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Teresina entra no jogo: começa oficialmente a campanha que vai redesenhar o mapa político do Piauí

De Petrônio Portella a Rafael Fonteles, passando por Alberto Silva, Wall Ferraz e Firmino Filho, a capital piauiense sempre foi o principal palco das grandes disputas eleitorais do Estado

A partir deste domingo, 16 de agosto, a eleição deixa definitivamente de ser apenas uma sucessão de articulações partidárias, reuniões reservadas e pré-candidaturas cuidadosamente construídas nos bastidores. A campanha eleitoral de 2026 começa oficialmente, e com ela Teresina volta a ocupar o lugar que historicamente lhe pertence no tabuleiro político do Piauí: o de principal centro de decisão eleitoral do Estado.

O Tribunal Superior Eleitoral autoriza, a partir desta data, a propaganda eleitoral para presidente da República, governador, senador, deputado federal e deputado estadual. É o momento em que candidatos passam a apresentar publicamente seus projetos, divulgar seus números de urna e disputar, de maneira aberta, a preferência do eleitor.

Mas, em Teresina, o começo oficial da campanha representa algo maior.

A capital não é apenas o maior colégio eleitoral do Piauí. É também o lugar onde, há décadas, se medem forças políticas, se formam lideranças, se consolidam grupos e, muitas vezes, se anuncia antecipadamente o resultado das grandes disputas estaduais.

Uma cidade acostumada a decidir eleições

A história política de Teresina é inseparável da própria história política do Piauí.

Desde a transferência da capital de Oeiras para Teresina, em 1852, a cidade passou a concentrar progressivamente as instituições, os grupos econômicos, os movimentos sociais e as forças políticas que ajudaram a construir o Estado. A própria Assembleia Legislativa, que funcionou inicialmente em Oeiras, transferiu-se para Teresina com a mudança da capital.

Ao longo do século XX, nomes como Petrônio Portella e Alberto Silva ajudaram a projetar a política piauiense muito além das fronteiras do Estado.

Petrônio Portella é um dos exemplos mais expressivos. Foi prefeito de Teresina, governador, senador, presidente do Senado e ministro da Justiça. Sua trajetória o transformou em uma das figuras mais importantes da política piauiense e nacional, especialmente por sua participação na construção do processo de abertura política brasileira.

Alberto Silva, por sua vez, tornou-se outro personagem de enorme influência na política do Piauí, ocupando o governo estadual em dois períodos e deixando uma marca associada à infraestrutura e à modernização do Estado. A própria cronologia oficial da Assembleia registra suas duas passagens pelo governo, entre 1971 e 1975 e posteriormente entre 1987 e 1991.

Vieram depois outras gerações de políticos que fizeram de Teresina um laboratório permanente de disputas eleitorais: Hugo Napoleão, Wall Ferraz, Freitas Neto, Firmino Filho, Sílvio Mendes, Wellington Dias, além de uma nova geração que chegou ao poder estadual e nacional.

Foi nesse ambiente que a política da capital passou a ter uma característica própria: quem consegue construir uma presença consistente em Teresina normalmente chega às disputas estaduais com uma vantagem política considerável.

Da política dos palanques à política das redes

A campanha de 2026, entretanto, será diferente daquela vivida pelas antigas gerações.

Os grandes comícios, as caminhadas, os carros de som e os tradicionais santinhos continuam existindo. Mas agora dividem espaço com vídeos curtos, transmissões ao vivo, redes sociais, aplicativos de mensagens, inteligência artificial e uma disputa permanente pela atenção do eleitor.

O TSE permite propaganda eleitoral na internet a partir de 16 de agosto, inclusive em sites, blogs, redes sociais e aplicativos de mensagens, desde que observadas as regras eleitorais.

O impulsionamento pago também pode ser utilizado dentro das regras estabelecidas pela legislação eleitoral. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com conteúdos manipulados, desinformação e utilização irregular de tecnologias de inteligência artificial.

A novidade é justamente essa: a eleição de 2026 será uma disputa pelo voto, mas também será uma disputa pela informação.

O candidato que conseguir estabelecer uma narrativa compreensível, ocupar os espaços digitais e, ao mesmo tempo, manter presença física nas ruas terá condições de disputar a atenção de um eleitor que hoje recebe informações políticas por dezenas de canais diferentes.

Inteligência artificial entra oficialmente no cenário eleitoral

Uma das novidades mais importantes desta eleição é a regulamentação do uso da inteligência artificial.

Conteúdos produzidos ou modificados por IA podem ser utilizados, mas precisam ser identificados de forma clara. A legislação eleitoral estabeleceu mecanismos específicos para enfrentar a desinformação e restringir conteúdos sintéticos capazes de manipular a percepção do eleitor.

A questão ganha dimensão especial em uma eleição na qual vídeos, áudios e imagens podem circular em velocidade muito maior do que a capacidade de checagem do cidadão.

É uma mudança profunda na política.

No passado, uma informação falsa precisava passar pelo boca a boca, pelo rádio ou pelo material impresso. Hoje, uma montagem produzida digitalmente pode alcançar milhares de pessoas em poucos minutos.

Por isso, a campanha de 2026 também será um teste para partidos, candidatos, imprensa, Justiça Eleitoral e para o próprio eleitor.

A rua continua sendo decisiva

Apesar da revolução digital, a velha política de rua não desapareceu.

Caminhadas, bandeiras, adesivos, reuniões e comícios continuam autorizados, respeitadas as regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral. Os comícios podem ocorrer das 8h à meia-noite, com possibilidade de extensão até as 2h da madrugada no evento de encerramento da campanha. Já alto-falantes e amplificadores podem funcionar das 8h às 22h, observadas as distâncias mínimas estabelecidas em relação a hospitais, escolas, igrejas, teatros, sedes dos Poderes e outros locais protegidos pela legislação.

Também permanecem proibidos outdoors e formas de propaganda que produzam efeito visual equivalente, além de showmícios e distribuição de brindes que possam representar vantagem ao eleitor.

Em Teresina, isso significa que a campanha voltará a ocupar bairros, praças, mercados, feiras, avenidas e comunidades.

E é justamente nesses espaços que muitas eleições são decididas.

O retorno do rádio e da televisão

Se a internet transformou a maneira de fazer campanha, o rádio e a televisão continuam tendo peso enorme.

A propaganda eleitoral gratuita do primeiro turno começa em 28 de agosto e será exibida até 1º de outubro. O TSE já trabalha com emissoras para organizar a estrutura de geração e distribuição do horário eleitoral.

Será o momento em que os candidatos terão de transformar discursos políticos em mensagens de poucos segundos.

É uma arte antiga da política brasileira: dizer muito utilizando pouco tempo.

Na televisão, a imagem pesa. No rádio, a voz e a capacidade de comunicação ganham importância. Na internet, prevalecem velocidade, frequência e capacidade de produzir conteúdo que desperte reação.

A campanha moderna, portanto, exige do candidato muito mais do que um bom discurso.

Exige comunicação permanente.

Teresina volta ao centro da disputa

É nesse cenário que a capital piauiense começa a viver uma nova fase de sua história eleitoral.

Teresina já assistiu a disputas memoráveis entre diferentes grupos políticos. Já foi palco de confrontos entre lideranças tradicionais e novas forças. Já testemunhou a ascensão de prefeitos que posteriormente chegaram ao governo estadual e também viu grupos considerados imbatíveis perderem eleições que pareciam controladas.

A cidade produziu lideranças que ultrapassaram seus limites geográficos e alcançaram o cenário nacional.

Petrônio Portella é um dos símbolos máximos dessa trajetória. A Assembleia Legislativa lembra que sua carreira passou pela Prefeitura de Teresina, pelo Governo do Estado e pelo Senado, antes de chegar ao Ministério da Justiça, onde participou de um dos momentos mais importantes da transição democrática brasileira.

Décadas depois, a política piauiense continuou produzindo personagens de expressão nacional.

A eleição de 2026 terá, portanto, uma característica particularmente interessante: ao mesmo tempo em que apresenta novos nomes, ela também coloca em campo políticos que carregam décadas de experiência e estruturas partidárias consolidadas.

O voto de Teresina pode definir o desenho do Piauí

A capital será observada com atenção nas eleições para todos os níveis.

Para governador, porque o desempenho em Teresina pode alterar o equilíbrio de uma disputa estadual.

Para senador, porque a cidade concentra uma parcela expressiva do eleitorado e funciona como grande vitrine política.

Para deputado federal e estadual, porque a eleição proporcional exige capilaridade e capacidade de organização em diferentes regiões.

E até para a disputa presidencial, porque Teresina será novamente uma espécie de termômetro político do Nordeste.

O que estiver acontecendo nos bairros da capital — na zona Norte, Sul, Leste e Sudeste — poderá oferecer sinais importantes sobre o humor do eleitorado piauiense.

A campanha começa, mas a eleição ainda está aberta

Até 1º de outubro, os candidatos terão pouco mais de seis semanas para apresentar propostas, consolidar alianças, conquistar espaços nos meios de comunicação e convencer o eleitor.

No dia 4 de outubro, acontece o primeiro turno.

Até lá, muita coisa ainda pode acontecer.

Alianças podem mudar. Candidaturas podem crescer. Outras podem perder força. Novos fatos podem modificar o debate público. E o eleitor, que durante meses acompanhou a movimentação política à distância, finalmente terá diante de si os candidatos pedindo diretamente o seu voto.

É por isso que 16 de agosto não deve ser visto apenas como uma data no calendário eleitoral.

É o momento em que a política sai dos bastidores e entra oficialmente na rua.

Em Teresina, uma cidade acostumada a produzir personagens, alianças, rupturas e surpresas eleitorais, começa agora mais um capítulo dessa longa história.

De Petrônio Portella aos novos protagonistas da política piauiense, a capital continua exercendo a mesma vocação: ser o grande palco onde as forças políticas do Estado se encontram, se enfrentam e tentam convencer o eleitor de que têm condições de conduzir o futuro.

A campanha começou. E, em Teresina, começa também a disputa para saber quem terá força suficiente para escrever o próximo capítulo da política do Piauí.

Fonte: Damatta Lucas

Imagem: Montagem equipe técnica

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