas públicas capazes de proteger outras mulheres.
“Se a minha história de coragem ajudar outra mulher, toda essa luta terá valido ainda mais”, afirma a candidata.
O tema da violência contra a mulher ocupa lugar central nessa plataforma. A experiência de Anamelka à frente de estruturas de atendimento especializado é apresentada por ela como uma espécie de observatório cotidiano de uma realidade que, muitas vezes, permanece escondida dentro de casa.
E os números ajudam a dimensionar o problema.
A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência, ouviu 21.641 mulheres com 16 anos ou mais em 2025. O levantamento mostrou que 27% das brasileiras declararam já ter sofrido violência doméstica ou familiar provocada por um homem ao longo da vida. Nos 12 meses anteriores à pesquisa, 4% declararam ter sofrido esse tipo de violência — o equivalente a cerca de 3,7 milhões de brasileiras.
O estudo também revela uma dimensão particularmente preocupante: em 71% dos casos de violência ocorridos no último ano havia outras pessoas presentes, sendo que grande parte dessas testemunhas eram crianças, frequentemente filhos das próprias vítimas.
Para Anamelka, esses números mostram que a violência doméstica não pode ser tratada como um problema restrito ao ambiente privado. Ela alcança filhos, familiares, vizinhos, escolas, serviços de saúde, segurança pública e toda a estrutura de proteção social.
“Nenhuma violência é normal”
Uma das mensagens que a candidata pretende levar para a campanha é justamente a necessidade de romper com a naturalização das agressões.
Na avaliação de Anamelka, muitas mulheres permanecem durante anos em relacionamentos violentos acreditando que o agressor irá mudar, que a família será reconstruída ou que aquela agressão foi apenas um episódio isolado. A experiência profissional, segundo ela, mostrou que esse processo pode evoluir para situações cada vez mais graves.
Por isso, sua defesa parte de uma premissa direta: nenhuma forma de violência deve ser considerada normal ou aceitável.
A violência, lembra a candidata, não se resume à agressão física. Ela pode envolver humilhação, ameaça, perseguição, violência psicológica, violência patrimonial, violência sexual, controle da vida da mulher e, cada vez mais, agressões praticadas por meios digitais.
O próprio DataSenado ampliou sua pesquisa de 2025 para incluir situações de violência digital. O levantamento identificou que 10% das mulheres entrevistadas haviam sofrido algum tipo de violência digital no último ano.
Do combate à violência à prevenção do feminicídio
Outro ponto destacado por Anamelka é a necessidade de compreender o caminho que pode levar uma agressão aparentemente “menor” a uma violência extrema.
Em sua fala, ela chama atenção para situações em que o agressor procura atingir a mulher justamente em aspectos relacionados à sua identidade, autoestima e feminilidade. O exemplo citado por ela, de um homem que corta violentamente o cabelo de uma mulher, é interpretado como manifestação simbólica de controle, humilhação e ódio.
A discussão se conecta diretamente ao feminicídio, definido juridicamente como o assassinato de uma mulher em contexto de violência doméstica e familiar ou por menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
Para a candidata, combater o feminicídio exige agir antes do crime extremo: identificar sinais de violência, garantir que a vítima seja ouvida, fortalecer as medidas protetivas, ampliar o acesso aos serviços especializados e impedir que o agressor continue avançando sobre a vítima.
Uma agenda para a Câmara Federal
Caso eleita, Anamelka afirma que pretende levar essa experiência para o Congresso Nacional e transformar a defesa das mulheres em uma agenda permanente de atuação parlamentar.
Entre os eixos que podem compor essa agenda, a partir das declarações apresentadas pela candidata, estão o fortalecimento da rede de atendimento às mulheres vítimas de violência, a melhoria da integração entre segurança pública e serviços de assistência, a ampliação das políticas de prevenção e o aperfeiçoamento dos mecanismos de proteção às vítimas.
A candidata também defende que a mulher não seja obrigada a percorrer sozinha uma verdadeira via-crúcis institucional depois de denunciar uma agressão.
Na prática, isso significa buscar maior articulação entre Delegacias da Mulher, Polícia Militar, Ministério Público, Poder Judiciário, Defensoria Pública, assistência social, serviços de saúde, casas de acolhimento e demais órgãos da rede de proteção.
O próprio DataSenado mostra que ainda existe uma lacuna importante nesse campo. Embora 93% das brasileiras conheçam as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, apenas 38% dizem conhecer a Casa da Mulher Brasileira, enquanto 68% afirmam ter pouco conhecimento sobre medidas protetivas.
Para uma eventual atuação parlamentar, esses dados abrem espaço para iniciativas voltadas à informação, prevenção e divulgação dos mecanismos de proteção existentes.
Mais informação para salvar vidas
Anamelka também insiste em uma ideia simples, mas decisiva: informação pode salvar vidas.
Saber reconhecer os sinais de uma relação abusiva, conhecer os canais de atendimento, compreender o funcionamento das medidas protetivas e saber onde buscar apoio pode fazer diferença entre a permanência em um ciclo de violência e a possibilidade de rompê-lo.
Essa preocupação ganha ainda mais importância porque muitas vítimas não se reconhecem imediatamente como vítimas. A pesquisa do DataSenado mostra que uma parcela das mulheres relata situações de insulto, humilhação, ameaça e outras formas de agressão sem necessariamente classificá-las, de início, como violência.
É justamente nesse intervalo entre a primeira agressão e a percepção de que existe uma situação de violência que políticas de prevenção podem desempenhar papel decisivo.
A mulher por trás da delegada
A narrativa de campanha de Anamelka também procura humanizar a figura da profissional de segurança pública.
Ela se apresenta como mulher, mãe, esposa e profissional que enfrenta, como tantas outras brasileiras, uma rotina marcada por responsabilidades, trabalho e desafios.
“Hoje minha vida é corrida, como a de tantas mulheres”, afirma.
Ao falar da maternidade, ela destaca a importância de acompanhar os estudos, os horários e os desafios dos filhos. Ao mesmo tempo, fala sobre o direito de cuidar de si e expressar sua feminilidade.
Mas faz uma ressalva que se tornou uma das frases centrais de sua mensagem: aparência não define competência.
Na visão apresentada pela candidata, a mulher pode cuidar da aparência, exercer sua feminilidade, ser mãe, esposa, profissional e ocupar espaços de liderança sem que qualquer dessas dimensões diminua sua capacidade de trabalho, decisão e enfrentamento de desafios.
Da experiência individual para uma política pública
É nesse ponto que sua candidatura procura estabelecer a ponte entre história pessoal, experiência profissional e projeto político.
Anamelka sustenta que a participação feminina na política precisa produzir resultados concretos para outras mulheres. Não apenas pela ampliação da representatividade, mas pela capacidade de transformar experiências vividas no cotidiano em propostas legislativas, políticas públicas e mecanismos de proteção.
Sua plataforma, nesse aspecto, pode ser compreendida a partir de três grandes frentes: prevenir a violência, proteger quem denuncia e fortalecer a estrutura pública que recebe essa mulher.
A prevenção envolve educação, informação e identificação precoce dos sinais de abuso. A proteção passa por medidas protetivas efetivas, acolhimento e segurança para a vítima. E o fortalecimento da rede exige integração entre os diferentes órgãos que atuam antes, durante e depois da denúncia.
A experiência relatada pela candidata nas Delegacias da Mulher é utilizada justamente como argumento para defender que a legislação e as políticas públicas sejam construídas a partir da realidade de quem está na ponta.
“Toda a sociedade precisa estar envolvida”
Para Anamelka, entretanto, o enfrentamento da violência não pode ser responsabilidade exclusiva da polícia ou do sistema de Justiça.
A sociedade também precisa participar.
Isso significa não silenciar diante de sinais de agressão, não tratar ameaças como simples conflitos de casal e não responsabilizar a vítima pelo comportamento do agressor.
A candidata defende que o combate à violência contra a mulher seja discutido de maneira permanente nos espaços políticos e sociais, inclusive no Congresso Nacional.
Sua mensagem de campanha, portanto, parte de uma experiência individual — a mulher que estudou, trabalhou, tornou-se mãe e enfrentou seus próprios medos — mas procura alcançar uma questão coletiva: como construir uma sociedade na qual uma mulher não precise esperar a violência chegar ao extremo para encontrar proteção?
A resposta que Anamelka pretende levar para a disputa eleitoral passa pelo fortalecimento da rede de atendimento, pela prevenção, pela informação e pela criação de mecanismos capazes de interromper o ciclo de violência.
Porque, para ela, denunciar não pode ser o último recurso de uma mulher desesperada. Precisa ser a porta de entrada para uma rede pública preparada para protegê-la.
E, no centro dessa proposta, permanece uma frase que sintetiza sua plataforma: nenhuma violência contra a mulher deve ser normalizada, silenciada ou naturalizada.
Fonte: Damatta Lucas
Imagem: Rede Social



