
Entre acusações, fake news, ataques pessoais e tentativas de desconstrução dos adversários, a corrida ao Palácio do Planalto chega à hora da verdade: menos discurso contra o outro e mais explicações sobre o que cada candidato pretende fazer pelo Brasil
A partir deste domingo (16), a eleição presidencial de 2026 entra oficialmente em uma nova fase. A propaganda eleitoral passa a ser permitida nas ruas e na internet, abrindo espaço para que candidatos deixem o ambiente da pré-campanha e apresentem, de forma mais clara, aquilo que pretendem entregar ao país caso cheguem ao Palácio do Planalto.
Mas existe uma pergunta que continua incomodando boa parte do eleitorado: onde estão os grandes projetos para o Brasil?
Até aqui, a disputa tem sido marcada por uma sucessão de ataques, acusações, tentativas de desgaste e conteúdos de procedência duvidosa nas redes sociais. A política brasileira parece, mais uma vez, caminhar para uma eleição em que é mais fácil dizer por que o adversário não merece o voto do que explicar por que determinado candidato deveria recebê-lo.
E esse talvez seja o maior desafio de todos.
Cada candidato chega à largada com virtudes, limitações, contradições e pontos vulneráveis. Alguns carregam a experiência de mandatos anteriores; outros tentam transformar a oposição ao governo ou ao grupo político dominante em uma espécie de programa de governo. Há ainda candidaturas que buscam espaço em um cenário extremamente polarizado, mas enfrentam o desafio de demonstrar conhecimento, estrutura política e capacidade administrativa compatíveis com a complexidade de comandar a maior economia da América Latina.
Presidir o Brasil não é produzir uma boa frase para as redes sociais.
É administrar orçamento, enfrentar problemas de saúde e segurança, conduzir relações internacionais, negociar com Congresso e governadores, formular políticas econômicas, cuidar da infraestrutura, enfrentar desigualdades regionais e tomar decisões que atingem milhões de brasileiros.
É justamente nesse ponto que a campanha precisará amadurecer.
O eleitor já conhece os ataques. Agora quer saber do futuro
A pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto ajuda a dimensionar o cenário. Lula aparece com 38% no primeiro turno, seguido por Flávio Bolsonaro, com 31%. Ronaldo Caiado e Renan Santos aparecem com 4% cada, enquanto Romeu Zema registra 2%. No segundo turno entre Lula e Flávio, o levantamento aponta 43% a 40%, diferença dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Ou seja: a polarização continua sendo a força dominante da eleição.
Mas a mesma pesquisa mostra uma realidade que deveria servir de alerta para todos os grupos políticos: a rejeição é elevada e a avaliação do país permanece dividida. O levantamento registra 46% de aprovação e 48% de desaprovação do governo Lula, enquanto 53% dos entrevistados dizem acreditar que o Brasil está caminhando na direção errada.
É nesse terreno que a campanha começa.
E, quando a rejeição é alta, o risco é evidente: transformar a eleição em um plebiscito permanente contra o adversário.
Lula terá de defender o governo – e apresentar o próximo passo
Para Lula, existe uma vantagem que nenhum adversário possui na mesma dimensão: a possibilidade de apresentar resultados, programas e políticas que já estão em execução.
O governo pode transformar ações concretas em argumentos eleitorais e mostrar ao eleitor aquilo que considera avanços em áreas como emprego, renda, investimentos, infraestrutura, educação, saúde e programas sociais.
Ao mesmo tempo, essa condição cria uma obrigação adicional.
Não basta dizer que o governo fez. Será necessário explicar o que ainda falta fazer.
A equipe de Lula deverá trabalhar para mostrar serviços e ações que, na avaliação do governo, melhoraram determinadas condições de vida da população. Mas também terá de responder às críticas relacionadas ao custo de vida, à segurança pública, à situação fiscal, ao funcionamento da máquina pública e aos episódios que vêm sendo explorados pela oposição.
A campanha petista, portanto, terá duas tarefas simultâneas: defender o legado e apresentar um novo horizonte.
A própria comparação entre os programas mostra que há diferenças concretas entre os principais campos. Enquanto Lula aposta em maior participação do Estado no desenvolvimento econômico, fortalecimento do SUS e políticas de inclusão, Flávio Bolsonaro apresenta uma agenda mais orientada à redução de despesas, privatizações e endurecimento das políticas de segurança.
É nesse terreno que a discussão deveria acontecer.
Flávio tenta transformar o sobrenome em projeto próprio
Flávio Bolsonaro chega à disputa carregando um dos maiores ativos políticos da direita brasileira: o sobrenome Bolsonaro.
Mas o mesmo sobrenome que garante reconhecimento nacional também cria um problema político. A candidatura precisa demonstrar até que ponto representa a continuidade do projeto do ex-presidente Jair Bolsonaro e em que medida pretende construir uma identidade própria.
A experiência de Flávio é predominantemente legislativa, e esse é um dos pontos que naturalmente será colocado em debate durante a campanha. A Presidência da República, afinal, exige uma experiência administrativa de outra dimensão.
Seu programa apresenta propostas de forte contraste com o governo Lula, especialmente em segurança pública, política econômica e relação entre os Poderes.
A questão que permanecerá sobre a mesa é simples: o eleitor verá em Flávio apenas a continuidade do bolsonarismo ou um projeto presidencial próprio?
A resposta dependerá menos dos ataques a Lula e mais da capacidade de explicar como pretende governar.
Caiado e Zema enfrentam o problema do terceiro caminho
Ronaldo Caiado e Romeu Zema tentam ocupar um espaço que existe no discurso, mas que ainda não aparece com a mesma força nas pesquisas.
Caiado aposta especialmente na segurança pública e procura levar para o debate nacional sua experiência à frente de Goiás. Zema, por sua vez, apresenta uma agenda econômica liberal, com defesa de privatizações e redução da presença estatal.
Os dois, porém, enfrentam o mesmo dilema: como construir uma candidatura nacional sem serem engolidos pela disputa entre Lula e o bolsonarismo?
Os números da Quaest mostram a dificuldade. Caiado aparece com 4% e Zema com 2% no cenário de primeiro turno pesquisado em agosto.
Isso não significa que estejam fora do jogo. Significa que terão de conquistar espaço em uma eleição na qual dois grandes polos já ocupam boa parte do imaginário eleitoral.
E há uma questão adicional: apresentar experiência administrativa ajuda, mas não substitui um projeto nacional capaz de dialogar com diferentes regiões, classes sociais e setores econômicos.
Renan Santos e os demais candidatos: espaço para propostas ou apenas para protesto?
Renan Santos representa uma tentativa diferente de entrar na disputa presidencial, com propostas de ruptura em relação a estruturas tradicionais da política brasileira.
O desafio, entretanto, é transformar uma candidatura de contestação em uma candidatura de governo.
É relativamente fácil apontar problemas no Estado brasileiro. Mais difícil é explicar como reorganizar ministérios, municípios, programas sociais, segurança pública, saúde, educação e finanças públicas sem produzir consequências inesperadas.
Esse é o teste que vale para todos.
Criticar é necessário. Governar exige muito mais.
A guerra digital também será uma guerra contra a desinformação
Outro componente dessa eleição já está evidente: a disputa pela narrativa nas redes sociais.
Partidos vêm utilizando recursos para impulsionar conteúdos políticos, seja para valorizar realizações de governo, seja para atacar adversários. Reportagens recentes identificaram investimentos de diferentes legendas nessa estratégia.
Ao mesmo tempo, conteúdos falsos e enganosos já circulam tentando apresentar enquetes informais como se fossem pesquisas eleitorais, demonstrando o tamanho do problema que candidatos e eleitores terão pela frente.
O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras específicas para propaganda digital e incorporou medidas voltadas ao enfrentamento da desinformação e ao uso de inteligência artificial durante o processo eleitoral.
A responsabilidade, porém, não será apenas da Justiça Eleitoral.
Caberá também ao eleitor desconfiar de certezas fáceis, números sem fonte, vídeos manipulados, cortes fora de contexto e acusações que aparecem justamente quando um candidato precisa desviar a atenção de seus próprios problemas.
No fim, todos têm fraquezas
Essa talvez seja a característica mais evidente desta eleição.
Não existe candidato sem vulnerabilidade.
Lula carrega o peso de estar no governo e, portanto, responde diretamente pelos problemas que continuam afetando o país. Flávio enfrenta o desafio de transformar uma herança política poderosa em um projeto presidencial próprio. Caiado e Zema precisam romper a barreira que separa liderança regional de competitividade nacional. Outros candidatos terão de provar que possuem mais do que discurso de oposição e capacidade de mobilização nas redes.
Nenhum deles está acima do escrutínio.
E talvez seja justamente por isso que a campanha não possa se limitar à tentativa de destruir o adversário.
O eleitor brasileiro precisa saber quanto cada candidato pretende gastar, de onde virão os recursos, quais programas serão mantidos, quais serão modificados, quais impostos poderão mudar, como será tratada a segurança, que papel terá o Estado na economia, como o Brasil se posicionará no mundo e quais serão as prioridades para saúde, educação, infraestrutura e geração de emprego.
É disso que deveria tratar uma eleição presidencial.
A disputa começa oficialmente neste domingo. Os candidatos terão tempo, televisão, internet, palanques e milhões de reais em estrutura política para tentar convencer o eleitor.
O que não podem esperar é que o eleitor aceite escolher apenas pelo medo do adversário.
A eleição de 2026 ainda pode ser uma disputa de ataques, acusações e fake news. Mas também pode ser a oportunidade de obrigar cada candidato a responder à pergunta mais importante de uma campanha presidencial:
depois de eleito, o que exatamente você pretende fazer pelo Brasil?
Essa resposta — e não apenas aquilo que cada um diz contra o outro — será uma das medidas mais importantes para separar candidatura de projeto de governo.
Por Damatta Lucas
Imagem: Montagem



