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Trump parece que se acostumou a romper protocolo e abre nova crise diplomática com o Brasil

Revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti transforma uma divergência sobre o agrément de um diplomata em instrumento de pressão política e coloca em xeque uma relação construída durante décadas

Há momentos em que a diplomacia deixa de ser apenas uma questão de notas oficiais, reuniões reservadas e protocolos cuidadosamente observados. O que ocorreu agora entre Brasil e Estados Unidos ultrapassa essa fronteira.

A decisão do governo de Donald Trump de revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, elevou a tensão bilateral a um patamar excepcional. Washington afirma que a medida está relacionada à demora do governo brasileiro em conceder o agrément ao indicado americano para a embaixada em Brasília, Daniel Perez. O governo brasileiro, por sua vez, sustenta que a análise do nome segue os procedimentos diplomáticos normais e rejeita a ideia de que exista prazo automático para a concessão.

O problema está justamente aí.

O agrément não é uma formalidade que um governo estrangeiro possa exigir como se fosse uma autorização administrativa sujeita a prazo imposto unilateralmente. Trata-se de uma etapa essencial da diplomacia: antes que um país envie oficialmente um embaixador, precisa saber se o governo anfitrião aceita aquele nome.

Transformar a demora nessa análise em motivo para retirar o visto da representante diplomática do outro país significa levar uma divergência protocolar para o campo da retaliação.

E é isso que torna o episódio particularmente grave.

UMA RETALIAÇÃO FORA DO PADRÃO

Diplomatas ouvidos pela imprensa brasileira e americana classificaram a decisão como anômala e desproporcional.

O ponto central é simples: os próprios Estados Unidos costumam levar meses para analisar pedidos de agrément apresentados por governos estrangeiros. No caso de Daniel Perez, o pedido brasileiro estava sendo analisado havia pouco mais de dois meses quando Washington decidiu retaliar.

Ou seja: a mesma potência que tradicionalmente dispõe de tempo para examinar seus próprios indicados decidiu cobrar do Brasil uma velocidade que não necessariamente corresponde à prática diplomática internacional.

Mais grave ainda é o método.

Uma divergência sobre a escolha de um embaixador não costuma produzir, como resposta imediata, a retirada do visto do representante diplomático do outro país.

Há precedentes que ajudam a dimensionar a excepcionalidade da situação.

Em 2015, Israel enfrentou resistência do governo brasileiro à indicação de Dani Dayan para a embaixada em Brasília. A divergência estava relacionada, entre outros fatores, à posição de Dayan sobre os assentamentos israelenses em territórios palestinos ocupados. Israel pressionou diplomaticamente o Brasil, retirou posteriormente a indicação e chegou a manter a embaixada brasileira sem embaixador por determinado período.

Mas não houve uma retaliação equivalente contra o diplomata brasileiro.

Outro precedente envolve o próprio Brasil. Em 2021, o governo Jair Bolsonaro retirou a indicação do então ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella para a embaixada brasileira na África do Sul depois de meses sem a concessão do agrément por Pretória.

Também não houve retaliação contra o representante sul-africano.

É justamente essa comparação que torna o gesto de Washington tão significativo.

TRUMP NÃO ESPEROU O BRASIL DIZER SIM

Existe ainda uma questão protocolar particularmente delicada.

Daniel Perez foi anunciado publicamente por Trump como indicado para a embaixada dos Estados Unidos em Brasília antes da conclusão do processo de aceitação pelo governo brasileiro. O nome também precisa passar pelo Senado americano.

Perez é um político republicano da Flórida, presidente da Câmara dos Representantes daquele estado, filho de imigrantes cubanos e identificado com o movimento MAGA. É também apontado como próximo do secretário de Estado Marco Rubio.

Isso não significa, por si só, que Perez tenha sido escolhido para exercer uma missão de interferência política no Brasil. Essa conclusão não está comprovada.

Mas seu perfil é impossível de ignorar.

Não se trata de um diplomata de carreira conhecido por uma longa trajetória no serviço exterior americano. É um político republicano jovem, fortemente identificado com o ambiente conservador da Flórida e com trânsito dentro do establishment republicano daquele estado.

Sua indicação ocorre justamente em um dos períodos mais delicados da relação entre Brasília e Washington.

Por isso, sua chegada — caso o agrément seja concedido e a confirmação pelo Senado americano seja concluída — terá peso político muito maior do que o de uma simples troca de embaixadores.

A EMBAIXADA COMO PEÇA DO TABULEIRO

O episódio não pode ser analisado isoladamente.

A relação entre Lula e Trump já vinha sofrendo forte deterioração, marcada por disputas comerciais, tarifas americanas, divergências políticas e pelo envolvimento cada vez mais explícito de Trump na política brasileira.

A própria indicação de Perez foi recebida com surpresa em Brasília. Segundo reportagens publicadas à época, ele não era um nome esperado pelo governo brasileiro e chegou ao processo como um político republicano alinhado ao MAGA.

Agora, a situação ganhou outra dimensão.

Trump não está apenas cobrando a aprovação de seu indicado.

Está utilizando uma medida diplomática contra a chefe da missão brasileira em Washington para pressionar o Brasil.

Essa diferença é fundamental.

Uma coisa é Washington solicitar que Brasília acelere a análise de Perez.

Outra, completamente diferente, é transformar essa cobrança em uma punição contra a representante oficial do Estado brasileiro.

É aí que a diplomacia começa a perder espaço para a lógica da coerção.

O QUE ESTÁ EM JOGO É MAIOR QUE MARIA LUIZA VIOTTI

A questão não é apenas a permanência ou não de Maria Luiza Viotti nos Estados Unidos.

A embaixadora é uma diplomata de carreira e representa oficialmente o Estado brasileiro. Atingi-la significa atingir institucionalmente a representação brasileira em Washington.

Por isso, a medida possui uma dimensão simbólica que ultrapassa a pessoa da diplomata.

É uma mensagem enviada diretamente ao governo brasileiro.

E a mensagem é clara: Washington está disposto a elevar o custo diplomático de uma decisão soberana de Brasília.

O Brasil, evidentemente, terá de responder com equilíbrio.

Não porque deva aceitar pressão estrangeira, mas justamente porque uma crise diplomática entre duas das maiores democracias do continente não pode ser conduzida pela lógica do revide emocional.

A resposta brasileira precisa preservar duas coisas simultaneamente: a soberania nacional e os canais diplomáticos.

UMA RELAÇÃO CONSTRUÍDA EM DÉCADAS NÃO PODE VIRAR REFÉM DE UM GOVERNO

Brasil e Estados Unidos não começaram suas relações diplomáticas com Lula e Trump.

São parceiros históricos, com décadas de intercâmbio econômico, comercial, tecnológico, militar, científico e cultural.

Governos passam.

Presidentes passam.

Embaixadores passam.

As relações de Estado permanecem.

É justamente por isso que decisões que rompem padrões diplomáticos tradicionais precisam ser tratadas com enorme responsabilidade.

A diplomacia existe, entre outras razões, para impedir que divergências entre governos se transformem em crises entre países.

Quando uma questão administrativa — como a análise de um agrément — passa a produzir retaliação contra um embaixador, o risco é que o mecanismo diplomático deixe de funcionar como instrumento de contenção e passe a funcionar como instrumento de pressão.

E esse seria um precedente perigoso.

O RECADO DE TRUMP A BRASÍLIA

A leitura mais prudente do episódio é que Washington decidiu aumentar a pressão sobre o governo brasileiro.

Não é necessário atribuir a Trump uma intenção que não esteja documentada para reconhecer a dimensão política da medida.

A sequência dos acontecimentos fala por si.

Primeiro, os Estados Unidos indicam Daniel Perez para Brasília.

Depois, pressionam publicamente pela aprovação do nome.

Em seguida, diante da demora brasileira, anunciam a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti.

O resultado é uma escalada.

E escaladas diplomáticas raramente terminam onde começam.

A questão agora é saber se Brasília aceitará negociar sob pressão ou se manterá o procedimento normal de análise do indicado americano, preservando os canais diplomáticos sem abrir mão de suas prerrogativas.

PEREZ SERÁ UM EMBAIXADOR OU UM HOMEM DE TRUMP EM BRASÍLIA?

Essa talvez seja a pergunta política mais importante que ficará sobre a mesa.

Daniel Perez poderá chegar ao Brasil como representante dos Estados Unidos e exercer normalmente as funções diplomáticas esperadas de um embaixador.

Mas seu perfil político fará com que cada movimento seja observado com atenção.

Republicano, ligado ao MAGA, próximo de Marco Rubio e oriundo de um dos principais centros políticos conservadores dos Estados Unidos, Perez chega ao cenário brasileiro justamente quando Washington e Brasília atravessam uma das fases mais tensas de sua relação recente.

Por isso, será preciso separar duas coisas.

A primeira é o homem.

A segunda é a missão que ele receberá.

Se Perez atuar como diplomata, negociador e representante dos interesses americanos, poderá contribuir para reconstruir pontes.

Se sua missão for interpretada como extensão direta da disputa política americana sobre o Brasil, a crise poderá se aprofundar.

Não há, até o momento, elementos suficientes para afirmar que esse segundo cenário ocorrerá.

Mas há elementos suficientes para que Brasília fique em estado de atenção.

O LIMITE QUE NÃO DEVERIA SER ULTRAPASSADO

O episódio envolvendo Maria Luiza Viotti deveria servir como alerta para os dois governos.

Diplomacia não pode ser confundida com submissão.

Mas soberania também não deve ser confundida com confronto permanente.

O Brasil tem o direito de analisar qualquer indicação estrangeira segundo seus próprios procedimentos.

Os Estados Unidos têm o direito de manifestar insatisfação.

O que precisa ser preservado é o espaço entre essas duas posições: o espaço da negociação.

Ao retirar o visto de uma embaixadora em represália a uma demora na concessão de agrément, Washington elevou o tom da disputa e criou um precedente que não pode ser banalizado.

A relação Brasil-Estados Unidos sobreviveu a governos democratas, republicanos, crises econômicas, guerras, divergências ideológicas e mudanças profundas no cenário internacional.

Não deveria agora ser colocada em risco por uma disputa em torno de um nome.

Porque, no fundo, a questão já deixou de ser Daniel Perez.

E também já deixou de ser Maria Luiza Viotti.

O que está em jogo é se duas nações soberanas continuarão tratando suas divergências pela diplomacia — ou se a lógica da pressão e da retaliação passará a comandar uma relação construída ao longo de décadas.

Por Damatta Lucas

Imagem: Jefferson Rudy

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