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Veja íntegra da conversa entre Bolsonaro e Kajuru, divulgada pelo senador

O senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) divulgou ontem um trecho da conversa com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que foi gravada pelo parlamentar. O diálogo aconteceu às vésperas da instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que pretende investigar como o combate à pandemia foi conduzido no Brasil.

Na gravação, o presidente Jair Bolsonaro dá a entender que, caso haja pedidos de impeachment contra ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), a instalação da comissão para apurar as ações do governo na pandemia pode ser interrompida.

O presidente cobrou ao senador que a CPI seja instalada de forma ampla. O que significa que governadores e prefeitos também seriam adicionados como alvos das investigações.

Confira a transcrição completa da conversa entre Kajuru e Bolsonaro:

Bolsonaro: Então uma CPI completamente direcionada à minha pessoa.

Kajuru: Não, presidente, a gente pode convocar governadores.

Bolsonaro: Se você não mudar o objeto da CPI, você não pode convocar governadores.

Kajuru: Tá, mas eu vou mudar. Eu quero ouvir os governadores.

Bolsonaro: Se mudar [trecho inaudível], porque nós não temos nada a esconder.

Kajuru: Não, eu não abro mão de ouvir governadores em hipótese alguma.

Bolsonaro: Então, olha só…

Kajuru interrompe: Eu só não quero que o senhor me coloque no mesmo joio.

Bolsonaro: Olha só, você tem que fazer, tem que mudar o objetivo da CPI. Tem que ser ampla.

Kajuru: Ampla, claro.

Bolsonaro: CPI da Covid no Brasil. Daí você faz um excelente trabalho pelo Brasil.

Kajuru: Exato. O que eu quero fazer é isso. Eu não vou manchar meu nome de forma alguma.

Bolsonaro: Você não é o autor da CPI, então o objetivo do autor, que eu não sei quem é, como tá lá, é investigar omissões do governo federal no combate à covid.

Kajuru: Não é meu caso.

Bolsonaro: Tudo bem.

Kajuru: Eu acabei de declarar para o Augusto Nunes, mas eu quero dizer que eu não posso ser colocado no mesmo joio, não é, presidente? Nas suas entrevistas, o senhor coloca como se todos nós fossemos iguais. Aí não é certo.

Bolsonaro: A CPI hoje é para investigar omissões do presidente Jair Bolsonaro. Ponto final.

Kajuru: O senhor pode dizer: ‘Não é o que pensa o senador Kajuru que quer fazer uma investigação completa’.

Bolsonaro: Kajuru, se não mudar o objetivo da CPI ela vai só vir para cima de mim.

Kajuru: Mas não vai, presidente. Tem a opinião de outros. São 11 titulares e 8 suplentes. A opinião de um não prevalece. Vai prevalecer a quem concordar. Eu não concordo com coisa errada, presidente.

Bolsonaro: Kajuru, olha só: Tem que fazer para ter uma CPI que realmente seja útil para o Brasil. Mudar a amplitude dela, bota governadores e prefeitos.

Kajuru: Sim, vou mudar.

Bolsonaro: Presidente da República, governadores e prefeitos.

Kajuru: Eu fui o primeiro a assinar para governadores e municípios. O senhor pode ver lá. Portanto, eu concordo com a amplitude.

Bolsonaro: Tá ok. Se mudar a amplitude, tudo bem, mas se não mudar, a CPI vai simplesmente ouvir o Pazuello, ouvir gente nossa para fazer um relatório “sacana”.

Kajuru: Isso aí eu não faço nunca, pela minha mãe.

Bolsonaro: Vamos lá, Kajuru, coisa importante aqui: A gente tem que fazer do limão uma limonada. Por enquanto o que está aí é um limão, e tá para sair uma limonada. Acho que você já fez alguma coisa. Tem que peticionar o supremo e colocar em pauta o impeachment também.

Kajuru: E o que eu fiz? O senhor não viu o que eu fiz não?

Bolsonaro: Parece que você fez. Fez pensando em investigar quem?

Kajuru: O Alexandre de Moraes, ué.

Bolsonaro: Tudo bem.

Kajuru: O do Alexandre de Moraes meu já está lá engavetado pelo Pacheco, só falta ele liberar, correto?

Bolsonaro: Você pressionou o Supremo, né?

Kajuru: Sim, claro. Eu entrei contra o Supremo. Entrei ontem às 17h40.

Bolsonaro: Parabéns para você.

Kajuru: Eu só queria que o senhor desse crédito para mim nesse ponto.

Bolsonaro: Kajuru, de tudo o que nós conversamos aqui, nós estamos afinados, nós dois. É CPI ampla, investigar ministros do Supremo.

Kajuru: E nunca “revanchista”.

Bolsonaro: Dez para você. Tendo a oportunidade, eu falo com as mídias e sinto que a minha conversa contigo, ampla CPI do Covid. E também o Supremo.

Kajuru: Exatamente. Se ele fez com a CPI tem que fazer também com o ministro.

Bolsonaro: Sim.

Kajuru: Quer dizer, então é a coisa justa. O que é difícil pra mim é que eu tenho uma posição dessa, presidente, e aí todo mundo vem contra mim porque a fala do senhor generaliza todo mundo. Não é só eu não. Acho que o senhor precisa separar o joio do trigo.

Bolsonaro: Kajuru, olha, qualquer pessoa que eu conversar vou dizer o seguinte: ‘O Kajuru foi bem intencionado, só que a CPI era restrita. Só que agora ele vai fazer o possível para ter uma CPI ampla. Da minha parte, não tem problema nenhum. Ele inspecionou o Supremo, que deve ser o Barroso.

Kajuru: Deve ser não, tem que ser, por causa daquela palavra jurídica “pretento”, então juridicamente ele é obrigado a opinar, ele não pode botar na mão de outro ministro.

Bolsonaro: É “prevento”. Ele vai ter que despachar.

Kajuru: Ele não pode colocar na mão de outro. Modéstia à parte, eu acho que fui bem nessa.

Bolsonaro: Bem não, você foi dez. Acho que o que vai acontecer, eles vão ponderar tudo. Não tem CPI nem tem investigação do Supremo.

Kajuru: Ou bota tudo, ou zero a zero.

Bolsonaro: Eu sou a favor de botar tudo pra frente.

Kajuru: É, claro, vamo pro “pau”.

Bolsonaro: A questão do vírus, ninguém vai curar, não vai deixar de morrer gente infelizmente no Brasil. Um dia morre menos gente se os prefeitos todos pegassem recursos e investissem em postos de saúde, hospital.

Kajuru: Presidente, eu sou justo. Nunca pedi uma agulha para o senhor.

Bolsonaro: Estamos 100% assinados.

Kajuru: Eu só quero pedir justiça, presidente.

Bolsonaro: Se você me pedir algo, sei que vai fazer bom uso.

Kajuru: O senhor me ajudou no que, foi o único presidente da república da história do Brasil que ajudou a diabetes. E isso aí é toma lá da cá?

Bolsonaro: Tem nada a ver.

Kajuru: Pelo amor de Deus, não é?

Bolsonaro: Tá certo.

Kajuru: Abraço para você. Bom final de semana e saúde.

Bolsonaro: Valeu, até mais.

“Sair na porrada” – Veja agora novos trechos divulgados

senador Jorge Kajuru divulgou nesta segunda-feira (12) à Rádio Bandeirantes o conteúdo do restante do áudio de sua conversa com o presidente Jair Bolsonaro sobre a CPI da Covid. Na ligação, além de pedir ao parlamentar para que tente ampliar a comissão para apurar também a conduta de prefeitos e governadores durante a pandemia, o presidente fala em “ir para a porrada” com o também senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP).

No trecho exclusivo do áudio, Kajuru afirma que, “se a CPI for revanchista”, ele “faz questão de não participar”. Bolsonaro, então, responde: “Se você não participa, a canalhada do Randolfe Rodrigues vai participar. E vai começar a encher o saco. Aí vou ter que sair na porrada com um bosta desse”.

“Eu não tinha divulgado essa parte para preservar um colega senador. Era desnecessário, na minha opinião. De graça. Tem inimizade entre eles? Tem, Randolfe é líder da oposição. Mas eu achei que o melhor para os dois era essa parte não ser colocada. Não tinha nada a ver. Era um desabafo. Mas ele quis o restante, então coloquei. Pronto, acabou”, explicou Kajuru ao programa Manhã Bandeirantes.

Ao afirmar que “ele quis o restante”, o senador fez referência à recente declaração do presidente sobre a divulgação da conversa. A apoiadores, Bolsonaro disse que não sabia que estava sendo gravado na ocasião, criticou a divulgação do áudio e ainda declarou “só para controle, falei mais coisa naquela conversa, pode divulgar tudo, da minha parte”. A afirmação, segundo Kajuru, não é verdadeira.

“Todo mundo que conversa comigo em Brasília eu gravo por precaução. Já avisei isso na tribuna do Senado. No caso do presidente, avisei ontem [sobre a divulgação da gravação] às 12h40. Na noite de sábado esse foi o motivo principal da minha conversa com ele. Ele me elogiou, falou ‘parabéns, nota 10’ pelo pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes. Aí começou a reclamar da questão da CPI ser só com o governo federal. Falou ‘é contra mim apenas’ e pediu ‘você poderia me ajudar a convencer os colegas para pegar governador e prefeito, senão dá impressão que é só comigo’. Garanti a ele.”

“Ontem às 12h40, quando liguei para avisar que o requerimento estava pronto, avisei [que seria divulgado]. Falei ‘olha, vou colocar nossa conversa no ar, vai ser importante’. Foi um desabafo dele. Considerei que foi uma proteção a ele mostrar ao Brasil que ele está se sentindo prejudicado. Ele usou a palavra ‘sacana’ porque estava chateado. A única parte que não coloquei para protegê-lo, achei desnecessário, foi quando ele ofendeu um senador e falou que iria para porrada. Falei ‘calma, não é hora disso, a hora é de paz’. Se quer que eu convença os outros, preciso ir com passe. Mostrar que está xingando não adianta nada. Quis protegê-lo porque acho injusto, a CPI vira revanchismo. Foi minha intenção. Só isso.”
(Com Uol)

Redação Jogo do Poder