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Militares no governo abalam credibilidade do Brasil, diz ex-líder português

O Brasil vive um “teatro do absurdo” e o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) levou a reputação internacional do país a “afundar”. A avaliação é de José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal entre 2005 e 2011 e ex-secretário-geral do Partido Socialista. Antes, ocupou cargos de ministro e foi inclusive um dos organizadores da Euro 2004, em seu país.

Em entrevista exclusiva à coluna, o ex-chefe de governo de Portugal constata que o Brasil deixou de ser uma voz relevante no palco internacional e que o envolvimento de militares da ativa no governo é considerado como “intolerável” entre as democracias. “O mundo espera que se termine esse espetáculo do absurdo. O declínio é muito grande. Perece que vale tudo e que não existem limites ao absurdo e para o grotesco”, disse.

Segundo ele, a gestão da pandemia, o desmatamento e a presença de generais no governo brasileiro têm chocado as lideranças mundiais. “Vemos o Brasil como um país que ninguém quer estar perto é uma coisa muito triste”, disse o português. “A verdade é que todos reduziram suas relações com o Brasil e as idas ao país, justamente por não querer estar juntos com o presidente (Bolsonaro)”, afirmou.

Para Sócrates, o Brasil vai pagar um preço econômico pelo desmatamento, inclusive com a paralisia de um acordo comercial com a UE. “A relação entre a UE e o Mercosul está parada e isso ocorre por conta do governo Bolsonaro”, disse.

Em 2015, o ex-primeiro-ministro foi investigado por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro. Hoje, ele aguarda seu processo em liberdade, mas as investigações sobre corrupção já foram arquivadas. Em sua equipe de defesa, ele tem dois advogados brasileiros: Rafael Valim e Walfrido Warde.

Eis os principais trechos da entrevista:

Como o sr. vê a inserção internacional do Brasil hoje e como as lideranças políticas europeias acompanham o que ocorre no país?

Para alguém que ama o Brasil, como é o meu caso, esses anos foram absolutamente desoladores. Eu fui testemunha de um momento de grande expansão do Brasil no cenário internacional, de um momento no qual o Brasil se tornou uma nova voz na comunidade internacional. Fui testemunha de um momento em que o Brasil tinha um papel no desenvolvimento do multilateralismo. Uma relação nova com muitos países africanos. Se o Brasil sobe na hierarquia das nações, todos os países de língua portuguesa vão atrás.

Mas nesses últimos anos, a reputação e a credibilidade internacional do Brasil declinaram e afundaram. E isso é absolutamente visível.

De que forma?

Em vários domínios. Mas provavelmente o mais visível deles seja o do meio ambiente, no qual o Brasil deixou de ser um ator internacional para ser um problema. O Brasil sempre teve na Amazônia uma alavanca de sua atuação internacional. Foi um ativo do país. Agora, é usada contra o Brasil.

A agenda internacional está controlada pela questão climática e o Brasil é visto como um problema e ameaça a si mesmo. Isso mostra o teatro do absurdo que caiu a política brasileira.

Mas na agenda internacional, todos estão muito atentos. Ninguém aceita e nem compreendemos a presença no governo brasileiro de tantos militares na ativa. Isso há muito tempo já está resolvido na teoria geral da democracia. Os militares não podem servir um partido e devem estar acima da disputa política.

Isso surpreende ou choca os europeus?

Eu nem sei mais o que dizer. É muito mais que um choque. O choque foi há alguns anos, quando a Europa e o mundo foram surpreendidos com a presença de militares na política no Brasil. Isso vem do general Villas Bôas, que se pronunciava sobre a política, contra um partido.

Quando as Forças Armadas tomam partido, isso quer dizer que deixaram de ser nacionais e não podem inspirar representar uma nação. Isso já acabou em todos os lados. Há décadas.

Como isso pode acabar?

Isso sempre termina de forma ruim para os próprios militares. Esse problema de imagem pública internacional, de militares dentro do governo, que isso prejudica a imagem internacional do Brasil. Ninguém tolera isso nas democracias. Por terem as armas, os militares não podem tomar partido.

Qual a visão que se tem hoje no mundo da gestão da pandemia no país?

A gestão da pandemia no Brasil foi catastrófica. Nunca houve uma estratégia que unisse todas as instituições. O Brasil deve ter sido o único país do mundo onde o próprio laboratório com melhor imagem — o Instituto Butantan- – teve de enfrentar a resistência do próprio presidente. O governo brasileiro tentou negar o problema da pandemia, depois desvalorizar e, ainda, impedir que a única solução fosse adotada, no caso as vacinas.

O Brasil foi o único país do mundo em que um presidente se opôs à vacina. Já vi muita coisa na minha vida política. Mas presidente que se opõe a vacina?

Isso destrói a capacidade de um país se relacionar com o mundo. Hoje, os brasileiros passam por situações no mundo porque outros governos desconfiam das políticas públicas no Brasil. Isso é horrível.

No mundo, sempre existem negacionistas numa população. Mas isso representa 2% de uma sociedade. Mas não vimos nenhum país no qual um presidente faz tudo que for possível para que um país não se vacinasse e lutasse contra seu próprio laboratório. Isso foi uma desgraça.

Portanto, a questão da pandemia, meio ambiente e a presença de militares deixaram um rastro devastador na reputação e na credibilidade do Brasil enquanto ator internacional.

Diante desse cenário, quais são as consequências ao Brasil no palco mundial?

Não se coloca (o debate) de sanções e nem uma relação hostil com o Brasil. O mundo quer que o Brasil regresse ao seu papel de construção ativa de uma ordem multilateral. O mundo olha para a situação brasileira considerando que se trata de uma situação passageira, que não vai durar muito. E que vai acabar na próxima eleição e que tudo isso foi um equívoco.

O que o mundo vê é que isso que ocorreu não tem tradição na política brasileira. Mas o Brasil paga um preço, por sua imagem e reputação. Mas é um preço que se recuperará com um novo início. O que o mundo quer é que o Brasil mude logo.

O mundo espera que se termine esse espetáculo do absurdo. O declínio é muito grande. Perece que vale tudo e que não existem limites ao absurdo e para o grotesco.

De que forma foi visto na Europa o debate sobre o voto eletrônico no Brasil?

Com uma imagem de muita preocupação. No momento em que o Brasil tem 13% de desempregados, o presidente abre esse debate. Com isso, colocou todo Judiciário contra ele e ele numa batalha contra Judiciário. Depois, colocou os militares nas ruas.

Quando um presidente acha que pode, em 2021 colocar uns tanques dos anos 60, com aquela poluição toda, para intimidar o Congresso, só pode estar a abusar e brincar. A verdade é que a direita no Brasil entrou em guerra civil.

Em que sentido?

Há uma parte da direita que acha que Bolsonaro não tem condições de vencer eleições e outra que acha que é o único que tem condições para disputar a eleição. Trata-se de uma disputa entre aqueles, na direita, que querem construir uma alternativa e o próprio Bolsonaro. No fundo, essa direita que busca uma terceira via percebeu que ela foi a primeira vítima do golpe que a própria direita deu. A primeira vítima da extrema-direita é a direita moderada, sempre. A extrema-direita é um problema acima de tudo para a direita.

Na Alemanha, os nazistas foram ao poder em função de uma aliança de partidos democratas-cristãos e os partidos de centro, com a extrema-direita. Em Portugal, não existia um partido de extrema-direita. Isso significa que a extrema-direita estava nos partidos de direita. Agora, ao ter um partido, enfraquecem a direita.

E como imaginar que isso poderia ocorrer em pleno século 21?

Isso sempre esteve latente. Em Portugal, a direita sempre teve alguns de seus membros que tinham saudades do império, com saudades da ditadura. No Brasil, sempre houve uma direita com saudades da ditadura militar. O Brasil precisa de uma direita democrática. Mas eu tenho dúvidas. Será que existe de fato uma direita democrática no país? Será toda a direita brasileira uma extrema-direita?

Depois de tudo o que ocorreu, Bolsonaro ainda tem 20% de apoio. Um presidente que disse que a tortura funcionava, que disse que queria que o Brasil voltasse a ser como era 40 anos antes. Essa é a direita social que existe no Brasil? As pessoas pensam assim? Se elas pensam assim, lamento muito. Mas a direita democrática tem que se afastar disso. E, ao não fazer esse afastamento, é cúmplice.

Há poucas semanas, o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, foi ao Brasil e sua reunião com Bolsonaro foi questionada. Mas se ele vai ao Brasil e não se encontra com o presidente, ele teria problemas diplomáticos. Hoje, um líder europeu tem espaço para visitar o Brasil?

O mundo não pode prescindir do Brasil e Portugal não pode prescindir do Brasil. Isso não se pode e nem se deve fazer. Agora, a Europa toda já deixou claro que essa condição não irá se manter por muito tempo e que haverá consequências se isso se mantiver.

Consequências econômicas?

A relação entre a UE e o Mercosul está parada e isso ocorre por conta do governo Bolsonaro.

Mas de que forma ele é responsável?

A maior parte dos países da Europa, e principalmente França e Alemanha, não assinará nenhum acordo sem que o Brasil se comprometa a respeitar as regras ambientais.

E se não houver esse compromisso?

Então não haverá acordo comercial. Os países europeus não podem reagir de outra forma. Os partidos ecologistas ganharam força e tem uma importância que levam a UE a ter, como vetor estratégico de sua agenda política, a questão ambiental. Enquanto o Brasil não ver isso e não disser que a defesa da Amazônia é de maior importância, não haverá um avanço. O Brasil vai pagar um preço econômico por tudo isso. Mais cedo ou mais tarde, o preço a ser pago vai ser grande.

As questões ambientais estão dentro de todos os acordos comerciais. O Brasil pode se transformar num ator político que mais ameaça a biodiversidade no mundo. Vai estar em uma posição tão horrível que ninguém vai tolerar. O Brasil vai ter muitos problemas se isso continuar.

Eu fui às cúpulas climáticas, em 2010 em Copenhague, e vi quem eram os grandes atores. Vi a importância que o Brasil tinha nas políticas mundiais. Agora, vemos o Brasil como um país que ninguém quer estar perto é uma coisa muito triste.

A verdade é que todos reduziram suas relações com o Brasil e as idas ao país, justamente por não querer estar juntos com o presidente.

Jogo do Poder

Fonte: UOL