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Militares do Planalto pedem discrição a Mourão após embates com Bolsonaro

A instável relação entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seu vice, Hamilton Mourão, entrou nos últimos dias em uma nova fase de divergências e críticas abertas, levando militares do Planalto a pedirem para o general submergir.

​O episódio mais recente das rusgas foi a proposta que consta de uma apresentação do Conselho Nacional da Amazônia Legal, presidido por Mourão, na qual está prevista a expropriação de propriedades nos casos de crimes ambientais. ​

O documento prevê o encaminhamento de uma PEC (proposta de emenda Constitucional) em maio do próximo ano para autorizar expropriação de propriedades rurais e urbanas acometidas de crimes ambientais ou decorrentes de grilagem ou de exploração de terra pública sem autorização.

Além disso, a ideia é reduzir verbas de municípios que desmatam.

Sem citar o nome do vice-presidente, Bolsonaro falou que poderia demitir o integrante do seu governo que apresentasse essa proposta, a não ser que se tratasse de alguém “indemissível”.

“Ou é mais uma mentira ou alguém deslumbrado do governo resolveu plantar esta notícia. A propriedade privada é sagrada, não existe nenhuma hipótese neste sentido”, afirmou o presidente ao deixar o Palácio da Alvorada na manhã desta quinta-feira (12).

“Se alguém levantar isso aí eu simplesmente demito do governo. A não ser que esta pessoa seja indemissível”, disse.

O assunto voltou a ser comentado durante transmissão ao vivo em suas redes sociais no mesmo dia, quando o presidente disse que era caso de “cartão vermelho”, se fosse uma pessoa demissível —Mourão foi eleito, portanto não pode ser demitido por Bolsonaro.

Após as manifestações de Bolsonaro, Mourão disse que se “penitencia” por não ter colocado os documentos que mencionam a proposta em sigilo.

Afirmou também que eram apenas de “ideias” discutidas pelos ministérios, que não devem avançar. Terminou falando que, se fosse presidente, também estaria “extremamente irritado” com a situação.

A sequência de estocadas do presidente em Mourão fez com que militares bombeiros do Planalto entrassem novamente em ação para baixar a temperatura.

O pedido foi, mais uma vez, para o vice-presidente evitar falar de temas que digam respeito ao presidente e reduzir suas falas à imprensa.

No ano passado, em outro momento no qual Mourão e Bolsonaro trocavam rusgas públicas, assessores presidenciais também tiveram que interferir para evitar a escalada da crise.

Para assessores presidenciais, a fase atual de atrito não ocorre porque houve aumento na insatisfação de Bolsonaro com o parceiro de chapa, mas porque o presidente estava havia muito tempo calado.

Desde o meio do ano, o mandatário, diante de brigas com o Congresso e Judiciário, passou a adotar tom menos bélico de um modo geral. Nesta semana, ele retomou seu perfil agressivo em diversas declarações.

As críticas a Mourão, avaliam integrantes do Planalto, se relacionam com este momento do presidente, que, segundo eles, não é possível afirmar se passará cedo ou tarde.

​A questão da proposta de expropriar terras foi apenas o mais recente foco de atrito entre os dois militares.

Recentemente, Bolsonaro já havia desautorizado seu vice por declarações referentes às eleições americanas, à vacina de origem chinesa, ao leilão do 5G, entre outros assuntos.

A irritação do presidente com seu vice vem sendo manifestada mesmo quando Mourão atua para contornar a pressão em cima de Bolsonaro.

O atual governo tem sido duramente criticado por não ter se manifestado sobre as eleições presidenciais americanas, vencidas pelo democrata Joe Biden.

Ao ser questionado sobre o silêncio de Bolsonaro, Mourão afirmou que o presidente aguardava terminar o “imbróglio” em relação ao resultado para em seguida se posicionar.

“Eu julgo que o presidente está aguardando terminar esse imbróglio aí, de discussão se tem voto falso, se não tem voto falso, para dar o posicionamento dele”, disse o vice-presidente.

“É óbvio que o presidente na hora certa vai transmitir os cumprimentos do Brasil a quem for eleito.”

Bolsonaro disse que as declarações de Mourão representavam apenas a “opinião” dele e que não havia conversado com Mourão sobre assuntos dos Estados Unidos, como “não tenho falado sobre qualquer outro assunto com ele”, afirmou à CNN.

Em outras duas situações, Mourão afirmou que o Brasil iria adquirir a vacina contra a Covid-19 Coronavac —parceria do Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac — e também falou que o leilão para o 5G levaria em conta critérios técnicos, sem restrições à origem da tecnologia oferecida.

Em ambos os casos, Bolsonaro afirmou em seguida que a decisão era dele.

Além de críticas públicas, Bolsonaro demonstra frequentemente insatisfação com o comportamento de Mourão a seus interlocutores.

Como a Folha mostrou, o presidente inclusive já manifestou a aliados próximos que não pretende concorrer à reeleição tendo seu atual vice como companheiro de chapa. Uma saída “honrosa” para Mourão seria lançá-lo candidato a governador do Rio Grande do Sul. (Folha)

Redação