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“Se a Bielorússia cair, a Rússia será a próxima”, diz Lukashenko

Disposto a aferrar-se ao poder, depois de 26 anos no comando da Bielorrússia, o presidente Alexander Lukashenko tirou de circulação cinco dos sete principais líderes opositores. Maria Kolesnikova, sequestrada por homens encapuzados na segunda-feira, foi detida, ontem, na fronteira com a Ucrânia. Em entrevista a vários meios de comunicação de Moscou e citado pela agência de notícias RIA Novosti, o autocrata enviou um recado ao colega russo, Vladimir Putin. “Sabem a conclusão de que chegamos sobre o poder russo? Se a Bielorrússia cair, a Rússia será a próxima”, advertiu Lukashenko. “Não facilitem. Se Lukashenko cair, todo o sistema cairá”, acrescentou, ao citar-se na terceira pessoa.

Até as eleições de 9 de agosto, o autocrata bielorrusso acusava Putin de planejar um golpe em Minsk, ante o fato de ele não dobrar-se às vontades de Moscou. Na primeira entrevista desde o início dos protestos — que reuniram mais de 100 mil pessoas no último domingo —, Lukashenko avisou que não permitirá a destruição de tudo o que criou ao longo de gerações. Ele citou a globalização e repetiu: “Se vocês acham que a grande Rússia será capaz de lidar com isso (sua queda), estão enganados; avisei Putin de que é impossível parar isso”.

Lukashenko também comentou sobre a prisão de Kolesnikova. O presidente afirmou que a opositora foi atirada de um carro “em movimento” nas mãos de guardas de fronteira enquanto fugia para a Ucrânia. Testemunhas contaram que ela rasgou o próprio passaporte e lançou o que restou do documento pela janela do carro. Teria sido uma forma de impedir as autoridades de expulsá-la da Bielorrússia. Além de Kolesnikova, outros líderes opositores proeminentes foram alvos da repressão. Svetlana Tikhanovskaya, candidata derrotada por Lukashenko nas eleições, exilou-se na Lituânia em 10 de agosto. Dias depois, Olga Kovalkova, advogada de 36 anos, foi presa, ameaçada e forçada a fugir para a Polônia. Dois outros nomes da oposição, o “youtuber” Serguei Tikhaovskay e o ex-banqueiro Viktor Babariko, seguem presos.

Moradora de Minsk, a professora de matemática Yana Bobrovskaya, 27 anos, duvida da retórica do presidente bielorrusso sobre a potência vizinha com quem faz fronteira a leste. “A Rússia é um daqueles países que apoiam Lukashenko. A recente declaração do Kremlin de que não há prisioneiros políticos na Bielorrússia apenas atesta que Moscou permite a Lukasheko matar a minha nação. Lukashenko nada tem, a não ser o argumento de que a Rússia sumirá, caso ele caia”, afirmou ao Correio a ex-prisioneira política. “As palavras dele soam desespero. Sua intenção é de intimidar a todos. A Rússia não desaparecerá!”, acrescentou. Apesar de reconhecer que os principais adversários políticos do autocrata foram expulsos da Bielorrússia, Bobrovskaya assegura que a oposição tem se fortalecido. “Estruturas de tecnologia de informação invadem sites do governo, estudantes participam de comícios nas universidade e esquadrões são formados por moradores dos bairros para resistirem à violência e à ilegalidade”, relatou.

Para ela, a estabilidade política na Bielorrússia depende da realização de eleições transparentes, da libertação de presos políticos e do respeito à legalidade. Em 9 de agosto, Bobrovskaya e um amigo foram detidos e levados à prisão. “Lá, tiraram toda minha roupa, obrigaram-me a ficar agachada, tiraram todas as minhas joias e o celular, e colocaram-me numa cela. Não pudemos comer, não nos deram papel higiênico nem absorvente. O fedor era insuportável e havia muitas baratas. Somente fui solta três dias depois”, contou a professora.

Dependência

Também ex-prisioneira política, Kryscina Vitushka, 42, explicou ao Correio que os 26 anos de governo de Lukashenko foram erigidos sobre uma política externa bastante restrita, focada em questões econômicas, políticas e militares da Rússia. “As relações com outros países foram bem frias, e Lukashenko refere-se aos russos como ‘nossos irmãos’. Ele costumava dizer que precisamos da Rússia, caso contrário, cairemos em pedaços”, comentou. “Toda a situação lembra dois homens bêbados apoiando-se um ao outro para evitar a queda.”

De acordo com Kryscina, Lukashenko conseguiu impedir a formação de partidos políticos ou organizações de oposição legal ao governo. Ela lembra que a oposição não está representada no Parlamento, nem em nenhum ramo do poder. “A perseguição às cinco personalidades do chamado Conselho de Coordenação é algo muito ruim, mas os protestos não dependem delas. Pessoas com opiniões diferentes do Estado organizam-se em grupos formais e informais: pequenos partidos políticos, profissionais e grupos religiosos. A pressão estatal sobre alguns líderes em particular apenas torna outros grupos mais ativos.”

Povo fala

Yana Bobrovskaya,
27 anos, professora de matemática, moradora de Misnk. Foi presa política entre 9 e 12 de agosto
“Lukashenko não é o presidente do povo. Ele está no poder graças ao Exército e à polícia. Apenas aqueles que se alimentam do poder creem nele. A polícia pode fazer qualquer coisa: sair à paisana, com bastões nas mãos e máscaras. Eles (policiais) se parecem com bandidos!”

Kryscina Vitushka,
42 anos, diretora de marketing de um escritório de advocacia em Minsk “Lukashenko está com muito medo de perder o poder. Ele entende que não tem absolutamente nenhum apoio na Bielorrússia. Então, ele tenta amedrontar os russos, a fim de lhe darem apoio.”

Ales Baliatski,
57 anos, fundador do Centro de Direitos Humanos Viasna, em Minsk

“O regime de Vladimir Putin mostra-se dependente e conectado ao de Lukashenko. Por isso, Putin teme a queda do bielorrusso. A grande ditadura da Rússia ajuda a pequena ditadura da Bielorrússia.”

G7 exige punição no caso Navalny

Os chanceleres do G7 — os sete países mais industrializados do mundo — exigiram que a Rússia encontre e processe, com urgência, os culpados pelo envenenamento do líder da oposição Alexei Navalni. “Os ministros das Relações Exteriores do G7 instam a Rússia a estabelecer, de forma urgente, completa e transparente, quem é o responsável por este hediondo ataque de envenenamento e, tomando em consideração seus compromissos no âmbito da Convenção de Armas Químicas, levar os perpetradores à justiça”, afirmam os Estados-membros, em nota divulgada pelos EUA. Na declaração, os responsáveis pelas diplomacias de Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Reino Unido, Itália e Japão se dizem “unidos na condenação, nos termos mais veementes”, do envenenamento de Navalni. O líder opositor russo, de 44 anos, foi intoxicado com um agente neurotóxico do tipo Novichok e recupera-se em um hospital de Berlim. (CB)

Redação