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Ciro Nogueira e o efeito Lula para as eleições de 2022

Toda a população brasileira, principalmente a classe política nacional, foi pega de surpresa diante da decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou, no dia 8 de março, a anulação de todas as condenações proferidas contra o ex-presidente Lula, do PT, pela 13ª Vara Federal da Justiça Federal de Curitiba, responsável pela Operação Lava Jato.

Lula, de 75 anos, havia sido condenado em duas ações penais, por corrupção e lavagem de dinheiro, nos casos do tríplex de Guarujá (SP) e do sítio de Atibaia (SP).

O ministro do STF entendeu que as decisões não poderiam ter sido tomadas pela vara responsável pela operação e determinou que os casos sejam reiniciados pela Justiça Federal do Distrito Federal.

Assim, as condenações que retiravam os direitos políticos de Lula não têm mais efeito e ele pode se candidatar nas próximas eleições, em 2022. Lula estava enquadrado na Lei da Ficha Limpa, já que ambas as condenações pela Lava Jato haviam sido confirmadas em segunda instância, como informou o jornal Folha de São Paulo.

Rompimento

O senador piauiense Ciro Nogueira, que é presidente nacional do Progressistas, aliado de primeira hora do governador do Piauí, Wellington Dias, do PT, decidiu, tempos atrás, romper com o gestor estadual e passou a se lançar como candidato ao Governo do Estado, tecendo críticas ferozes contra o petista, a despeito de ter feito parte da administração. Inclusive, alguns parlamentares do PP continuam aliados do Executivo, fazendo parte de sua base.


Senador Ciro e presidente Bolsonaro

Aliado do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), que era dono de certa popularidade nacional, Ciro Nogueira vinha navegando em águas mansas de uma candidatura ao governo que, para ele, seria até natural, no sentido de realizar um sonho que acalenta há muito tempo. Fez de Wellington Dias seu inimigo nº 1, sempre atacando o governador petista em todas as entrevistas que concede à imprensa local e nacional.

O golpe

Mas eis que o ex-presidente Lula recupera seus direitos políticos e poderá concorrer às eleições presidenciais de 2022. Vale lembrar que Ciro Nogueira se considerava um dos principais aliados do petista, participando de suas campanhas. Participou também da campanha de Dilma Rousseff à Presidência da República, que terminou sendo vítima, em 2016, de um golpe baixo do senador progressista, que votou pela admissibilidade do impeachment da então presidenta.

Na ocasião, Ciro Nogueira disse o seguinte: “Eu venho de um Estado, o Piauí, e de uma região o Nordeste, ao qual tenho bastante gratidão pelos avanços sociais que mudaram a vida de milhões de piauienses e nordestinos. É doloroso estar aqui presenciando o fim de um ciclo, iniciado pelo presidente Lula e que tanto deixou boas recordações na alma de meu povo, do povo do Estado do Piauí e região. Neste momento tão triste, por questão de honestidade, consciência e coerência, temos que reconhecer que o legado das melhorias políticas-sociais implementadas pelo presidente Lula, significaram na vida dos meus irmãos, do meu querido Estado. Assim, eu com o peso da responsabilidade histórica que hoje temos sobre os nossos ombros, voto SIM, pela admissibilidade do impeachment. Meu voto não é contra ninguém, contra nenhum governo. Meu voto é a favor da necessidade urgente que a gente tem de sair do atual impasse. Por isso, voto a favor do fim da crise; à favor do Brasil”. Essa foi a sua justificativa, mas continuou aliado de Wellington Dias até agosto do ano passado.

O rompimento, dizem alguns analistas, serviria para o fortalecimento de Ciro Nogueira junto ao presidente Jair Bolsonaro, adversário extremo do PT e de quem o progressista se considera o filho número 05.

Água no barco

O barco da candidatura de Ciro Nogueira ao Governo do Estado começou a enfrentar turbulência e a entrar água, com a queda constante de popularidade de Jair Bolsonaro, desde meados de 2020, principalmente por conta de uma gestão atabalhoada, negacionismo frente ao novo coronavírus e falta de gestão no enfrentamento à pandemia, que já causou 285.136 mortes e 11.700.431 pessoas infectadas até esta quarta-feira, 17 de março. E o presidente continua desprezando essa realidade trágica e vem sendo considerado mundo afora como criminoso contra a humanidade. O Brasil passou a se tornar risco de alto grau no planeta.

Outro golpe contra a candidatura ao governo de Ciro Nogueira veio com a recuperação dos direitos políticos do ex-presidente Lula, que fortalece o grupo político comandado no Piauí por Wellington Dias, que também vem sendo considerado uma espécie de líder nacional e referência no enfrentamento à pandemia, representando os governadores nordestinos e de todo o país no contraponto e em gestões frente ao governo federal em torno da tragédia sanitária que se abate sobre o país.


Wellington Dias em reunião com governadores

Canto de sereia para JVC

O que faz agora Ciro Nogueira? Busca uma saída honrosa sobre sua candidatura ao Governo do Piauí, que começou a fracassar com baixa popularidade de Bolsonaro e o efeito Lula. Sai atrás de outras lideranças para assumir esse papel, como faz agora com o canto de sereia junto ao ex-senador piauiense João Vicente Claudino, do PTB.


João Vicente e Ciro

O jornalista e analista política Luiz Brandão também opinou que o progressista espera convite para ser candidato a vice-presidente em chapa majoritária com Jair Bolsonaro. Mas essa intenção pode naufragar muito antes do que se espera, principalmente se a popularidade do “sem partido” continuar a descer ladeira abaixo.

Segundo ainda o jornalista, Ciro Nogueira não tem nada a perder. “Mesmo que venha ser candidato da chapa do capitão e seja derrotado, vai continuar senador e, com seu partido e o chamado Centrão, vai continuar se nutrindo no governo até o fim. E pra ele ir pra outro governo não é difícil. Pra políticos como Ciro ruim mesmo é ficar na oposição.”

“Em saindo para compor a chapa com Bolsonaro, o senador sai da disputa pelo governo e JVC, que deverá ir para o Progressista, partido de Nogueira, assumiria a candidatura de governador e teria uma mulher do PSDB como candidata e vice-governadora”, analisa Luiz Brandão.


Senador Ciro Nogueira

Por outro lado, se Lula continuar a crescer em popularidade, mesmo sem ser ainda candidato a nada, Ciro Nogueira poderá retornar ao seu ponto inicial: em cima do muro.

Redação