
Enquanto o mercado financeiro concentra dinheiro, influência e capacidade de pressionar decisões nacionais, 98% das companhias analisadas pela B3 não têm sequer uma pessoa preta em suas diretorias estatutárias. A pergunta é inevitável: quem está sentado à mesa onde o futuro do Brasil é decidido?
Há uma fotografia do Brasil que o discurso da modernidade econômica não consegue esconder.
Ela está nos arranha-céus da Faria Lima, nos escritórios sofisticados do mercado financeiro, nas salas onde circulam bilhões de reais, nas reuniões de conselhos de administração, nos fundos de investimento, nas grandes corporações e nos ambientes em que decisões econômicas capazes de produzir efeitos sobre milhões de brasileiros são tomadas.
É a fotografia de um poder econômico gigantesco.
Mas é também a fotografia de um poder que, no topo, continua predominantemente branco.
O novo levantamento Lideranças Plurais, realizado pela B3 em parceria com o Instituto Locomotiva, expõe uma contradição que deveria provocar muito mais do que uma nota de rodapé nos relatórios de governança corporativa.
Em 2026, entre 290 companhias listadas na Bolsa analisadas pelo estudo, apenas 2% declararam ter ao menos uma pessoa preta em suas diretorias estatutárias.
Repita-se o número: 2%.
E há algo ainda mais revelador: esse percentual é exatamente o mesmo registrado em 2023, primeiro ano em que os dados estruturados de raça passaram a aparecer nos formulários utilizados no levantamento.
Três anos se passaram.
A economia brasileira mudou.
O mercado financeiro mudou.
As empresas mudaram.
A tecnologia mudou.
Os discursos empresariais sobre diversidade se multiplicaram.
Mas a presença de pessoas pretas no comando das companhias abertas, não.
Permaneceu em 2%.
E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro escândalo.
O Brasil negro, a elite branca
O Censo 2022 do IBGE mostrou que 45,3% dos brasileiros se declararam pardos e 10,2% pretos. Somados, pretos e pardos representam aproximadamente 56% da população brasileira.
Portanto, não estamos falando de uma parcela marginal da sociedade.
Estamos falando da maioria do país.
O Brasil real é majoritariamente negro.
Mas o Brasil que ocupa os espaços mais altos da economia continua sendo, em larga medida, branco.
E essa distância não pode ser tratada como simples coincidência estatística.
Quando 56% da população está de um lado da sociedade e apenas 2% das empresas analisadas possuem pelo menos uma pessoa preta em sua diretoria estatutária, há alguma coisa profundamente errada na estrutura de acesso ao poder econômico.
É preciso perguntar por quê.
Não basta dizer que faltam candidatos.
Não basta repetir que as empresas escolhem “os melhores”.
Não basta transformar diversidade em campanha publicitária, relatório de sustentabilidade ou fotografia institucional.
A pergunta mais incômoda é outra:
quem teve acesso às oportunidades necessárias para chegar ao topo?
E quem foi historicamente impedido de chegar lá?
O discurso da diversidade e a realidade do poder
Existe um número que pode impressionar à primeira vista: 83% das companhias analisadas são consideradas aderentes ao critério de diversidade do Anexo ASG da B3.
Mas é preciso olhar para dentro desse número.
O critério não significa que 83% das empresas tenham diversidade racial proporcional à sociedade brasileira.
A classificação pode ser alcançada pela presença de pelo menos uma mulher ou de um integrante de grupo sub-representado no conselho de administração ou na diretoria estatutária.
Ou seja: uma companhia pode ser considerada diversa sem possuir uma única pessoa preta em sua diretoria.
É justamente aí que o discurso pode começar a esconder a realidade.
A diversidade pode existir no relatório.
Pode existir no formulário.
Pode existir na fotografia institucional.
Mas não necessariamente existe onde o poder realmente está.
Porque uma coisa é ter diversidade simbólica.
Outra, completamente diferente, é dividir poder.
A mulher avança. O negro continua à porta
O próprio levantamento mostra que a situação não é igual para todos os grupos.
Em 2026, 70% das companhias analisadas tinham ao menos uma mulher no conselho de administração e 51% tinham ao menos uma mulher na diretoria estatutária.
São avanços importantes.
Mas, quando o recorte é racial, a história muda radicalmente.
Nas diretorias estatutárias, a presença de pelo menos uma pessoa parda subiu de 11% em 2023 para 23% em 2026.
Entre pessoas pretas, entretanto, permaneceu em 2%.
Nos conselhos de administração, a presença de pessoas pardas passou de 9% para 18%.
Entre pessoas pretas, foi de apenas 4% para 5%.
Não é possível olhar para esses números e concluir que a transformação racial do topo empresarial brasileiro esteja acontecendo na mesma velocidade da transformação de gênero.
Não está.
E isso precisa ser dito sem eufemismo.
Há uma porta que começou a se abrir. Mas para pessoas pretas ela continua quase fechada.
E é aqui que a Faria Lima entra na história
A Faria Lima não é apenas uma avenida.
Tornou-se uma espécie de símbolo da força do capital financeiro brasileiro.
É ali que se concentram bancos de investimento, gestoras, escritórios, empresas de tecnologia financeira, grandes corporações e uma parcela significativa das instituições que participam da formação das expectativas econômicas do país.
Quando o mercado financeiro fala, Brasília escuta.
Quando grandes investidores mudam suas expectativas, o câmbio reage.
Quando grandes grupos pressionam por determinadas políticas econômicas, o debate público sente os efeitos.
Quando o mercado avalia um governo, um ministro, uma reforma ou uma política fiscal, essa avaliação frequentemente ganha dimensão política.
Isso não significa que a Faria Lima governe o Brasil.
Mas seria ingênuo negar que o grande capital possui enorme capacidade de influência sobre a agenda econômica e política brasileira.
E é justamente por isso que a pergunta racial não pode ficar restrita às páginas de responsabilidade social das empresas.
Quem representa a maioria da população brasileira nos lugares onde esse poder econômico é exercido?
Os números da B3 dão uma resposta desconfortável.
Muito pouco.
E o crime organizado?
O debate ganha uma camada ainda mais delicada diante das operações policiais que, nos últimos anos, atingiram empresas, fintechs e estruturas financeiras instaladas na Faria Lima e em seu entorno.
Em 2025 e 2026, investigações da Polícia Federal e de outros órgãos expuseram suspeitas de utilização de estruturas do mercado financeiro e de empresas formais em esquemas ligados à lavagem de dinheiro e ao crime organizado. Uma reportagem do Metrópoles, por exemplo, registrou que a região foi alvo de diversas operações relacionadas a investigações sobre PCC, fraudes e outros crimes financeiros.
É fundamental não cometer o erro de transformar uma região inteira em culpada pelas condutas investigadas de determinados agentes.
Mas também seria um erro ainda maior imaginar que dinheiro ilícito, quando entra no sistema financeiro formal, deixa de ser problema da sociedade.
O crime organizado moderno não vive apenas da arma na mão do criminoso.
Ele precisa de empresas.
Precisa de movimentação financeira.
Precisa de estruturas societárias.
Precisa de logística.
Precisa de mecanismos para esconder, movimentar e aparentemente legitimar dinheiro.
As investigações recentes mostram justamente a necessidade de olhar para o crime organizado também pelo caminho do dinheiro.
E isso nos leva novamente à questão do poder.
Porque existe uma enorme diferença entre o tratamento social dado ao dinheiro que nasce na periferia e ao dinheiro que chega aos centros financeiros.
Um jovem negro suspeito costuma ser enxergado primeiro como ameaça.
Um empresário de terno, quando investigado, costuma ser tratado inicialmente como suspeito de um possível crime financeiro.
Essa diferença de percepção também é uma questão racial e social.
Dois brasis no mesmo país
Existe o Brasil que trabalha.
Existe o Brasil que empreende.
Existe o Brasil que pega ônibus lotado.
Existe o Brasil das periferias.
Existe o Brasil dos trabalhadores informais.
Existe o Brasil das mães solo.
Existe o Brasil negro, que historicamente teve de lutar duas vezes para conquistar metade das oportunidades.
E existe o Brasil dos grandes patrimônios.
O Brasil dos fundos.
O Brasil dos conselhos.
O Brasil dos bilhões.
O Brasil que consegue contratar especialistas, advogados, consultorias e gestores para proteger seus interesses.
São realidades que convivem no mesmo território, mas que raramente se encontram nos mesmos espaços de poder.
E talvez essa seja uma das maiores contradições da democracia brasileira.
Nós votamos em uma democracia.
Mas a democracia econômica continua extremamente concentrada.
Quem decide o destino do Brasil?
Essa é a pergunta que precisa sair dos círculos acadêmicos e chegar ao debate político nacional.
Porque democracia não pode significar apenas votar de quatro em quatro anos.
Democracia também é participar das decisões que definem a vida econômica do país.
Quem decide onde investir?
Quem decide quais setores receberão capital?
Quem decide quais empresas serão financiadas?
Quem influencia a política econômica?
Quem participa dos conselhos?
Quem ocupa as diretorias?
Quem tem acesso aos grandes fundos?
Quem define estratégias empresariais que podem gerar milhares de empregos — ou milhares de demissões?
Quem consegue conversar diretamente com ministros, parlamentares, presidentes de bancos e autoridades?
E, principalmente:
onde estão os negros nessa fotografia?
O levantamento da B3 não permite dizer que pessoas pretas estejam ausentes de toda a estrutura financeira brasileira. Mas revela algo incontestável sobre o universo analisado: elas continuam dramaticamente sub-representadas nas posições mais altas das companhias abertas.
E isso precisa deixar de ser tratado como uma questão periférica.
Não é sobre inveja do capital. É sobre democracia
Criticar a concentração de poder econômico não significa demonizar empresários.Criticar a Faria Lima não significa ser contra o mercado.
Questionar a influência do capital financeiro não significa defender o fim da iniciativa privada.
E denunciar a desigualdade racial não significa dividir o país.
É justamente o contrário.
Significa perguntar se o capitalismo brasileiro está conseguindo cumprir uma promessa elementar de qualquer sociedade democrática: permitir que pessoas diferentes tenham condições reais de disputar os espaços de poder.
Porque se a maioria da população está do lado de fora das salas onde as decisões são tomadas, alguma coisa está errada.
E quando essa exclusão tem cor, classe e história, não há como fugir da palavra:
racismo estrutural.
O vespeiro precisa ser mexido
O Brasil já discutiu a desigualdade racial nas escolas.
Já discutiu nas universidades.
Já discutiu no mercado de trabalho.
Já discutiu nas polícias.
Já discutiu na política.
Agora precisa discutir dentro das salas mais caras do capitalismo brasileiro.
Porque não basta perguntar quantos negros estão empregados.
É preciso perguntar quantos são diretores.
Quantos são presidentes.
Quantos comandam bancos.
Quantos administram bilhões.
Quantos sentam nos conselhos.
Quantos possuem participação relevante nas empresas.
Quantos conseguem influenciar decisões econômicas.
Quantos estão do outro lado da mesa — e não apenas servindo café para quem está sentado nela.
Esse é o verdadeiro vespeiro.
E os números da B3 acabaram de mexer nele.
Enquanto o Brasil negro representa a maioria da população, a presença preta no topo das companhias abertas continua residual.
2% não é diversidade. É quase ausência.
E talvez seja justamente essa a imagem mais sincera de um país onde o dinheiro pode circular livremente entre poucos, enquanto a oportunidade de exercer o poder continua encontrando barreiras que não aparecem nos balanços financeiros.
A pergunta, portanto, não é se a Faria Lima é culpada por todos os problemas do Brasil.
Não é.
A pergunta é muito mais incômoda:
por que o Brasil permite que tamanha concentração de capital, influência e poder continue sendo exercida por uma elite que não se parece com o país que ela ajuda a definir?
O Brasil precisa olhar para essa fotografia.
E, desta vez, não pode olhar apenas para o dinheiro.
Precisa olhar para a cor de quem segura o poder.



